A utilidade e importância das aves

Marco Antonio de Andrade - Belo Horizonte-MG

As aves são animais de grande valor ecológico e importância na vida do homem e na natureza, nos ajudando a viver melhor de muitas maneiras. Alimentam-se de pragas que atacam nossas plantações e pastagem, participam na coleta de lixo, atuam no combate aos ratos, cobras e insetos. Polinizam flores e disseminam sementes, fornecendo adubo com suas fezes; fornecem alimentação ao homem, transmitem harmonia e beleza e, indiretamente exercem outras contribuições ao meio ambiente.

1 - ALIMENTANDO-SE DE PRAGAS:

As aves exercem importante papel no controle biológico de cigarrinhas e outros insetos prejudiciais à agricultura e pastagens. No norte de Minas Gerais, as codornas (Nothura maculosa) ajudam a controlar uma espécie de cigarrinha que ataca extensas áreas de pastagens. Existem diversos trabalhos científicos sobre a alimentação das aves brasileiras, verificando-se nas espécies nas espécies insetívoras uma grande preferência por besouros, gafanhotos, formigas, cigarras, percevejos e outros. Quando estes existem em excesso podem causar grandes danos ao meio agrícola, mas poderão ser controlados pelas aves insetívoras, que desempenham importante papel na cadeia alimentar como seus consumidores naturais.

Andorinhas, andorinhões, papa-moscas, curiangos, bacuraus, corujas e outras espécies, capturam e comem insetos em vôo. Algumas destas aves, como os andorinhões, voam praticamente o dia inteiro a grandes alturas, caçando os insetos numa vasta área acima das matas, dos campos, plantações e montanhas. Os pica-paus e arapaçus perfuram a casca e escavam os troncos das árvores à procura de invertebrados, enquanto os outros remexem no solo e reviram as folhas caídas, procurando alimento.

Nas pastagens e campos do interior de Minas Gerais observam-se bandos de anú-preto e garça-vaqueira acompanhando comumente o gado no pasto, ladeando-os, capturando grande número de gafanhotos que saltam afugentados pelo gado. Nos campos de gramíneas baixas, os anus espalham-se no chão, fazendo batidas para captura de insetos. Quando algum se evidencia, a ave mais próxima salta e o apanha. Assim, o bando vai avançando e percorrendo uma larga área de campo, consumindo grande quantidade de insetos daninhos.

O caracará, Polyborus plancus, também é um valioso auxiliar no combate às pragas dos gramados e áreas de pastagens. É um dos principais predadores das lagartas que devoram culturas de milho em São Paulo e de larvas de besouros que atacam a cultura da batatinha no vale do Paraíba, prestando um serviço inestimável aos agricultores. Quando uma terra é arada, o caracará logo chega para comer minhocas e outros bichinhos do solo. A beira de estradas, ele pode ser visto alimentando-se de restos de animais mortos.

Embora a maioria das aves alimente-se de insetos e outros animais, há espécies que preferem sementes e frutos. Este é o caso, por exemplo, das rolinhas, coleirinhas, papa-capins e pássaros pretos. Essas aves aparecem em grande número nos arredores de hortas, pomares, jardins e áreas cultiváveis, sendo às vezes consideradas prejudiciais às culturas. Mas, muitas vezes estamos enganados, pois normalmente estas espécies procuram nas terras cultivadas sementes de plantas silvestres, muitas vezes invasoras, tais com capim, a tiririca, a vassourinha e outras, ajudando, portanto, no seu controle.

Poderíamos ainda citar vários exemplos de aves úteis no controle natural de pragas, como corujas, perdizes, suiriris, tesourinhas e até mesmo a galinha d'angola (uma ave doméstica). Mas apenas com poucos exemplos mencionados anteriormente já podemos sentir e observar o grande valor que as aves exercem na natureza e para as atividades humanas no meio rural. Lamentamos que, muitas vezes, este valor e real importância não são compreendidos e respeitados como deveriam. Portanto, é necessário que toda a população e, principalmente, os agricultores tomem consciência da utilidade destas aves e ajudem a preservá-las.

2 - NO COMBATE AOS RATOS E COBRAS:

Os gaviões e corujas são consumidores habituais de camundongos, ratos, ratazanas, aos quais caçam dia ou noite. Para estes roedores, as aves são temíveis inimigos naturais.

Algumas espécies de corujas, como o caburé Glaucidium brasilianum, a corujinha-do-mato, Otus choliba e a coruja-das-torres ou suindara, Tyto alba, são excelentes controladores naturais de pequenos roedores, merecendo serem protegidas e respeitadas. Em uma só noite, a syundara pode pegar vários camundongos. Nas fazendas, as corujas capturam ratos que habitam paióis, galpões, estábulos e outros locais.

