N.100 - Março/Abril (March/April) de 2001

 

Construindo a nossa história

Sérgio de Almeida - São Carlos - SP

E o nosso jornal completa 100 edições! Nada menos que duzentos meses de trabalho! É, sem dúvida, um fato admirável na história das publicações ornitológicas em nosso país! Já vai longe quando, estranhamente para nós leitores, fomos encontrados pelo entregador do correio que trazia o número 1 do Atualidades Ornitológicas. Tinha quatro páginas e letra miúda, falando numa linguagem gostosa sobre tudo o que nos faltava: as novidades na área da ornitologia. Curiosamente, também, empunhava a bandeira de que a criação de aves em cativeiro ajudava a preservá-las no estado selvagem.

Depois da leitura do número 1 acho que a pergunta mais comum que ocorreu a muitos de nós foi: ¨Será que vai ter o número 2?¨ . Considerei esta questão normal , pois nesta área a pobreza de publicações a nível popular era um fato notório, apesar dos esforços de um ou de outro abnegado, entre eles o sr José do Egypto Lima, editor de ¨O Canarinho¨, que nessa época deixou de ser publicado e de onde nossos endereços foram obtidos.

Mas, para nossa alegria, vieram os números 2, 3, 4 ... até os dias de hoje. E o mais surpreendente: além de carregar a mesma bandeira, traço de personalidade inconfundível, trazia instalado um processo de melhoria contínua, que veio a se revelar no decorrer dos anos, com melhor diagramação, aumento do número de páginas, impressão colorida, além do ingresso precoce na era eletrônica, tudo isso como resultado de um estratégico pensar à frente.

Após tantas edições é confortável olhar para trás e perceber aqui e ali pontos que nos levam à análise e reflexão. Como foi possível o AO ter durado e progredido tanto num meio em que o descrédito era o ritmo? Que fatores propiciaram tal fenômeno?

Alguns dirão que atingir esse resultado não é coisa do outro mundo, pois basta ter um bom apoio financeiro e todos os outros problemas passam a ser de menor importância. Será isso verdade?

Não resta a menor dúvida que muitas publicações já deixaram de existir pela falta de condições financeiras. Mas, quem vive nesta área, sabe que muitas coisas podem fazer os empreendimentos terem ascensão e queda, às vezes muito rápidas. Como exemplos é possível citar entre outros: falta de articulistas; imposições de patrocinadores ou associações que ficam em desacordo com o pensamento do editor; falta de compromisso com a qualidade, incluindo o cumprimento dos prazos de entrega ao consumidor, além da vaidade pessoal de muitos editores, que pode aflorar ao sabor de mínimas questões, solapando qualquer planejamento. A conseqüência de um ou mais desses problemas é o consumidor, outrora entusiasmado, ficar ¨chupando o dedo¨. Ou seja, existe um cliente ávido pelo consumo e um fornecedor incompetente em satisfazê-lo por outros fatores que não o apoio financeiro.

Ao contrário disso, em todos esses anos, o AO soube vencer os empecilhos, construindo-se e mantendo-se como publicação de qualidade a nível nacional e internacional, sendo veículo de referência para as novidades de criadores, associações ornitológicas e trabalhos de notáveis estudiosos. Não seria demais afirmar que a maior parte do que foi escrito sobre ornitologia dirigido a criadores e ornitófilos em geral nos últimos 16 anos, a nível popular, foi disponibilizado por AO.

Entre as opiniões sobre os porquês do sucesso do AO a minha aponta para a feliz união entre o patrocinador e a capacidade do editor em negociar possibilidades de expressão a diversos colaboradores. Acho que esse equilíbrio, garimpado diuturnamente e aperfeiçoado à custa de muitas idas e vindas, é o ponto vital da sua subsistência.

