ALGUNS DADOS SOBRE A BIOLOGIA DO CURIANGO

Otávio Salles - Jacutinga - MG

CONSIDERAÇÕES ORIGINAIS - A enigmática, inescrutável penumbra da noite é palco perene de rudes luas pela vida. E misteriosas aves de vôo silencioso, plumagem mimética e vozes terríficas estão entre as principais personagens dessas guerras obscuras. Conhecidas popularmente como mede-léguas, mães-da-lua, urutaus, curiangos, bacuraus, guácharos, noitibós, etc.; pertencem a ordem Caprimulgiformes ( do latim capra - cabra - e mulgeo - mungir -, pois antiga crendice assegurava que os bacuraus eram capazes de mamar nas cabras), integrada por cinco famílias: Aegotelídeos (6 espécies de pequenos urutaus da Nova Guiné e Austrália), Padargídeos (9 espécie; são os chamados noitibós-de-boca-de-rã, muito grandes, dos bosques secos da Austrália e região oriental), Esteatornitídeos (1 espécie, o aberrante guácha, das Caraíbas e América do Sul, que pousam nas paredes das grutas de cabeça para baixo, como os morcegos ), Nictibiídeos (5 espécies de urutaus da América Central e do Sul) e Caprimulgídeos (mais de 70 espécies, distribuídas por quase todo o mundo). Esta última família, aliás, abriga o Phalaenoptilus nutallii, noitibó, espécie norte-americana que, segundo o Dr. Félix Rodriguez de La Fuente, hiberna. Todas essas aves (com exceção do guácharo, que é frugívoro) alimentam-se fundamentalmente de insetos e outros pequenos animais. Entre nós a mais conhecida é Nyctidromus albicollis, o popular CURIANGO, cuja voz inconfundível, que lhe deu origem ao nome, pode ser ouvida a grande distância no silêncio da noite. No cafezal da Fonte São Clemente, em mais de uma ocasião, um exemplar, molestado por minha passagem, alçou vôo de repente, pousando mais além (Euler, a propósito, pôde vê-lo nidificando embaixo de um cafeeiro).

UMA SURPRESA NO CERRADO - Na tarde do dia 7 de novembro de 1987,quando, num dos pontos mais remotos da Fonte São Clemente, o parque da cidade, procurava obter novas lagartas da linha borboleta Prepona eugene (que consegui estudar do ovo ao adulto) e enriquecia meu herbário, assustei-me com o curiango que voou de repente, quase sob meus pés, revelando o ninho, que já continha um ovo. Ninho, a bem da verdade, maneira de dizer, pois não passavam de pequena depressão no imenso tapete de folhas secas (sobre tudo de eucalipto) que revestia toda a área, caracterizara pela grande declividade do terreno, arborizado com antigos eucaliptos entre os quais cresceram, ao longo dos anos, árvores nativas, arbustos, herbáceas, trepadeiras, gramíneas, formando, em certos pontos, um emaranhado intransponível. No local do ninho, porém (lá embaixo, no sopé da elevação a quase a margem de uma trilha), a revelação era mais escassa. O ovo solitário, róseo, todo pintalgado de marrom-pálido e com o pólo agudo voltado para cima, foi localizado por volta das 13 horas. Permaneci ainda a algum tempo na área (cujo, escavado aqui e ali, revelava a presença noturna de tatus), observando uma alma-de-gato (Piaya cayana) muito mansa. Não pudo regressar no dia seguinte, fazendo-o no imediato 9 de novembro. Ao aproximar-me do local um curiango voou das proximidades do ninho (pareceu-me que não tinha branco nas asas). Ao chegar mais perto, outro, o que incubava, o alçou vôo. Neste sim, era bem nítida, durante o vôo, larga estria branca em cada asa. Ao observar ninho encontrei 2 ovos! Ah, sim, quando desci o morro, ainda longe do ninho, surpreendia-me com um tapete (Sylvilagus brasiliensis) que disparou a minha frente! Voltei no dia seguinte, verificando que permaneciam os dois ovos. Só havia um curiango, o que incubava (com branco nas asas). Portanto, não tendo havido nova postura, calculei o nascimento dos filhotes para o dia 25 de novembro, após 17 dias de incubação, conforme os estudos do Prof. Augusto Ruschi. Esta observação e a anterior foram feitas por volta de 16 horas (não levei em conta o horário de verão).