A seriema tem a fama de grande comedor de cobras, o que já lhe confere o título de utilidade pública. Nos campos, esta ave pernalta faz uma verdadeira limpeza. Porém sua alimentação não se restringe somente a cobras mas também a pequenos lagartos e insetos, revelando-se uma grande devoradora de gafanhotos e saúvas que atacam as plantações.

3 - NA COLETA DO LIXO E ANIMAIS MORTOS:

No Brasil, os urubus são considerados animais de mau agouro (com as corujas) e acusados de ajudar na transmissão de algumas doenças ao gado. Mas a verdade é que até hoje ainda não foi comprovado que os urubus de fato disseminem qualquer doença, seja ela prejudicial ao gado ou ao homem. Essa ave, utilíssima e quase sempre incompreendida, realiza um trabalho dos mais meritórios, colaborando na limpeza pública, ou seja, alimentam-se dos lixos urbanos deixados ou abandonados pelo próprio homem, nas imediações das cidades ou até mesmo em lotes vagos.

Os urubus rapidamente consomem uma carcaça animal morto abandonado ao tempo, com cheiro insuportável e servindo de criadouro para milhares de moscas e outros insetos. O mais comum nas áreas urbanas e nas fazendas do estado é o Urubu-de-cabeça-preta, Coragyps atratus.

Nas estradas, é comum observar animais atropelados por carros e que são rapidamente eliminados por gaviões, como o (Milvago chumachima), e urubus. Assim, mais uma vez as aves auxiliam e poupam o trabalho do homem, participando ativamente na cadeia alimentar como alimentar como controladoras naturais destes animais.

4 - NA SILVICULTURA:

O papel benéfico das aves nas florestas tornou-se mais claro desde a prática da monocultura, visando a exploração econômica de uma espécie de árvore. A diminuição das aves nas florestas homogêneas de eucaliptos ou pinus, devido à ausência de árvores velhas com buracos, onde as espécies nidificam e se alimentam, implica em um maior risco de doenças para as plantas. Para atrair aves a tais florestas, devemos conservar alguns troncos velhos e secos para a procriação, árvores de copas e folhas largas para abrigo à aves, assim como as espécies frutíferas para fornecer alimento à avifauna.

Em regiões de matas e cerrados, é comum a presença de espécies de arapaçus e pica-paus, aves de enorme utilidade para silvicultura, pois atuam no controle biológico de lagartas prejudiciais aos caules das árvores. Os pica-paus e papa-lagartas são extremamente importante, pois impedem o desenvolvimento de larvas que irão infestar ou danificar os troncos das árvores. Preservando estas espécies e outras que exercem funções similares, aumentaremos o número de vegetais de porte arbóreo e de interesse econômico.

5 - NA POLINIZAÇÃO DE FLORES:

Segundo o ornitólogo Luiz A. Pedreira Gonzaga, mais de 600 espécies de aves, em todo mundo, alimentam-se de néctar, que colhem introduzindo o bico nas flores. Os beija-flores, os caga-sebos e outras aves que se alimentam de néctar podem auxiliar na polinização de diversas plantas e talvez, algumas destas plantas não existissem mais se não fosse essa colaboração prestada pelas aves. A polinização acontece quando a ave enfia o bico entre as pétalas da flor para sugar o néctar e, com o movimento, o bico, a cabeça ou outra parte do corpo da ave encosta nos estames da flor, ficando então recoberta de pólen. Ao voar para outra flor, a ave transporta o pólen que ficou no bico ou na plumagem e, ao introduzir o bico nesta nova flor da mesma espécie, o pólen entra em contato com o aparelho reprodutor feminino desta flor, e assim por diante.

O papel das aves que se alimentam de néctar na perpetuação de certas plantas é tão importante, que já tem sido observado, após o desaparecimento dessas aves em certos locais, um igual desaparecimento das plantas cujas flores elas visitam e polinizam.

6 - NA DISSEMINAÇÃO DE SEMENTES:

As aves desempenham uma função vital na propagação de inúmeras espécies de plantas, sobretudo árvores frutíferas, pois levam para longe suas sementes. Bem conhecido é o exemplo da gralha- azul, do sul do país, que dissemina a araucária, ao levar no bico o pinhão que, algumas vezes, deixa cair sem querer no solo.

Outro exemplo mais simples, é quando a ave leva sementes grudadas em seu corpo (no peito, nos pés). Ao engolir as sementes que estão junto com a polpa do fruto e, que normalmente não são digeridas, as aves regurgitam ou expelem no meio das fezes estas sementes que germinam na terra. Tucanos, guaxes, gaturamos, sanhaços, saíras, tangarás e sabiás participam ativamente da disseminação de sementes.

7 - NO FORNECIMENTO DE ADUBO:

As aves também tem o seu valor no fornecimento de adubo ao homem e à natureza. As galinhas criadas em pequenos galinheiros ou em granjas fornecem um excelente adubo (esterco) que é utilizado na agricultura.

