N.100 - Março/Abril (March/April) de 2001

A contagem do número de dias para a incubação e da criação de jovens altriciais no ninho: a importância da padronização.

Yoshika Oniki & Edwin O. Willis - Rio Claro-SP

Nos dias atuais, tudo acontece rapidamente graças à moderna tecnologia, principalmente ao uso de computadores que gerenciam desde a produção de automóveis até a quantidade de tinta liberada para a impressão de jornais, e revistas, ou o seqüenciamento genético por comparação de milhares de genes.

Nas diversas áreas, tornou-se, então possível manipular grandes quantidades de dados e efetuar cálculos estatísticos em poucos segundos enquanto no passado tudo isso era feito nas máquinas de calcular, trabalho estafante e demorado. Então, nos países do hemisfério norte, onde a biologia das aves é melhor conhecida que as do hemisfério sul, é "estar na crista da onda" efetuar seqüenciamento genético, analisar a filogenia de um grupo ou outro para se determinar o parentesco entre aves de diferentes gêneros e até famílias e ordens.

Aqui no Brasil, no estudo de aves, progredimos pouco; necessitamos ainda de muitas horas no campo para desvendarmos a história natural das aves: desconhecemos a biologia de um grande número de espécies de aves, desconhecemos o ninho de muitas aves e até o habitat onde vivem. É o caso de Conothraupis mesoleuca em que a ave é apenas conhecida pelo seu tipo macho, não se conhece sua fêmea, não se sabe em que habitat vive.

Nos últimos 20 anos, graças ao aumento de estudiosos na área da ornitologia brasileira, está havendo um avanço no conhecimento da biologia das aves, material básico para estudos comparativos de filogenia. Entretanto, para que possamos comparar rapidamente os dados obtidos sobre ninhos, nidificação, e criação de ninhegos, é necessário que os mesmos sejam obtidos de forma mais ou menos padronizada. A padronização de metodologia e dos termos utilizados é importante em qualquer área quando se pretende uma comparação. Isso quer dizer que uma coisa simples como a contagem do número de dias em que os ovos são incubados e do número de dias que os jovens altriciais permanecem dentro do ninho deve ser feita de tal forma que uma comparação posterior com dados obtidos de outros autores seja possível e, em adição, fornecer os dias dos eventos. Este último possibilita, em caso de dúvida, a qualquer autor fazer a recontagem dos períodos de incubação ou criação dos filhotes no ninho.

Trabalhando com ninhos de aves desde 1966 (Y. O.) ou antes (E. O. W.), temos percebido que os autores podem errar na contagem do número de dias de incubação de ovos ou de criação de jovens no ninho. Um tipo de erro é contar o primeiro dia (dia de oviposição) como "primeiro dia, Dia 1", que seria como chamar um bebê recém-nascido de bebê de "um ano, Ano 1" , antes de seu primeiro aniversário. Assim, se o último ovo de uma ninhada de X ovos foi posto, digamos dia 15 de setembro, e ambos os filhotes nasceram em 30 de setembro, a incubação foi de "16 dias." Neste caso, os jovens deixando o ninho em 15 de outubro, têm "16 dias" de idade ! Essa contagem está duplamente errada, com "32 dias" no total. Este tipo de contagem é um erro! O dia da postura do ovo e do nascimento (da eclosão) deve ser considerado como "Dia 0".

Podemos encontrar na literatura esse tipo de erro, mas se o autor indicar as datas de postura, de eclosão e de saída de jovens do ninho, é possível fazer a recontagem e verificação dos dados. O problema é que muitos autores não indicam a data em que a ave botou o último ovo e, em que dia cada filhote eclodiu ou saiu do ninho. Achamos que isso pode ter acontecido com um autor da Argentina e outro de Trinidad, porque eles indicaram "14 dias" para incubação na choca-barrada Thamnophilus doliatus, quando estamos registrando 13 dias. Estamos entrando em contato com um dos autores, mas o outro já é falecido e a correção não será mais possível.

Nice (1954) indicou um outro problema: é preciso verificar se a ave começou a incubar com o último ovo, com o primeiro ovo, ou com o penúltimo ovo. Mais correto ainda, de acordo com Nice, é contar desde a data do último ovo posto até a eclosão deste mesmo ovo. Ou, no caso da ave iniciar a incubação desde o primeiro ovo, contar desde a data desta postura até o dia em que este ovo eclode; depois, fazer o mesmo com cada ovo da ninhada. Sem contar o "Dia 0" como "Dia 1", porque o bebê ainda não passou seu primeiro dia fora "da mãe ou do ovo".

Quando se tem uma amostra grande de ninhos para uma determinada espécie de ave, é possível verificar as pequenas variações mesmo dentro da espécie e calcular o período médio de incubação e criação de jovens no ninho. Porém, quando se trabalha com poucos ninhos (fato muito conhecido pelos estudiosos de ninhos nos neotrópicos) torna-se crítico que as comparações sejam feitas com dados obtidos por outros pesquisadores, advindo daí as vantagens da existência de padronização.

Bibliografia Consultada

Nice, M. M. 1954. Problems of incubation periods in North American birds. Condor 56: 173-197.

 

Departamento de Zoologia, UNESP, C. P. 199, 13.506-900 Rio Claro, SP

 

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Última modificação (
Last modified): 10 março, 2014