CONTRIBUIÇÃO À BIOLOGIA DA TESOURINHA (Tyrannus savanna)

Marco Antonio de Andrade - Belo Horizonte-MG

Tesoura, Musciva t.tyrannus, macho, em vôo territorial. Rio das Mortes, Mato Grosso (Segundo Sick, 1985 -pág.593).

INTRODUÇÃO

A tesourinha, também chamada de «tesoura» e «rabo-tesoura», pertence à Família Tyrannidae, da Ordem Passeriformes. Seu nome científico era Muscivora tyrannus, descrito por Linnaeus em 1766. Atualmente, alguns ornitólogos modificaram a nomenclatura científica e passaram a chamá-la de Tyrannus savanna (Sick, 1985). É uma das espécies migratórias mais comuns e conhecidas no Brasil. O presente trabalho tem como finalidade fornecer dados sobre a biologia de Tyrannus savanna a partir de observações em campo e de trabalhos já publicados (ver Bibliografias).

CARACTERÍSTICAS MORFOLÓGICAS

A fêmea possui comprimento total que varia entre 35 a 40 cm, enquanto que no macho varia de 27 a 35 cm. As principais características para identificação da tesourinha são a coroa amarela com as pontas das penas pretas; lados da cabeça pretos; dorso cinza; garganta, peito e ventre brancos; asas marrom escuro; cauda longa e forquilhada preta com os bordos externos das penas maiores inicialmente brancos; bico e pés pretos. A fêmea e os jovens são semelhantes, com a cauda menor.

As chanfraduras que apresentam nas pontas das penas primárias mais externas constituem uma importante adaptação morfológica que, juntamente com a longa cauda forquilhada, lhes permitem manobrar habilmente no ar para caçar insetos. A forma pontuda das asas e os grandes espaços entre as rêmiges facilitam os vôos longos e constantes (Negret & Negret, 1981).

HÁBITAT

No Brasil, habita campos, áreas abertas e urbanas, cerrados, brejos, proximidades de lagos, lagoas e represas e jardins. Pode ser vista também em pomares ou pousada em fios e em árvores maiores, como a sibipiruna e o ipê. Na Colômbia, por exemplo, pode ser vista a quase 3 mil metros de altitude.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA

A tesourinha ocorre desde o sul do México, através da América Central e em toda América do Sul, com exceção do Chile, Bermuda, Cuba e Antilhas Menores. Apresenta ampla distribuição em todas as regiões do Brasil (Sick, 1985). Em Minas Gerais, é mais freqüente nas regiões sul, leste, oeste (no Triângulo Mineiro) e nordeste. É comum na região metropolitana de Belo Horizonte.

ALIMENTAÇÃO

Basicamente alimenta-se de insetos que captura em vôo, das seguintes ordens: Homóptera (cigarras), Coleóptera (besouros) e Hemíptera. Também come alguns frutos nativos, como a Euphorbiaceae Sapium longifolium, conforme observou-se nas proximidades do Rio Grande, em janeiro de l985, no município de Conceição das Alagoas (MG).

Em exame de conteúdo estomacal de várias tesourinhas, encontrou- se sementes e insetos das seguintes famílias: Formicidae, Termitidae (cupins), Cicadidae, Chrysomelidae e Cantharidae (Schubart et ali., 1965).

COMPORTAMENTO

Os pais são bastante territoriais; defendem o ninho e filhotes com "ataques" a intrusos. Caçam insetos nas proximidades do chão ou em vôo, a alturas médias. Caçando insetos pousa com freqüência no solo. Pode ser vista descansando na ramagem do arvoredo e encostando a cauda num galho. Ao entardecer, podem reunir-se em verdadeiras concentrações para dormir. Conforme registrou o Prof. Sick, a voz é uma seqüência apressada «tzig- tzig-zizizi...», «ag,ag,ag,ag» (canto), que emite pousado ou em vôo, deixando-se cair numa espiral, com a cauda largamente aberta e a posição das asas lembrando um pára-quedas. A tesourinha possui algumas atividades comportamentais um pouco agressivas em relação a outras espécies que invadem o seu território (Andrade, 1986). Freqüentemente pode ser vista "atacando" ou incomodando outras espécies durante certo período de tempo. Esta atividade, em inglês, é conhecida como mobbing. Às vezes, mais de uma tesourinha persegue outra espécie em um longo percurso, até que o indivíduo seja expulso do território. Observou-se a tesourinha atacando um gavião-pinhé (Milvago chimachima) durante várias vezes consecutivas; um gavião-carijó (Buteo magnirostris); uma coruja-buraqueira (Speotyto cunicularia) que pousou próxima ao ninho de uma tesourinha; o suiriri (Tyrannus melancholicus); o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus); a andorinha (Phaeprogne tapera) e outros passeriformes. Realizam vôos ziguezagueantes. Quando chegam as primeiras chuvas na primavera, os machos demarcam seu território, que defendem agressivamente e realizam o cortejo nupcial.

