(foto Luiz Claudio Marigo)

Belezas Aladas de Jacutinga

Otávio Salles - Jacutinga-MG

A nossa repousante e acolhedora estância hidromineral deve seu nome à bela ave das família Cracídeos, a JACUTINGA, espécie descrita em 1825, pelo naturalista alemão Johann Baptist von Spix, que se baseou num exemplar coletado entre a Bahia e o Rio de Janeiro. No passado a área que hoje abriga a cidade era revestida por matas pujantes de vida, onde podiam ser encontrados bandos de jacutingas (o termo yacu de origem indígena, tupi, significa "o que come frutos", e tinga, quer dizer branco), parentes dos jacus mas integrados outro gênero (Pipile, ao passo que estes são do gênero Penelope). Aves exigentes quanto ao habitat (florestas virgens, ricas em palmitais, cujo coquinho é seu principal alimento na Natureza), não sobrevivem à devastação das matas e, sobretudo, à caça abusiva, irresponsável.

Hoje, desgraçadamente, a encantadora JACUTINGA, magnífica Nefertiti negra dos trópicos, está extinta entre nós. Aliás, não só entre nós, mas em quase todas as regiões onde era comum (Paraná, Sta. Catarina, Rio Grande do Sul, nos vales dos grandes rios paulistas; também existia no Rio de Janeiro, Espírito Santo, sul da Bahia e sudoeste de Minas). Relacionada na melancólica lista das espécies ameaçadas de extinção, apenas sobrevive, na Natureza, em áreas restritas, que conseguiram permanecer a salvo do homem (Morro do Funil, em Sta. Catarina; Serra da Bocaina, em São Paulo; Parati e Itatiaia, no Rio de Janeiro; matas da Fazenda Klabin, no Espírito Santo; Parque Nacional de Monte Pascoal, na Bahia), conforme informações do prof. Helmut Sick em sua famosa e valiosíssima obra ORNITOLOGIA BRASILEIRA, uma introdução. Mas vem sendo criada com êxito em cativeiro, graças ao meritório empenho de amadores devotados. Isso é de enorme importância, sendo decisivo para a sobrevivência da espécie.

Além disso, abre a possibilidade de futuros repovoamento em áreas adequadas, bem protegidas, inclusive em nossa estância hidromineral. É um sonho que tenho, e para tanto pretendo desenvolver o PROJETO JACUTINGA, cujo primeiro passo é o boletim A JACUTINGA, através do qual a infância, ainda nos primeiros bancos escolares, poderá conhecer, pelo menos por meio de fotos ilustrações, nossa ave-símbolo.

Muito Bem. Se a bela Pipile jacutinga não conseguiu resistir à ignorância e insensatez do homem, o mesmo não ocorreu, infelizmente, com numerosas outras espécies. A avifauna local é interessante e diversificada, pude relacionar quase 100 espécies só na zona urbana e arredores, todas fascinantes, encantos alados que dão vida a esta terra tranqüila e hospitaleira.

Pássaros canoros não faltam em Jacutinga. Em pleno centro da cidade é possível ouvir a melodia cascateante das corruíras, a suave canção dos pintassilgos, o canto alegre dos sanhaços e, nos quintais com pomar, a áurea gaitinha mágica dos gaturamos (puvi e gaturamo-rei), o agradável gorjeio do saiá-pocá, a musiquinha ciciante da cambacica. Na primavera demarcam seus territórios e cantam intensamente tizius, tico-ticos, papa-capins-comuns e bigodinhos (estes retornam em novembro de sua migração anual.) Nas árvores dos bairros afastados do centro não é difícil desfrutar dos harmoniosos concertos de mais de dois sabiás (o célebre sabiá laranjeira, ave-símbolo do Brasil, e o belicoso pardão, outro concertista magistral), além do sonoro gorjeio do pitiguari, pássaro que canta de três maneiras diferentes.

Quando florescem espetacularmente os ipês amarelos das ruas, as flores cor de ouro são visitadas por legiões de luminosos colibris. Bailam com arte junto às inflorescência, em busca do precioso néctar e de insetos e aranhas minúsculos, beija-flores adoráveis como o grande tesourão, o lindo besourinho-de-bico- vermelho ou o lépido beija-flor-de-garganta-verde. Ainda no centro da cidade são comuns e bem-vindos o espalhafatoso bentevi, que grita seu nome bem cedo junta às luminárias da rede elétrica (onde vem capturar mariposas e besouros atraídos durante a noite), tesouras que abrem e fecham as longas caudas (estas a exemplo do bigodinho, também migratórias, só surgindo no fim do inverno) e o melancólico suiriri (outro migrante). São três utilíssimos devoradores de insetos.

Em Jacutinga o observador de aves não fica à toa!

No interior da FONTE SÃO CLEMENTE voa no azul do céu a famosa asa-branca, maior pomba silvestre do Brasil, imortalizada pelo grande Luiz Gonzaga, o rei do Balão, monstro sagrado da MPB. Também singram os ares bandões de tuins, barulhentos casais de quero-quero, irerês, algumas garças brancas (grandes e pequenas), ruidosos araguaris, pares de verdes tiricas ou esguios andorinhões-do-temporal, senhores absolutos da arte de voar. No campo abundam anus (brancos e pretos), rolinhas comuns (também presentes na cidade), codornas, além de seriemas, gralhas, pica- paus e corujas-do-campo, sem falar em pássaros típicos de áreas abertas (tibirro, caminheiro, pássaro-preto, maria-cavaleira, arrebita-rabo..). O joão-de-barro é presença obrigatória!

Já a avifauna dos brejos e alagadiços é bem outra. Frangos d'água, frangos-d'água-azuis, saracuras, jaçanãs, japacanins, pintassilgos-do-brejo, soldadinhos-do-brejo, socós, as já citadas garças-brancas (poucas), viuvinhas, sabiás-do-banhado...Quando às aves tipicamente florestais, sabe-se que são numerosas, mas ainda há muito a estudar nessa área. Chamam a atenção, pela intensidade de seus assobios metálicos e prolongados os pula-pula- ribeirinhos. Há até jacus (Penelope obscura bronzina), tucanos e papagaios (ainda não pude vê-los pessoalmente, ignorando, portanto, a que espécie pertencem). Formicarídeos não faltam (chocas, choquinhas, papa-formigas...) o mesmo se podendo dizer de Picídeos (pica-paus e pica-pauzinhos) e Dendrocoloptídeos (arapaçus, subideiras...) Inconfundíveis na mata é o pio melancólico da juriti, que produz um ruído sibilante ao voar para pouso mais seguro.

A avifauna jacutinguense, enfim, deve ultrapassar facilmente três centenas de espécies proporcionando momentos inesquecíveis de encanto e tranqüilidade aos turistas e todas as pessoas que armam o belo e vêm à nossa aconchegante estância à procura de um contato mais íntimo com a natureza. Ao redigir esta pequena colaboração para o nosso excelente ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS, cujos objetivos são os melhores (está de parabéns o caro dr. Pedro Salviano Filho, seu incansável mentor), tive o prazer de dar algumas breves pinceladas à propósito do que temos de mais belo, as aves, os pássaros, alma da natureza, enfeites alados da Terra. Mas foi um esboço muito ligeiro. Há muito mais a dizer e celebrar a respeito. Oportunamente voltaremos ao assunto.

 

 

 

AO - SERVIÇOS - LINKS