PSITACÍDEOS DO BRASIL - ESPÉCIES QUE PRECISAM DE MAIOR ATENÇÃO

Luiz Pedreira Gonzaga - Rio de Janeiro

Este trabalho foi apresentado na 2ª Reunião Internacional do Grupo de Especialistas em Psitacídeos, no dia 14 de outubro de 1988, em Curitiba-PR. O autor há dois anos reúne essas e outras informações sobre aves brasileiras, que fazem parte do trabalho de elaboração do Livro Vermelho de Aves Ameaçadas das Américas, a ser editado pelo I.C.B.P.

Durante a palestra foram exibidos diapositivos das espécies, feitos pelo fotógrafo Luiz Cláudio Marigo. AO gravou e transcreve com autorização, e revisão, do autor.

Guaruba guarouba -ARARAJUBA

Esta espécie habita o extremo norte do Brasil e era considerada restrita, até há alguns anos, ao noroeste do Maranhão e leste do Pará, até o rio Xingú; mais recentemente a espécie foi descoberta até o rio Tapajós e no Parque Nacional de Tapajós. A situação da espécie é particularmente crítica no extremo leste de sua área de distribuição no oeste do Maranhão e no leste do Pará. No oeste do Maranhão foi criada recentemente a Reserva Biológica do Gorupi, com 340 mil hectares e é considerada prioridade máxima a implantação dessa reserva. Risco adicional representa sua procura por comerciantes de aves.

Pyrrhura perlata - TIRIBA

Existem 4 sub-espécies reconhecidas: Pyrrhura perlata perlata, a oeste do rio Tapajós, entre ele e o Madeira. Esta sub-espécie tem sido também tratada independentemente como Pyrrhura rhodogaster que assim se constituiria num sinônimo de Pyhrrura perlata perlata. Na área do leste do Pará até a região do rio Tocantins temos a Pyrrhura perlata anerythra, ocorrendo ao sul até a região do rio Fresco em Gorotire. Pyrrhura perlata lepida na região de Belém, do rio Capim até a oeste da região da bacia do rio Mearim. E Pyrrhura perlata coerulescens a leste da região da bacia do rio Mearim, conhecida até pouco tempo apenas de uma localidade, hoje chamada Humberto de Campos, e mais recentemente coletada em uma região no centro do Maranhão.

Esta espécie se apresenta na mesma situação de Guaruba guarouba no leste da sua distribuição onde o desmatamento tem sido bastante intenso, e apenas Pyrrhura rhodogaster (ou P.perlata perlata) apresenta-se ainda bastante comum em sua área de distribuição.

Anodorhynchus leari - ARARA AZUL DE LEAR

Até 10 anos atrás a espécie não era conhecida em natureza (era conhecida apenas por exemplares cativos de procedéncia ignorada). Em 1978 foi descoberta uma população na região nordeste do estado da Bahia, ao sul do rio São Francisco. A área que a espécie ocupa atualmente se restringe a cerca de 8 mil km2 na região do médio rio Vaza-Barris. É uma área onde apenas se conhecem duas colônias da ave e o total estimado de indivíduos existentes da espécie é de não mais de 60, no máximo de 100. Em uma dessas colônias, a de Barra Velha, desde 1978 são realizadas contagens de indivíduos; têm ocorrido variações que ainda não sabemos explicar; 18 em janeiro de 1979, 22 em 20 de julho de 1983, no dia seguinte 33; no dia seguinte 19, dois dias depois 23. em 1985 20 indivíduos; 13 em dezembro de 1986; 17 no dia 3 junho de 1987 e 21 no dia seguinte; em abril deste ano 34 indivíduos. Em agosto, 32. Estes números demonstram que nos últimos 10 anos a população de Anodorhynchus leari tem sido essencialmente estável mas ao mesmo tempo demonstram uma população extremamente pequena e localizada.

