ORNITOARQUITETURA

BELEZA E CRIATIVIDADE NA CONSTRUÇÃO DE NINHOS

OTÁVIO SALLES - Jacutinga-MG

AS AVES PRECISAM PROTEGER SEUS OVOS - Quando nossos primitivos ancestrais pré-históricos resolveram abrigar-se no interior de cavernas, fugindo as intempéries, é bem provável que lá já tenham encontrado aves igualmente primevas,comodamente instaladas no alto dos paredões rochosos de onde por certo defecavam nos mal- acabados romanóides, do chão, urravam de cólera, mas em vão. É evidente que essas aves do passado não saibam fazer ninhos bonitos, funcionais e até sofisticados como os que hoje se vê,mas certamente não punham seus ovos por acaso, pois sempre foi da maior importância resguardá-los ao máximo. Conforme frisou David Attenborough em suas maravilhosas obras A VIDA na TERRA, " Todas as Aves põem ovos. Esta é a única características herdados dos seus antepassados reptilários que nenhuma ave abandonou...Mas as aves tem de pagar o preço do sangue quente necessário para o vôo. Os répteis podem enterrar os ossos em buracos ou sobre pedras e abandonados, pois, como os próprios adultos, os seus ovos sobrevivem-se apenas com o calor do meio ambiente.Mas o embriões das aves, tal como seus pais tem o sangue quente. Se resfriarem demasiado, morreram.As aves, portanto, precisam chocar os seus ovos, o que é uma tarefa bastante arriscada... " O período de incubação por conseqüente é vital na sobrevivência das espécies. Cada uma encontrou uma maneira diferente de proteger seus ovos.Algumas se abrigam em locais inacessíveis (sem saliência no meio do penhasco, no topo das árvores altíssimas, em ramos pendentes sobre as águas, no interior de grutas úmidas e até debaixo da terra, em profundas galerias). Outras (em geral aves fortes, agressivas) fazem a postura em terreno aberto, mesmo recurso utilizado pelas que sabem mimetizar tão habilmente seus ninhos que estes se tornam quase invisíveis (em muitos casos os próprios ovos são miméticos).

MARAVILHOSOS CONSTRUTORES ALADOS - Das poderosas águias reais (Aquila chrysaëtos), que nidificam ' em paredes de pedras verticais, aproveitando as concavidades produzidas pelo desmoronamento dos pedaços de rocha' ao pequeno e curioso melro-d'água, é " uma autêntica obra de engenharia, provida de um corredor que sobe até a câmara de postura, coberta de folhas secas, ervas e raízes" , todas as aves sabem abrigar convenientemente seus preciosos ovos. E algumas o fazem de modo tão admirável que chegam as ralas da perfeição. Exemplos neste sentido não faltam! Os diminutivos ninhos de beija-flores, por exemplo, elaborados com paina, lã, musgo e outros materiais nobres, são reforçados com fortíssimos fios obtidos em teias de aranhas. Certo matim-pescador de Bornel nidifica no interior da colméia de uma abelha muito agressivo. O pássaro-alfaiate, da Índia costura duas folhas vivas com fibras vegetais, escondendo o ninho na concavidade resultante. Algumas aves aquáticas constroem autenticas ilhas vegetais flutuantes refúgio seguro para os ovos.

Há um andorinhão cujo ninho é tão minúsculo que nele mal cabe o único ovo da costura. Na Austrália habitam aves tão singulares que seus ninhos por muito tempo foram confundidos co mo monumentos funerários, até que os estudiosos chegassem a verdade. E as aves não nidificam apenas isoladamente também as colônias de nidificação que reúnem lado a lado numerosos ninhos.Até objetos e materiais industrializados, produzidos pelo homem podem ser reciclados pelas aves, que os utilizam na composição de seus lares, caso, por exemplo do ninho feito com clips e pedaços de arame com marquise de um edifício por um casal de pombos.

