N.115 -Setembro/Outubro (September/October) de 2003 pág.12

 

Repovoamento com bicudos Oryzoborus crassirostris maximiliani

Aloísio Pacini Tostes – Ribeirão Preto-SP

Praticar a preservação é uma obrigação de todos nós que amamos e cultivamos as aves nativas brasileiras. Há várias formas de se fazer isso. As mais importantes seriam: evitar todo tipo de degradação ambiental e manter os ecossistemas como estão para que, assim, seja preservada a sua biodiversidade; a outra, a criação doméstica dos animais, notadamente as que estão ameaçadas de extinção. Dentro desse enfoque, e para que iniciemos um efetivo processo de preservação, estamos enviando à Direção de Fauna do IBAMA, um texto solicitando a autorização para que possamos aprofundar os estudos no sentido de efetuar um repovoamento de bicudos na natureza. Vejam o teor desse importantíssimo documento, a saber:

"DIRETORIA DE FAUNA E RECURSOS PESQUEIROS Brasília – DISTRITO FEDERAL

Att. Dr. Rômulo José Fernandes Barreto Mello

PROJETO REPOVOAMENTO DE BICUDOS – Oryzoborus crassirostris maximiliani na Região de Dracena SP - Vimos até a presença de V.Sa. no sentido de comunicar e solicitar o obséquio de sua anuência à intenção desta COBRAP a efetuar, em conjunto com as autoridades competentes, um projeto de repovoamento do passeriforme bicudo (Oryzoborus crassirostris maximiliani) a ser praticado no oeste do Estado de São Paulo, na região da cidade de Dracena.

Estamos nos municiando de todos os requisitos necessários para atingir o nosso objetivo. Já conseguimos o compromisso de vários criadores, que doarão inicialmente dez casais de bicudos jovens, nascidos em criadouros domésticos e que serão escolhidos pelo biotipo e antecedentes de origem, isto porque só nos servirá a subespécie nativa da região: O. c. maximiliani.

A propósito, dizemos-lhe que o bicudo é um pássaro que está ameaçado de extinção na natureza, conforme descrito na Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, do Ministério do Meio Ambiente, a saber: http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna/index.cfm

Nossa entidade concorda com o fato, ainda mais se considerarmos que essa ave é extremamente exigente com o seu habitat natural; é preciso uma grande área de alagados, onde deve vicejar o "capim navalha", de vários tipos, notadamente daqueles que nascem apenas em regiões onde há muita água limpa a cobrir as suas raízes, sendo assim, vítima primeira de degradação ambiental nas cabeceiras e margens de rios e lagoas.

O bicudo voa muito, de um lado para o outro, movimentando-se pelo ambiente, a grandes alturas, alçando vôos por quilômetros de distância, num movimento sistemático, o dia todo. Daí a necessidade de extensas quantidades de terras apropriadas a sua disposição.

Mais ainda, como é um pássaro nobre, muito requisitado como ave de gaiola da melhor qualidade, por seu lindíssimo canto, porte, valentia e características individuais diferenciadas, foi vítima de intensa caça predatória, o que colaborou efetivamente para a diminuição da população silvestre da espécie.

Alenta-nos o fato, todavia, da grande reprodução doméstica que está se exercendo com esse pássaro por todo o Brasil. Temos ciência e comprovação de que milhares deles, a cada ano, são produzidos domesticamente de norte a sul do País.

Dentro desse contexto, esta COBRAP e todos nós, que amamos e cultivamos as aves nativas brasileiras, temos uma grande preocupação com o futuro das mesmas e sua conseqüente preservação. Desejamos continuar com o trabalho de reprodução doméstica, mas também queremos a segurança de que elas poderão, no futuro, viver livres na natureza, em estado selvagem e onde for possível.

A biodiversidade dos ecossistemas deve ser preservada e as aves exercem papel importante nesse mister. Sabemos disso muito bem. É por isso que estamos propondo, através deste documento, a viabilização deste projeto de Repovoamento de Bicudos. Queremos recompor, naquilo que pudermos contribuir e de forma efetiva, com atitudes, ações reais, sem a necessidade de muitas reuniões e retóricas.