Algumas aves silvestres, como o andorinhão-de-coleira-falha (Streptoprocne biscutata), pernoitam em abrigos ou grutas, quase sempre amontoados. Nestes locais centenas de andorinhões depositam no chão grandes montes de fezes ou excrementos. este adubo é um composto nitrogenado, contendo amônia e fósforo. Tal fato pode ser constatado no Parque Estadual do Ibitipoca, em Minas Gerais, onde esta espécie nidifica em grutas.

No Rio Grande do Norte existe um destes abrigos, no Sertão do Seridó, em Acari, onde milhares de andorinhões pernoitam. Anualmente, os moradores locais retiram cerca de 40 a 50 toneladas de adubo de uma furna situada na Serra do Bico da Arara, que é utilizado nas culturas de várzeas e em gramados de campo de futebol da região.

É extremamente importante a utilização deste adubo orgânico natural em nossas culturas, evitando-se o uso excessivo e irracional dos adubos químicos, maléficos à toda vida. Porém, é preciso ter cautela para não prejudicar ou afetar a reprodução e abrigo destes andorinhões.

8 - NO FORNECIMENTO DE ALIMENTO:

Várias aves domésticas, como as galinhas, perus, faisões e codorninhas são aproveitadas, há anos, na alimentação humana. Não somente a carne saborosa, mas também os ovos são apreciados e importante fonte de proteínas. O ovo de ema, por exemplo, serve para alimentar, às vezes, mais de uma pessoa.

Em regiões onde a agricultura é escassa, como na caatinga nordestina, o homem caça centenas de pombas (conhecidas por avoantes ou arribação), para alimentar a sua família ou para comércio. Em outros locais, onde a pobreza e o isolamento dificultam a obtenção de alimentos, as aves nativas são caçadas aleatoriamente, para garantir a sobrevivência de pessoas.

No Rio Grande do Sul, em determinada época do ano, é aberta a temporada de caça, onde somente a perdiz, o perdigão, a caturrita, marrecas e a lebre são permitidas serem batidas, mas sob um certo controle e fiscalização.

9 - NA CIÊNCIA E NAS ESCOLAS:

As aves tem um grande valor em um número importante de disciplinas científicas, como na ecologia, na biologia, na etologia, na medicina veterinária, na paleontologia e até mesmo na arqueologia. Contribuem consideravelmente na compreensão de processos e funções ecológicas no meio ambiente. São importantes como indicadores biológicos do estado dos ecossistemas naturais, dando um sinal de perturbações ambientais que podem resultar em danos irreparáveis à humanidade.

Através de estudos e achados paleontológicos, vários fósseis de aves foram encontrados no Planeta, ajudando a compreender melhor a evolução das espécies, o clima e vegetação de milhares de anos atrás. Várias pinturas rupestres apresentam desenhos de aves, simbolizando algum costume antigo e evidenciado as espécies que habitavam determinadas regiões.

Atualmente, várias universidades brasileiras ensinam Ornitologia nos cursos de Ciências Biológicas ou de Biologia, em aulas teóricas e com trabalhos práticos realizados no campo e no laboratório. Crianças e adolescentes também estão mais motivados e interessados em aprender algo sobre aves. Em São Paulo já existe até um Clube Mirim de Observadores de Aves, onde crianças de escolas de 1º e 2º graus vão adquirindo o hábito e o entusiasmo de ir ao campo estudar e apreciar a avifauna.

10 - NO LAZER, INSPIRAÇÃO E BELEZA:

Além deste reconhecido valor ecológico e desta enorme quantidade de serviços úteis que as aves fornecem à natureza e ao homem. elas ainda transmitem uma sensação de bem-estar e harmonia, através de seus variados cantos melodiosos, movimentos e vôos deslumbrantes. Sua beleza inigualável é definida pelo colorido brilhante, contrastante e, às vezes, camuflado. Os machos de algumas espécies disputam a sua fêmea exibindo a plumagem colorida ou sua dança (cerimônia) nupcial. Esta cena vista na natureza é um verdadeiro espetáculo de rara beleza.

As aves são motivo de inspiração para músicas, poemas, trovas, telas de pintura e fotografias. Alguns filmes de cinema e TV tem como protagonista as aves, como: "Fernão Capelo Gaivota", "a águia", os "Pássaros" , de Hitchcock, e outros. Escritores inspiram nas aves o conteúdo de seus livros. Há até pessoas que registram os seus filhos com nomes de aves, como: "Paloma" (=pomba).

Enfim, como hobby ou passatempo, as aves proporcionam uma gratificante atividade de lazer e descontração: a sua observação na natureza.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANDRADE, M.A. Utilidade das Aves. Revista SOM, Belo Horizonte, (35):12-13,1987.

GONZAGA, L.A.P. Conservação e atração das aves. Rio de Janeiro, Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, 1982, 54 p.11.

 

 

 

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