A segunda colônia de Anodorhynchus leari ao norte do rio Vaza- Barris não tem sido objeto de muitos estudos até agora e deveria ser objeto de atenção no futuro. Existe um projeto atualmente sendo desenvolvido com o apoio do Worldlife Fund, por uma equipe do estado de Minas Gerais que, mais tarde neste encontro, apresentará um relatório. Os trabalhos têm se concentrado atualmente no estudo das áreas de alimentação desta espécie que tem se mostrado ponto crítico e mais vulnerável na atual situação. As aves dormem em paredões de arenito e percorrem áreas muito extensas em busca de alimentação. Elas usam cavidades em paredões, como abrigo para dormirem e, também , como local de construção de ninhos. O principal, senão o único, alimento da espécie é constituído por cocos de uma palmeira nativa.

Além da evidente procura da espécie por colecionadores, o que se constitui sua principal ameaça, é possível que esteja havendo também em problema de endogamia (inbreeding) na população, como pudemos observar em uma arara que apresenta penas da cauda cruzadas, talvez como fruto de um problema genético da população, como chamou a atenção Carlos Yamashita.

Cyanopsitta spixii- ARARINHA AZUL

Numa área muito próxima à área de ocorréncia de Anodorhynchus lear, na região de Juazeiro, na Bahia, encontramos a Cyanopsitta spixii. Esta espécie é a mais rara, encontrando-se há pouco tempo apenas 3 indivíduos na natureza. Embora outras populações da espécie possam existir, em áreas próximas, Paul Roth, que tem feito o levantamento de toda a região onde se localiza esta espécie, tem sido incapaz de encontrar essas possíveis outras populações, de modo que a espécie é a mais rara entre as espécies que podemos apontar no Brasil.

Sua única chance de sobrevivência seria a criação em cativeiro, através de um acordo entre os diversos criadores que mantém exemplares, mas este acordo tem sido muito difícil de se conseguir, o que poderá representar a extinção da espécie.

Amazona xanthops - PAPAGAIO GALEGO

Habita desde o sul do Maranhão e sul do Piauí, até o estado do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com registros também da Bolívia e do Paraguai. Esta espécie é, ainda, relativamente comum em muitas partes de sua área de ocorrência mas foi sugerido incluí- la no Livro Vermelho devido à ameaça que paira sobre o seu hábitat no Brasil Central, principalmente o cerrado, com árvores mais altas . A espécie ainda ocorre praticamente por toda a sua área original de distribuição, talvez desaparecido localmente de algumas áreas. Uma ameaça adicional pode representar o seu recente aparecimento no mercado interno de aves de estimação. Têm aparecido pequenos lotes da espécie, por exemplo, em mercados de aves perto do Rio de Janeiro, aparentemente como tentativa de substituição no mercado de Amazona aestiva que, pela mesma época, diminuiu bastante, talvez como conseqüência de uma diminuição nas áreas de proveniência para o mercado, ou qualquer outro fator, ao mesmo tempo aparecendo lotes de Amazona xanthops na tentativa de substituir, talvez, uma espécie pela outra. Isto pode representar uma ameaça adicional à espécie além da destruição do seu hábitat nos cerrados no Brasil Central.

Os comerciantes, em feiras, procuram também falsificar as espécies, oferecendo por exemplo uma Aratinga leucophthalmus, com todo o corpo pintado de amarelo, apenas as pontas das asas deixadas verdes, numa tentativa de imitar a Guaruba guarouba.

Anodorhynchus hyacinthinus - ARARA-AZUL-GRANDE

Ocorre no centro do Brasil, em área aproximadamente equivalente à espécie anterior, e também no leste da Bolívia e Paraguai. Esta espécie foi alvo de levantamento recente, por alguns colegas nossos. É muito ameaçada pelo comércio.

Ao sul da sua distribuição, na região de Mato Grosso, a espécie normalmente nidifica em ocos de árvores, e na região do sul do Piauí e Maranhão a espécie também usa paredões de serras; isto também ocorre na região do oeste de Minas Gerais, na região do São Francisco. Na região de Goiás, Maranhão, Piauí e oeste da Bahia a espécie é bastante ligada aos buritis Mauritia sp, enquanto no sul de sua distribuição a espécie é mais ligada às palmeiras acuri,Scheelia sp., de que se alimenta; também se alimenta de bocaiuva (palmeira do gênero Acromia).

Pyrrhura cruentata - FURA-MATO

Habita desde o sul da Bahia até o norte do estado do Rio de Janeiro.