NASCEM OS FILHOTES - Na observação que fiz no dia 16/11/87, após a chuvas muito intensas do dia anterior, aproximei-me do local e, sem parar (tomando como ponto de referência pequena muda de copaíba, Copaifera trapezifolla, junto à qual estava o ninho), notei o curiango incubando. Passei bem perto fingindo não ver a ave, que não voou! Detive-me alguns metros à frente, para coletar amostras de uma mirtácea para meu herbário. Na volta parei não muito longe do ninho, de costas, de olho no curiango mas fingindo não vê-lo. Ele, após alguns instantes, aproveitando-se de minha " distração" , alçou seu silencioso vôo de mariposa rumo ao refúgio habitual, morro acima, sob algumas árvores. No ninho permaneciam os dois ovos. Dois dias depois, usando o mesmo expediente (fingindo não ver a ave), cheguei a desenhar uma esboço do caprimulgídeo, comprovando, em casa, tratar-se do Nyctidromus albicollis. Lamentavelmente por uma série de contratempos, sobretudo fortes chuvas no horário disponível para observação, só pude voltar ao local no dia 30/11/87, portanto, cinco dias após a data prevista para o nascimento dos filhotes. Ao aproximar-me, tomando a muda de copaíba como ponto de referência, notei que o ninho estava vazio! Mas, quando avancei mais alguns passos, o curiango voou, pousando poucos metros a frente e dando início ao ritual de despistamento já mencionado por ornitólogos isto é, batendo as asas com espalhafato e emitindo sons roufenhos. Repetiu o ritual três vezes. Mas em vão, pois, assim que alçou vôo pude ver os bebês-curiangos, de olho entre abertos sonolentos, revestidos de penugem pardo-acastanhada na região dorsal, exceto a cabeça, laterais e asas, com penugem mais clara, inclusive uma estria dorsal. A região mais escura do dorso pareceu-me devida a existência de penas, mas permaneci a 2m de distância, temendo que os pais voltassem a mudá-los de lugar, o que já foi feito pelo menos uma vez.

O DESENVOLVIMENTO DOS BEBÊS-CURIANGOS - Regressei à área dos curiangos no dia 04/12/87. Ao aproximar-me do local do ninho a ave vôo a minha esquerda, pousando pouco adiante na muda de copaíba e repetindo o ritual de despistamento já mencionado. Com alguma dificuldade localizei os filhotes, em área totalmente exposta, junto de uma arvoreta seca. Sonolentos, imóveis, olhos serrados, um " de frente" e o outro " de costas" , começando a empenar, sobretudo as asas e a região nucal. Parte superior do bico (maxilia) revestida por densa penugem, só sendo visível a extremidade, levemente rósea na base e anegrada na porção terminal, com nítida manchinha esbranquiçada sobressaindo sobre a maxila de ambos, só que mais acentuada num deles, que também apresentava a porção escura maior. Quando abaixei-me junto aos dois, para melhor descrevê-los, entreabriram os olhos enormes, permanecendo, porém imóveis, exceto pelos movimentos respiratórios. Após observá-los afastei-me tencionando permanecer escondido durante um longo tempo a alguma distância, para registrar o regresso do adulto. Enquanto esperava ouvi seriemas, codornas, sanhaços-comuns. Entretanto, temendo que caísse um chuva pesada sobre os filhotes (o céu estava bem nublado), resolvi retirar-me, já que o curiango não dava o ar de graça. Quando saia do local começou a chuviscar bem fino, depois mais forte. Já no dia 07/12/87 não foi fácil localizar os filhotes. Procurei por toda área habitual e nada! Só fui achá-los morro acima, sob árvores, crescidos,com as penas das asas já formadas e recobertas por mimética libré pardo-plúmbeas com algumas manchas negras na cabeça e dorso. Como de habito, sonolentos, imóveis. Desta feita, ambos voltados para o mesmo lado. Um deles algo maior. O adulto ( sem o qual seria impossível encontrá-lo), quando cheguei voou para longe, não repetindo o ritual de despistamento.

