N.126 - Julho/Agosto (July/August) de 2005 pág. 3

O processo de repovoamento de bicudos

Aloísio Pacini Tostes – Ribeirão Preto-SP

 

        Também chamado de reintrodução, executar o repovoamento dentro das regras e monitorado é um tanto complicado, mas exeqüível. Só depende de muita determinação dos envolvidos. Temos primeiro que buscar local adequado onde outrora havia populações de bicudos livres e que ainda haja extensos alagados e segurança da conservação da fauna e flora existentes, a fim de que não se estabeleçam futuras ameaças aos indivíduos, objetos do empreendimento e de seus eventuais descendentes. Ali deverá existir muita água limpa e perenemente, o capim-navalha do bicudo, aquele que viceja bem no centro do brejo, essencial para a alimentação básica das aves e que depende da exposição de muita umidade em sua raiz. Definida com precisão a subespécie da região escolhida, procurar-se-ia entre os criadores registrados aqueles que as produzem para fornecimento de exemplares para o projeto, “em pureza” e não consangüíneos que logicamente serão submetidos a exames para detecção de eventuais enfermidades. Não se poderá de forma alguma promover-se soltura de animais afetados por qualquer tipo de anormalidade com respeito a sua saúde. Determinado o local, depois de escolher-se um biólogo e um representante dos criadores que conheçam bem o comportamento e os hábitos desse pássaro, bem como ONG que se interessa pela questão. Todos esses aspectos serão submetidos e aprovados pelas autoridades locais e IBAMA. Deve-se saber com segurança, de onde sairão o aporte de recursos financeiros para a consecução do empreendimento. Com a aprovação de todo o projeto pelo IBAMA, pode-se daí  partir para a efetivação da pretensão, baseada em no máximo três casais por temporada num total de 5 anos e, portanto, 15 casais. Os bicudos objetos têm que ser jovens e deverão estar em processo de acasalamento no mínimo 60 dias antes da levada para o campo.

Em seguida seria de se produzir um viveiro com as seguintes características:

 

a)      Dimensões: 4  X 3.4 X 3 m, de forma a caber em um caminhão médio facilitando o transporte; 

b)     Arquitetura: duas meias-água, desmontáveis em partes parafusáveis umas às outras;

c)      Material: todo em metal (alumínio ou metalon);

d)     Cor: Verde escuro assemelhando ao tom da vegetação local;

e)      Tela:  6mm, de metal;

f)       Piso: direto no chão adentrando todas laterais a meio metro no solo;

g)      Divisão: em dois módulos (para o macho e para a fêmea);

h)      Laterais: móveis de forma a se poder retirá-las;

i)        Proteção: proteger a peça contra o vento canalizado através de lonas apropriadas;

j)       Portas: Quatro em cada módulo, sendo que uma em cada módulo deve permitir a entrada da pessoa do tratador (para facilitar o manuseio), bem como outra ficará aberta no momento da soltura de cada a ave;  

k)      Comedouros: 4 peças iguais (duas a serem penduradas por fora);

l)        Bebedouros: 4 peças iguais (duas a serem colocadas no chão  pelo lado de  fora);

m)   Telhas: adaptar-se telhas de barro para sombra, proteção contra chuvas e dormitório;

n)      Som: Deverá haver um instrumento sonoro, à pilha, que emita o som do canto do bicudo macho (gravado anteriormente), para servir de referência à fêmea a fim de prevenir eventual desnorteamento;

o)      Disposição: Deverá vestir uma pequena árvore no próprio brejo e que pode ser podada para um melhor ajustamento; e

p)     Segurança: Não permitir entrada de roedores e répteis e tomar todo o cuidado com a vizinhança de predadores em especial de gaviões e corujas.

 

Após a colocação do viveiro no local escolhido, soltar o macho e a fêmea, separados um do outro, até que um esteja aceitando a presença do outro sem desavenças. No início, alimentá-los também com sementes usadas domesticamente para, aos poucos, ir substituindo-as pelo capim-navalha e outras sementes naturais existentes na região.

Com segurança de que haja sementes de capim-navalha em abundância nessa época que naturalmente é a adequada à reprodução na natureza, depois de quinze dias passados no viveiro, em dia ensolarado, soltar somente a fêmea pela parte da manhã, após tê-la deixado com pouca comida. Nesse momento, ter-se-á o cuidado de deixar uma porta aberta possibilitando a entrada e saída dela na peça, sem que seja forçada a isso.  Ministrar comida e água nos cochos e recipientes que estão do lado de fora e observar o seu comportamento, em especial na aproximação ao viveiro onde está o macho, ainda preso. Caso ela inicie um processo de se alimentar na natureza e beber água pelo lado de fora ou de dentro, há a constatação positiva de sua reação. Neste mesmo dia, da soltura, no período da tarde é salutar que a fêmea seja fechada, por segurança. No outro dia de manhãzinha se tornará a soltá-la e o movimento deverá se repetir por 8 dias no mínimo. O macho neste período deverá estar cantando intermitentemente; caso não esteja, ligar o som com o respectivo canto para ajudar na orientação. Uma vez comprovado que ela está ambientada com a rotina de voar pelas redondezas, estar por perto e alimentando-se de sementes, deve iniciar-se o processo de soltura do macho. O procedimento é o mesmo: liberá-lo na parte da manhã junto com a fêmea já treinada no entra-e-sai da peça.  Daí em diante, observa-se o casal. Se depois de uma semana estão juntos e sempre por perto do viveiro, é sinal que há boas perspectivas e que está dando certo. Temos, então que torcer para que eles entrem em processo de nidificação de preferência por dentro do viveiro.  A alimentação complementar tem que ser dada até que se tenha a certeza que estão praticamente dispensando a oferta. Esta certeza pode até demorar um pouco. Então, repetir-se-ia o processo com os outros dois casais com o objetivo de possibilitar maiores chances de sucesso. É o máximo que se recomenda por temporada anual de choco na natureza, até porque é um complicado procedimento de manejo a ser cumprido.

Do mesmo passo o biólogo e o criador devem montar um acampamento por perto, possuir um binóculo para acompanhamento e demais acessórios (ninho artificial de sisal ou bucha, alimentos, fármacos de emergência). Ficarão observando as aves por um período nunca inferior a três meses, até que provavelmente haja produção de filhotes e eles possam sobreviver no ambiente sem a interferência humana. Todo o projeto só se completaria após 5 anos de monitoramento e com a respectiva avaliação dos correspondentes resultados. Caso tudo corra bem, nesse período, daria para devolver à natureza cerca de 15 casais. Esse tipo de ação é necessário e uma obrigação. Temos todos que tornar viável a existência de todas as nossas aves nos ambientes naturais. Temos sim que pelo menos começar assegurar a sua conservação. O efetivo processo de repovoamento é possível, basta querer.

lagopas@terra.com.br

 

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Última modificação (
Last modified): 15 novembro, 2015