Ocorre num número relativamente grande de áreas, porém a maioria dessas áreas é de tamanho extremamente reduzido e provavelmente não sustentará essa espécie por muito mais tempo. As maiores áreas onde ocorre são o complexo da Reserva Biológica de Sooretama e Reserva da Companhia Vale do Rio Doce, em Linhares, e o Parque Estadual do Rio Doce, em Minas Gerais.

Na região do sul da Bahia, ao sul de Ilhéus, o cacau é plantado à sombra de árvores da mata; tem sido sugerido, na literatura, que estas grandes extensões de plantações de cacau, em áreas originalmente ocupadas por floresta atlântica, poderiam manter algumas populações de psitacídeos ocorrentes nessa região. O problema que temos observado ultimamente é que a maioria dessas plantações são muito antigas e, mais recentemente, se tem desenvolvido uma nova técnica de plantio de cacau, na qual toda a mata é derrubada, completamente, e são plantadas bananas e uma espécie de árvore leguminosa. Nos dois primeiros anos as bananas são extraídas, a leguminosa cresce e sob estas se planta o cacau. Desta forma tem-se, ao final, uma plantação homogênea com a leguminosa, com o cacau por baixo. Evidentemente isto significa um risco adicional e vem a desfazer as esperanças de que essas áreas com plantações de cacau ao sul da Bahia pudessem servir ainda a algumas espécies de psitacídeos.

Além disso a área tem sido uma das mais severamente atingidas pelo desmatamento.

Amazona rhodocorytha- CHAUÁ

Ocorre em região semelhante à espécie anterior, além disso contando com uma população residual em Alagoas. Até o ano de l984 havia registros naquele estado.

Algumas das reservas aqui já mencionadas têm populações da espécie. Essa espécie tem sido apontada como extinta no Rio de Janeiro nas últimas publicações que trataram dela mas, de fato, ainda localizamos quatro áreas onde é registrada: na Ilha Grande, Ponta da Marambaia, perto de Macaé e no Parque Estadual do Desengano.É também espécie procurada no comércio.

Aratinga auricapilla- JANDAIA-DE-TESTA-VERMELHA

É uma espécie que habita, ou habitou, matas úmidas ao longo do litoral até o interior de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Atualmente a espécie se concentra no extremo oeste de Minas Gerais, com registros também em Goiás. Observe-se que a área no interior de Minas Gerais e sul de Goiás é uma área fito- geográfica no domínio dos cerrados mas, mesmo dentro dessa área , a espécie fica restrita a áreas mais úmidas,das quais apenas pequenos fragmentos restam atualmente.

 

Triclaria malachitacea - SABIÁ CICA

É uma espécie que basicamente acompanha a linha da Serra do Mar, ao longo da costa sudeste do Brasil, com registros antigos desde o sul da Bahia até o norte do Rio Grande do Sul. Esta espécie está restrita às partes mais úmidas das matas de encosta, ao longo da cadeia de montanhas, e, aparentemente, ocorre numa baixa densidade populacional; contudo é uma espécie que nunca voa acima da mata, mantendo-se sempre no interior dela, podendo, assim, passar desapercebida em muitos locais onde ela ocorra. É capturada para venda no comércio mas não resiste muito em cativeiro. A região de ocorrência, nas matas de encosta, não tem sido atingida tão severamente pelo desmatamento, como as matas na baixada.

Touit surda - APUIM-DE-CAUDA-AMARELA

Como muitas outras espécies desse gênero o Touit surda é, aparentemente, uma espécie que mais passa desapercebida (difícil de localizar) do que propriamente rara. A maioria dos registros recentes tem sido feita através de sua vocalização e uma exploração mais intensa em busca da espécie tem sido realizada nos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e sul da Bahia; também em estados do Nordeste brasileiro, com trabalhos concentrando-se em Alagoas. Observa-se que, na medida que são realizados mais trabalhos de campo, na área de ocorrência dessa espécie, ela tem sido localizada com uma freqüência relativamente grande e aparentemente não é tão rara como se supunha.

Touit melanonota - APUIM-DE-CAUDA-VERMELHA

Esta espécie parece genuinamente muito mais rara que a anterior e, talvez seja, de fato, uma das espécies mais raras entre todas as que estamos aqui tratando.