NO SOLO, SOB O SOL, NO ESCURO, NA ÁGUA

-- Os lugares mais inverossímeis e inesperados são aproveitados por aves e pássaros para a construção dos respectivos ninhos. Corruíras, por exemplo podem identificá-los no interior de latas, caixas, e até dentro de uma velho embornal de pesca, como ocorreu na casa de um amigo.Vasos de plantas pendurados em alpendres, varandas e sacadas são procurados com certa freqüência, especialmente vasos de xaxim. Beija-flores costumam fixar o ninho delicado em fios elétricos pendentes e atrás de quartos, mesmo dentro de casa desde que tenha abertura por onde possam transitar livremente. Andorinhas aceitam facilmente pequenas caixas de madeira oferecidas pelo homem e já é praxe canário-da-terra nidificarem dentro de caveiras de boi. Sabiás, rolinhas e sanhaços gostam de fazer ninhos em cachos de bananeira verde, ao passo que tico-ticos podem fazer até mesmo no chão, mas muito bem escondido. Em plena capital paulista, um casal de urubus nidificou uma floreira situada no alto de um edifício! Corujas-buraqueiras abrigam a postura no interior de buracos de tatu, martins-pescadores escavam seu lar em barrancos, joões-bobos, também niditerrícolas, perfuram profundas galerias no solo. Ocos de árvores e palmeiras são apreciados por inúmeras espécies (mochos, corujas, pica-paus, tucanos, araras, papagaios, surucuás, o falcãozinho-quiriquiri, calaus...).Sobre os ramos das aves nem é preciso falar, toda uma enorme multidão alada nele constrói os ninhos. Até mesmo em emaranhados de vegetação flutuante, no solo nu de praia ou do campo e em escuras e úmidas cavernas aves de espécie variadas encontram lugar propício a nidificação!

A FANTÁSTICA INCUBADORA NATURAL -- Hoje o homem exibe com orgulho suas chocadeiras elétricas ou a gás, penosamente desenvolvidas ao longo de anos. Muito antes que os desajeitados bípedes implumes pensassem nesses artefatos, porém, aves engenhosíssimas já haviam criado suas chocadeiras particulares. Refiro-me aos fantásticos megapodideos, aves da ordem Galiformes que habitam a Austrália. Conta o Dr. Félix Rodríguez de La Fuente que " Os primeiros colonos australianos encontravam nas zonas áridas do continente pequenos montes de areias, de até 4m de altura e 10m de diâmetro na base, que tomaram por monumentos funerários. No entanto, ao interrogarem os nativos, ouviram a surpreendente resposta de que os mesmos eram simplesmente os ninhos de uma ave" . É evidente que não acreditaram! Só em 1840, quando o naturalista John Gilbert resolveu escavar um dos "túmulos" , foi descoberto o surpreendente segredo dos megapódios, pois, no meio do volumoso promontório de areia, Gilbert encontrou os grandes ovos do megapódio o selado (Leipoa ocellata), ave de uns 60 cm de comprimento e quase 2 kg de peso. Hoje, minuciosos estudos permitem que se conhecem bem a cavidade rochosa, onde o sol se incumbe de incubá-los. Outra, existente em ilhas vulcânicas, faz a postura de maneira que o calor do vulcão o choque. E há os megapódios que habitam na selva, os chamados perus-de-matagal. Estes fazem montes de matéria vegetal no meio dos quais põem os ovos, incubados pelo calor da fermentação. Mas é o Leipoa, das zonas áridas, o autor do mais incrível ninho já construído por uma ave, autentica chocadeira natural feita com areia e restos vegetais. O ciclo completo, da construção do ninho à postura dos ovos renascimento dos filhotes (que jamais conhecem os pais) demora onze meses!