IMORTALIZADOS POR BRESCI MAGRO - No dia 08/12/87, o registro fotográfico para posteridade. Combinei com o amigo José Carlos Bresci (o Bresci Magro, para distingui-lo do irmão, o também amigo Antonio Bresci, que se vai tornando algo bojudo com o passar dos anos) subirmos a colina que conduz à região dos curiangos de cá, para poupá-lo, já que, ao contrário deste pitoresco terráqueo, não está habituado a intermináveis caminhadas. Bresci Magro, entretanto (que nomeei meu fotógrafo de campo), teve um contratempo e só pudemos rumar para o local uma hora depois do combinado, quando os portões da Fonte São Clemente, o parque da cidade, dentro do qual fica o refúgio dos curiangos, estavam prestes a ser fechados. Subimos a pé! Ao invés de seguirmos pelo caminho normal, as famosas Sete Voltas que serpenteiam colônias a cima, achei melhor tomarmos um atalho lateral, em linha reta. Mesmo assim o nosso bom Bresci Magro chegou ao topo mais morto do que vivo, pedindo aos deuses que o poupassem de mal maior. Após boa caminhada em terreno plano, entre dadivosos cafezais, finalmente descemos pela trilha, já no outro lado da colina, no Morro dos Curiangos. A localização do adulto, única maneira de encontrar os filhotes, foi difícil. Bresci Magro vasculhou um trecho do terreno, mais em vão.Coube-me outra área,morro acima. Afinal adulto alçou vôo! Junto de grosso eucalipto, os filhotões! Após fotografá-los uma vez, Bresci Magro, neófito em ornitologia, tentou remover duas folhas secas que atrapalhavam. Teve êxito na primeira, mas, ao puxar a segunda, presa sob o corpo dos jovens curiangos, ocorreu a debandada! Ambos desceram morro abaixo, aos pulos, com as asas quebradas e sumindo no meio da vegetação. Só com muita paciência os descobriu, um longe do outro, para mais algumas fotos. Dois dias depois, porém, quando voltei ao local, estavam juntos novamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS - Pude observá-los pela última vez no 11/12/87. Após algum tempo de busca (sempre morro acima), lá estavam, revelados pelo adulto que alçou vôo e, mais adiante, repetiu o ritual de despistamento. Extremante miméticos sobre o tapete de folhas secas, basicamente pardo-plúmbeos (intrincadas padronagens), excesso nas últimas manchas negras do dorso e cabeça, manchas estas bem maiores no filhote que concederei o macho (mais desenvolvido e com uma caudinha já crescendo, sendo perceptíveis as retrizes brancas).Ambos com ótimo aspecto apesar de terrível chuva de ontem. Após essa data (quando deveriam estar com 16 dias de vida, se realmente nasceram em 25/11/87 ) não voltei a vê-los, procurando-os inutilmente. O mais provável é que, seguindo a tendência de se abrirem sempre morro acima, tenho procurado refúgio na parte mais alta da colina, com muitos arbustos e vegetação mais densa. Mas um balaço das observações que fiz permite algumas conclusões. Por exemplo: No horário vespertino os cuidados do ninho ficam por conta do macho (só este apresenta branco nas asas, características bem visível quando o exemplar observado voava); sempre que os filhotes são examinados, mesmo a distância, o adulto muda de lugar (ou, quando maiores, eles próprios se incubem disso); já durante a incubação não, pois os ovos permaneceram no mesmo local; a maneira prática de localizar os filhotes ou ovos é ficar alerta para o momento em que o adulto levanta vôo, revelando-me o ninho. Apesar de todas as lacunas (não registrei o dia do nascimento dos bebês-curiangos, nunca encontrei qualquer resto de alimento junto aos filhotes nem pude comparecer ao local à noite, para, pelo menos, ouvir os adultos vocalizando), espero que o presente estudo possa, de alguma forma, contribuir para o melhor conhecimento de nossa avifauna, sobretudo no que tange aos curiangos, barulhentos cidadãos alados que vagueiam pelas sombras da noite.

1 -Local original do ninho (no centro)

 

2 -Filhote isolado, após a debandada (bem no centro)

 

3 -Os dois filhotes (no centro da foto)

 

 

 

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