No sul da Bahia, foi coletado no começo do século passado na região do rio Peruíbe. Também, no século passado, um exemplar foi coletado na costa sul do estado de São Paulo, e outro em Nova Friburgo. Foram realizados outros registros mais ou menos recentes; por ex. 1961 no Parque Nacional de Itatiaia ; na costa norte de São Paulo; no Parque Estadual do Desengano, ainda este ano, e perto de Petrópolis. A maioria dos registros dessa espécie, de que temos conhecimento, são das proximidades da cidade do Rio de Janeiro, no Parque Nacional da Tijuca, dentro mesmo da cidade do Rio de Janeiro, e no maciço florestado da Pedra Branca, próximo à cidade do Rio de Janeiro. Talvez esses registros mais freqüentes próximos à cidade do Rio de Janeiro se devam a uma concentração da atividade de observadores nessa área. Mas, como se pode observar, a sua área de distribuição é bastante restrita e supondo-se que os comportamentos de T.surda e T.melanonota não sejam muito diferentes, essa relativa falta de registros de T. melanonota parece indicar que é uma espécie bastante mais rara do que T.surda.

Amazona vinacea - PAPAGAIO-DO-PEITO-ROXO

É uma espécie de matas úmidas tropicais e subtropicais do sudeste do Brasil, com relato da sua situação na Argentina feito hoje (14-0ut-88), por Manoel Nores. É uma espécie que se encontra restrita a poucas áreas e ai tem uma densidade relativamente baixa. Apesar disso, algumas áreas ainda apresentam população relativamente grande da espécie, como o Parque Estadual de Campos do Jordão no Estado de São Paulo, o Parque Estadual de Jacupiranga, também em São Paulo, e no leste do Paraguai que tem sido tradicionalmente apontado como uma das áreas principais onde a espécie subsiste, a espécie ainda ocorre nas reservas de Limoy e Itabo que margeiam o reservatório da represa Hidro-Elétrica de Itaipu.

Amazona brasiliensis - PAPAGAIO-DE-CARA-ROXA

Está atualmente restrita ao extremo sul da costa de São Paulo e ao norte do litoral do Paraná. Essa é uma área calculada em 600 mil hectares (6 ml km2) que comporta uma população avaliada por Pedro Scherer Neto, que tem estudado a espécie, em cerca de quatro mil indivíduos.

Existem registros antigos no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde atualmente a espécie não é mais encontrada. Esta é mais uma das espécies brasileiras bastante restritas e ameaçadas.

Amazona pretrei - CHARÃO

Foi registrado em Miones, na Argentina; também é mencionado na literatura de existir no Uruguai, necessitando porém confirmação - provavelmente não ocorre neste país. A espécie encontra-se praticamente restrita ao estado do Rio Grande do Sul, onde, durante a maior parte do ano ela encontra-se dispersa pelas áreas montanhosas no sudeste do estado, onde nidifica. Fora da época de reprodução a espécie se concentra em número grande numa área conhecida no norte do estado do Rio Grande do Sul, onde foi criada uma reserva para a sua proteção. Esta área é a Estação Ecológica de Aracuri, próxima à cidade de Esmeralda, no Rio Grande do Sul. Ela foi descoberta em 1971 e desde então diversas contagens da população que ali se congrega num certo trecho de mata de Araucária têm apontado um número de indivíduos que varia de 2 a 10 mil. É curioso que aparentemente existe uma dificuldade muito grande de realizar contagens nessa área, porque encontramos na literatura diversos números como 2 mil, 5 mil,e 10 mil aves, referentes ao mesmo período de observação (em maio de 1972) por observadores diferentes, com dados publicados independentemente. O dado mencionado na literatura de 30 mil foi calculado como uma super estimativa do número que foi observado; na realidade o número observado na ocasião deve ter chegado ao máximo de 10 mil indivíduos e esse número se mantém até hoje. Esses números variaram de ano para ano e se chegou a supor que eles corresponderiam a um rápido declínio de um ano para o seguinte mas após a diminuição do número , no outro ano ele voltou a crescer no mesmo ponto, em Aracuri, o que parece significar que a espécie periodicamente troca o seu local de dormitório por outras áreas próximas, não identificadas, e depois voltam ao mesmo lugar.

Uma das necessidades desta espécie é a proteção das suas áreas de nidificação e alimentação.

 

 

 

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