PEDREIROS, CESTEIROS, TECELÕES E OMISSOS...-- Dissertar longa e minuciosamente a respeito da rara engenhosidade das aves e pássaros na construção de seus lares, estampar fotos e ilustrações como modelos e exemplos de cada tipo de ninho exigiria, por certo, uma edição especial do nosso ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS, tal a riqueza e diversidade de taças, tigelas, esferas, bolsas, fornos, galerias, ocos, plataformas, cones, tubos e tantas outras formas das estruturas destinadas a abrigar os ovos de cada espécie. Mas algo pode e deve ser dito a respeito. O calau, ave da África, caracterizado pelo grande bico, nidifica em ocos de árvores. Extremamente cioso na guarda dos ovos e da fêmea que o choca, ele constrói uma parede de barro na entrada, só mantendo pequeno orifício no centro, por onde alimenta a companheira. Tarambolas e outras aves cujo habitat são praias arenosas ou de cascalho põe os ovos no solo nu, mas estes são tão miméticos que se confundem com o ambiente. Admirável é a salangana, andorinhão do sudeste asiástico que constrói o ninho utilizando a própria saliva glutinosa, que se solidifica em contato com o ar! E o que disser dos assombrosos pássaros-das-pergulas ou pássaros-jardineiros (diversas espécies da família Ptilonorrinquídeos), maravilhas aladas da Austrália e Nova Guiné! Com o objetivo de atrair as respectivas fêmeas, constroem, de acordo com espécie, avenidas, praças, caramanchões, pérgulas ou corredores no solo onde se dará a parada inicial. É notável a faculdade que possui para distinguir e utilizar coisas, empregadas com raro senso estético em suas construções. Também não ode ser esquecido hábil tecelão da África (Ploceus vitellinus), que tece contilhas de folhas de palmeira, confortável esfera oca, cuja entrada de segurança é longo e estreito turbo vertical. E há ainda as aves que por razão até hoje não explicadas convenientemente pela Ciência, não constroem ninhos nem criam os filhotes, omitindo-se. Mas sabem pôr os ovos em lugar seguro e adequado, onde a prole possa nascer e sobreviver.

OS CONSTRUTORES DO BRASIL -- Claro está que num País como o nosso, com avifauna diversificadíssima, a ornitoarquitetura atingiu o alto nível. Do modesto joão-bobo, que perfura suas galerias em pleno solo, ao popular joão-de-barro, oleiro competentíssimo, são muitos e magistrais os construtores alados dessa terra.O andorinhão-estofador (Panyptila cayennesis) elabora seguro tubo de paina ligada com própria saliva (o resultado é uma espécie de filtro quase impermeável). Os pica-paus escavam lares sólidos nos troncos das árvores. O ninho do jaburu é vasto amontoado de gravetos no topo das árvores. O uru prepara, no solo da mata um forno de folhas secas. Os beija-flores esmeram-se como poucos, criando minúsculos e artísticos receptáculos para seus ovos diminutos. Mas é na ordem passeriformes que o requinte e a diversidade de formas acentuam-se de maneira surpreendente, tanto que pássaros de uma única família Tiranídeos, fazem ninhos de cinco tipos diferentes, da cômoda esfera de fibra do bemtevi a tigela rasa do gibão-de-couro (Hirondinea ferruginea), dotada de um alicerce de pedrinhas. E os Furnarídeos. Grandes construtores. O professor Helmut Sick assinala pelo menos nove tipos de ninhos nessa família: de barro, em forma de forno; amontoados de galhos secos e duros; ovóide; esferóide; ovalado; cestinha; em ocos de paus e subterrâneos (estes últimos podem conter o fim da galeria - alargado - uma tigela de pecíolos ou uma esfera completa, feita de folhas macias e longas.Muito elaborados são os ninhos do icterídeos (cestinha aberta, funda; elipsóide com pequena entrada lateral; semicoberto, com entrada lateral; bolsa suspensa num galho). Vários sabiás reforçam sua vivenda com barro. O tico-tico-do-mato consegue embutir seus ninhos sob a cobertura das folhas secas da mata. Os gaturamos constroem esferas com entrada lateral. Os caminheiros (Motacilídeos) escondem sua tigela sob moita de capim. Também de grande importância ecológica é a reutilização de determinados ninhos por outra espécie. Enfim, são tão multiformes e criativos os ninhos das aves que até mestre Oscar Niemeyer, observando-os do alto de sua genialidade, por certo teria novas e brilhantes idéias! Analisar em profundidade tal riqueza exigiria tempo, espaço, fotos, estudos minuciosos. Este modesto articulista, hoje só pode traçar esboço muito superficial a respeito, que não reflete a beleza e complexidade do tempo.

 

 

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