AVE-SÍMBOLO DO BRASIL - Qual a Espécie Ideal?

Otávio Salles - Jacutinga - MG

Gonçalves Dias, o tão querido bardo maranhense, imortalizou na famosa CANÇÃO DO EXÍLIO as virtudes musicais do sabiá, contribuindo para sua consagração popular (curiosamente, parece que o pássaro da conhecidíssima poesia era um Mimus gilvus antelius, que nada tem a ver com os sabiás, embora seu nome comum seja sabiá-da-praia). Isso certamente pesou quando foi proposto para ave-símbolo do Brasil o sabiá-laranjeira. Muito trabalhou neste sentido o nosso caro sr. Johan Dalgas Frisch, que deslumbrou o mundo com a gravação do canto de inúmeras aves brasileiras, inclusive a impressionante e mágica melodia do uirapuru. No decreto federal, que instituiu o Dia da Ave, porém, não há qualquer referência a esta ou aquela espécie como ave-símbolo.

O decreto, na íntegra é o seguinte:

Decreto nº 63.234 - de 12 de setembro de 1968.

Institui o Dia da Ave e dá outras providências.

O presidente da República, no uso de suas atribuições que lhe confere o Artigo 83, item II, da Constituição, decreta:

Art. 1º - É instituído o "Dia da Ave", cuja comemoração será feita a cinco de outubro de cada ano.

Art. 2º - O Ministro da Educação expedirá instruções dispondo sobre o "Dia da Ave", bem como fixará os programas das comemorações a serem recomendadas às escolas primárias e médias do País.

Art. 3º - Este decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 12 de setembro de 1968, 147º. da Independência e 80º. da República.

A. COSTA E SILVA

Tarso Dutra

Publicado no Diário Oficial de 16 de setembro de 1968. Terá o Ministro da Educação da época, nas instruções mencionadas no Art. 2º, oficializado o sabiá-laranjeira como ave-símbolo do Brasil? Isso não pude apurar. Mas em 5 de outubro de 1968, na capital paulista, comemorou-se pela primeira vez o Dia da Ave, em solenidade que teve como orador oficial o imortal naturalista prof. Augusto Ruschi, o mago dos beija-flores, certamente simpático ao sabiá-laranjeira como ave nacional, tanto que o pássaro figura com ênfase em sua valiosa obra AVES do BRASIL (na capa e numa das páginas iniciais). O fato é que, dessa época em diante, o inconfundível tordo tropical passou a ser conhecido como nossa ave-símbolo. Eu próprio durante animada comemoração do Dia da Ave, há alguns anos, ministrei aula de Ornitologia e distribuí nota à imprensa exaltando seus méritos vocais.

Recentemente, porém, em sua extraordinária obra ORNITOLOGIA BRASILEIRA, uma Introdução, o ilustre e tão sábio ornitólogo prof. Helmut Sick questiona a validade de se escolher para ave-símbolo do Brasil uma espécie internacional como o sabiá-laranjeira (também ocorre em diversos países vizinhos), julgando-o pouco representativo da ornis brasílica e sugerindo o que considera opções mais condizentes com nossa condição de país tropical. No entender do prof. Helmut, as aves ideais para representar o Brasil seriam a ARARA-AZUL, Anodorhynchus hyacinthinus ou a ARARAJUBA, Aratinga guarouba. Ele confessa preferir a segunda, encantado com o pouco comum verde-amarelo de sua plumagem. Leva em conta, ainda, o fato de ser espécie endêmica e exclusivamente brasileira.

A tomada de posição do prof. Helmut mereceu aplausos e simpatia de diversas áreas, mas também provocou controvérsias. O prof. Augusto Ruschi oficiou a este jornal dando seu parecer, providência igualmente tomada pelo sr. Johan Dalgas Frisch, que veio em socorro declarado do sabiá-verdadeiro, Turdus fumigatus. Nessa polêmica criada é preciso salientar que nem o prof. Ruschi (infelizmente, já ausente) e muito menos o sr. Johan tentaram puxar a brasa par as próprias sardinhas. Isso não! Se assim fosse, o primeiro escolheria sem maiores rodeios um beija-flor e o segundo defenderia com unhas e dentes o uirapuru. Não sei se até a publicação deste trabalho mais alguém emitiu opinião, mas é inegável que a lebre levantada pelo prof. Helmut (aqui seria melhor dizer a perdiz...) não deixa de ser benéfica. E sua escolha, justiça seja feita, foi de um bom-gosto dificilmente superável.

A verdade é que, se fizermos uma análise acurada e profunda do universo ornitológico nacional, dificilmente o sabiá-laranjeira permanecerá em sua posto, apesar de tudo o que representa. Ocorre que estamos nos trópicos, na terra do tucanuçu, do pavãozinho-do-pará, das araras piranga, azul, vermelha e canindé, do tiê- sangue, do crejoá, do urubu-rei, da seriema, dos gaviões-pega- macaco, do uiraçu, do guará, do colhereiro, dos mutuns, da jacutinga, dos jacamins, do jacu-de-estalo, dos surucuás, do cisne-de-pescoço-preto, dos arirambas, da araponga, do galo-da-serra, dos tangarás, das saíras mensões, canto ou beleza da plumagem.

Muitas dessas espécies, deve admitir, têm representatividade apenas local, restrita aos seus respectivos hábitats (campo, várzea, cerrado, floresta...), devendo, portanto, ser descartadas como aves-símbolo do País. É o caso, por exemplo, do pavãozinho-do-pará ou do galo-da-serra. Por falar em representatividade local, confesso não entender como os amigos do COA-PR deixaram de lado a gralha-azul quando escolheram sua ave-símbolo. Devem ter suas razões ... Mas, voltando ao nosso assunto, apesar da rara beleza da ararajuba e da feliz coincidência de suas cores, acho que o grande senão que talvez dificulte viabilizá-la como nossa ave nacional é o fato de a imensa maioria dos brasileiros ignorá-la por completo. Creio (é a minha opinião pessoal) ser de vital importância que a ave-símbolo do País seja bem conhecida do povo.

E, sendo coerente com essa linha de raciocínio, só me ocorre uma espécie que preencha esse requisito fundamental: o charmosos, o simpático, o carismático, o cativante PAPAGAIO! Sim! Haverá em todo o Brasil ave mais popular, mais ligada às raízes e ao folclore de nossa terra? Dificilmente... Afinal de contas, este País já foi cognominado TERRA dos PAPAGAIOS! Parece-me justo e lógico, portanto, homenagear o popularíssimo psitacídeo, ligando-o em definitivo e oficialmente às cores nacionais. Escolha-se a espécie mais bela, a mais conhecida ou a mais rara (ocorrem 11 papagaios no Brasil), mas não se faça injustiça! Está dado meu voto: PROPONHO A PAPAGAIO PARA AVE NACIONAL!

 

 

 

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