Nossa proposição é de que o trabalho poderá chegar a bom termo se for desenvolvido na área de desemboque no Rio Paraná dos afluentes Aguapeí, Verde e Peixe, oeste do Estado de São Paulo, na região de Dracena, fronteira com Mato Grosso do Sul, nas proximidades da cidade de Brasilândia (MS), à jusante da Barragem de Jupiá, conforme pode-se localizar pelos mapas colocados na Internet pela EMBRAPA:

http://www.cdbrasil.cnpm.embrapa.br/sp/htm3/sp03_01.htm

http://www.cdbrasil.cnpm.embrapa.br/ms/htm3/ms05_05.htm

De igual aspecto o trabalho efetuado pelo Governo do Estado de São Paulo a respeito de recursos hídricos, que também indica a região que ora abordamos, a saber: http://www.recursoshidricos.sp.gov.br/MReg20.htm

A propósito, escolhemos a citada região porque está repleta de alagados e de áreas ainda não totalmente degradadas, que podem suportar uma razoável população de bicudos, compreendendo várias comunidades, embora tenhamos consciência de que a barragem de Porto Primavera logo abaixo no Rio Paraná, tenha inundado inúmeros ecossistemas apropriados à vida selvagem de bicudos.

Baseamos nossa escolha no fato de termos passado dois dias transitando de barco pelos varjões e alagados ali existentes, fotografando e observando atentamente a vegetação, as reais condições de alimentação natural apropriadas ao bicudo e os locais adequados a sua reprodução, bem como os animais silvestres, num deslumbrante cenário de ambiente natural que tem que ser preservado como ainda está.

Acresce também dizer, que o proprietário da Fazenda Bandeirante, Dr. José Luis Sammarco Palma que possui 22 quilômetros à beira do Rio Aguapeí, incluindo área de preservação, ofereceu seu imóvel para integrar o nosso projeto, conforme mensagem enviada à COBRAP:

"desnecessário dizer que estamos no mesmo barco para o que der e vier em relação ao repovoamento dos bicudos na bacia do Paraná, especialmente no que tange nossa propriedade às margens do rio Feio (ou Aguapeí ), (Fazenda Bandeirantes-mun. Paulicéia) na confluência com o famoso Paranazão. Estaremos colocando toda a nossa estrutura ( eu disse toda ) para que este nosso projeto dê cem por cento certo, com o auxílio dos bicudeiros da região de Dracena , como o Dr. José Cláudio e D. Marizilda Grando, Sinval Amaral , Bernardo (filho do Lamartine Meirelles, que tem área na região também) e todos os outros nossos amigos".

Assim, como já possuímos os bicudos, falta apenas ajuntá-los em um determinado local a ser escolhido em Dracena – SP, onde ficarão, livres de todos os tipos de doenças, à disposição dos técnicos para que sejam manejados no sentido de estarem aptos a serem soltos na natureza.

Depois de acasalados e adaptados em grandes viveiros, serão observados quanto à alimentação com o capim navalha existente na região. Sabemos que esta semente desperta um grande interesse de consumo nos bicudos, independente de sua condição de doméstico ou não - é um impulso incontrolável para eles.

Ademais, temos experiência com bicudos criados que fugiram de gaiola e conseguiram viver durante meses nos brejos onde havia fartura deste tipo de semente. Reputamos tudo isso ao instinto e à sabedoria da mãe natureza, que determina a cada espécie o cumprimento da sua função inata.

Daí o porquê, do bicudo, por mais doméstico que seja, conservar o seu lado arredio, desconfiado e o comportamento de ave silvestre. No manejo de quase 50 anos com esta espécie, muitos dos integrantes do nosso segmento afirmam categoricamente que o empreendimento tem tudo para cumprir a sua finalidade.

Além disso, por precaução, faremos as solturas de forma gradativa e levaremos tempo para efetivá-las, este tempo será determinado pela pesquisa que apontará a taxa de adaptação e dispersão dos indivíduos. Monitoraremos cada um deles e periodicamente tentaremos segui-los e observá-los. Precisaremos, logicamente, de apresentar relatórios que tragam transparência nas informações pertinentes ao desenvolvimento do projeto, até porque poderá servir de base para futuras gestões semelhantes.

É nossa intenção, de forma imprescindível, dispor do trabalho técnico de biólogo, que participará do projeto de procedimentos detalhado a ser escrito, aprofundando as discussões, além do apoio de Universidade da região que estamos contatando, bem como de uma ONG da área, que irá nos ajudar a vigiar e colaborar na fiscalização dos respectivos mananciais.

Isto posto, deve ficar claro que só iniciaremos a efetivação do projeto após a orientação desse IBAMA, tanto na aquiescência como também no necessário apoio estrutural, técnico e legal, depois de contar com compromisso de custeamento das respectivas despesas, que serão gastas em toda a sua execução, provindo de uma fonte segura.

Sendo assim, Senhor Diretor, ficaremos no aguardo de sua manifestação e de sua competente autorização para de darmos seguimento às providências sempre conjuntas a respeito dessa efetiva ação de proteção e preservação de uma das mais importantes aves da fauna brasileira. Aproveitamos a oportunidade para renovar-lhe nossos protestos de estima e consideração.

 

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Última modificação (
Last modified): 15 novembro, 2015