Assim como nos perguntamos sobre o futuro do AO quando recebemos o primeiro número, acho que agora, ao se atingir esta marca surpreendente, muitas pessoas certamente estão pensando: "Puxa vida! Que coisa bonita!", ou uma porção de frases semelhantes. Imagino, também, que muitos outros estão desejando: "Tomara que o AO continue sempre assim! ".

Numa ocasião destas é normal desenhar cenários ou possibilidades de evolução para AO. Mesmo que pareça um exercício de futurologia, arrisco alguns cenários, palpites e sugestões, fundamentado em fatos e dados que tenho como leitor assíduo.

De início é possível imaginar dois cenários desalentadores para todos nós: o primeiro é o término do patrocínio, não se obtendo outro para que o empreendimento continue. Não acredito que isso ocorra. O segundo cenário viria a se concretizar com o editor dizendo: ¨É hora de parar. Fiz a minha parte e agora vou descansar.¨ Embora também ache difícil essa ocorrência, uma decisão destas pode ser considerada bastante corriqueira, passível de acontecer com qualquer pessoa. Assim, da mesma forma que no primeiro cenário AO deixaria de existir, sem substituto.

Um terceiro cenário mostra tudo ficando no ritmo atual de crescentes melhorias técnicas e na continuidade das atuais colaborações e de braços abertos a novos e antigos colaboradores.

Num quarto cenário imagino AO investindo na publicação de livros, vídeos, calendários, pôsteres etc, promovendo concursos em escolas de ensino fundamental, médio e superior, ampliando o número de páginas, divulgando trabalhos de universitários, inclusive a nível internacional, promovendo a volta das discussões de temas polêmicos na seção ¨ Pombo Correio ¨ , abordando a questão do uso da floresta amazônica e de outros temas ambientais ligados à ornitologia e ampliando a seções ¨ Vitrine ¨ e de ¨Pequenos Anúncios ¨ . ( Caramba! Como é fácil sonhar, não é? Mas, o que seriam das realizações se não fossem os sonhos a alimentá-las?).

Arrisco, ainda , a seguinte conjectura, incômoda, mas necessária: e se o futuro optar pelo terceiro cenário e o AO chegar a outras 100, 200, ... edições, que procedimentos deveriam ser tomados se o editor se afastasse parcial ou totalmente de suas atividades? Será que apenas a sua agenda com os nomes e endereços dos colaboradores garantiria o bom desempenho da rede de contatos?

Ora, quem conhece o funcionamento do AO sabe que o esteio do mesmo é a capacidade de negociação do editor, em de gerar um desenrolar de tapetes para o desfile dos articulistas, clientes e outros colaboradores. Sem essa característica é fácil deduzir que um processo claudicante e fora de controle tem possibilidade de se instalar.

Por isso , vislumbrando uma vida longa para o jornal, não é fora de propósito imaginar que a continuidade do sucesso do AO passa pelo preparo de novas gerações de administradores capazes de se espelhar nos procedimentos que deram certo ao longo de tanto tempo. Vejam os grandes jornais e várias outras publicações que continuam a resistir a gerações da família sem perder o seu estilo, até mesmo com motivações em nada semelhantes às que permitiram o sucesso do empreendimento. Entendo que esse espelhamento seria uma forma de não só garantir a manutenção do cenário três, mas servir de trampolim para desenvolver o quarto e outros cenários mais promissores. Quem sabe quantas vezes o editor já pensou nisso?...

À parte das recordações sobre os primeiros números e das manifestações de desejos, receios e possibilidades delineados em alguns cenários, este é, sobretudo, o momento de todos nós nos parabenizarmos, tanto aqueles que produzem o AO, como quem lhe dá crédito, na atitude de divulgar sua mensagem ou de manifestar a sua opinião sincera, porque é através dessa participação que estamos construindo a nossa própria história, cujas peculiaridades e níveis de qualidade dependem de nós, atores que somos deste processo.

Ver: AO 50. ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS - O jornal que deu certo!

 

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Última modificação (
Last modified): 11 março, 2014