NIDIFICAÇÃO

Em Minas Gerais, nidificam no período de setembro a dezembro. O ninho é em forma de tijela aberta, construído com raízes, ramos e pequenos gravetos, trançados com algumas folhas secas, forrado com pequenos feixes de raízes. Na Fazenda Campo Grande, município de Passa Tempo (MG), observou-se um ninho em um bambuzal, a cerca de 8m de altura e outro ninho em um pequeno arbusto, no pasto próximo de um brejo, a 1,8m de altura. Outro ninho estudado, no Condomínio Nossa Fazenda, em Esmeralda (MG), localizava-se em uma árvore identificada como Jacaranda sp, a cerca de 4 m do solo. Neste ninho haviam dois filhotes, nascidos em 4-11-87, tendo sido anilhados. Os pais alimentam os filhotes constantemente, a intervalos de 15 a 30 minutos. Levam cigarras, besouros e outros insetos para os filhotes. Pousam primeiro em um galho próximo ao ninho e depois vão para o ninho alimentar os filhotes. Quando os pais não estão tratando de suas crias, ficam próximos à árvore onde está o ninho, atentos a qualquer atividade no ambiente. À noite, apenas um dorme no ninho com os filhotes. A postura, na maioria das vezes, é de 3 ovos, mas pode-se encontrar 2 ou 4 ovos num ninho. Os ovos são brancos com manchas marrom-avermelhadas. O período de incubação é em torno de 16 dias e os filhotes abandonam o ninho depois de 25 a 28 dias de nascidos. Ficam juntos com os pais por mais alguns dias, quando aprendem a caçar insetos e comer frutos nativos, conforme observou-se no Triângulo Mineiro, em 1985, e no Sítio da Princezinha, em Esmeralda, em 1987. Em novembro de 1988 localizamos um ninho em um Pinus sp., cerca de 4 m de altura, à beira de uma lagoa no Condomínio Nossa Fazenda, Esmeraldas.

MIGRAÇÃO, ANILHAMENTO

Constitui uma das espécies migratórias mais abundantes e conhecidas em Minas Gerais e também em outros estados do país. A tesourinha chega em Minas Gerais em agosto ou início de setembro, invadindo o interior e também algumas cidades, como Belo Horizonte, Viçosa (setembro, G.Mattos comunicação pessoal) e Lagoa da Prata (agosto, Oto Baía, com.pessoal). Deixa o estado em fins de março, fugindo do inverno austral e abandonando o Brasil meridional e central, invernando na Amazônia, onde é vista aos milhares. Fora da época de reprodução associam-se em bandos, que migram para longe, às vezes a grande altura, lembrando as andorinhas (segundo Sick, 1985). No sul de Minas Gerais, as maiores concentrações de migrantes ocorrem em outubro e novembro. A rota de ida e volta para as regiões de invernagem parece não ser sempre a mesma.

Na tarde do dia 18 de outubro de l985, em Cuiabá, o biólogo Renato Cintra observou milhares de tesourinhas voando em círculos pelo céu da cidade ao mesmo tempo em que vários pequenos bandos estavam chegando à cidade. Em 20 minutos contou-se 20 grupos com um total de 523 indivíduos. Após voarem em círculos capturando insetos, as tesourinhas pousaram em árvores de oiti (Licania sp), na praça central da cidade, onde formaram grandes dormitórios junto com o chopim Molothrus bonariensis e o pardal Passer domesticus. Por vários dias, as tesourinhas continuaram a utilizar aquele local como dormitório. No dia 31 de outubro, Renato Cintra realizou um censo do número de indivíduos que chegavam em bandos para pernoitar no dormitório, contando um total de 2416 indivíduos (Cintra, 1986).

Os movimentos migratórios da tesourinha ainda não estão totalmente esclarecidos; elas efetuam movimentos sazonais em quase todo o continente sul-americano (Negret & Negret, 1981). Este é um movimento feito em grande parte dentro de um país, por uma população residente, e de fácil observação até mesmo para as pessoas que moram em centros urbanos (CEMAVE, 1980). Desta forma, é de grande relevância um amplo trabalho de marcação das populações desta espécie. Por isso iniciamos, em 1984, a captura de indivíduos para anilhamento em algumas localidades de Minas Gerais. Até o momento, 16 indivíduos foram anilhados, sendo 7 adultos, 2 ninhegos e 7 jovens que já tinham abandonado o ninho). A captura vem sendo feita com o uso de redes tipo "mist nets" de 36mm e 12m de comprimento, nos seguintes locais: Represa de Volta Grande, em Conceição das Alagoas; Fazenda Campo Grande, em Passa Tempo; Condomínio Nossa Fazenda, em Esmeraldas; e região metropolitana de Belo Horizonte, todos em Minas Gerais. Tem-se planos de dar continuidade a este importante trabalho de anilhamento, conforme projeto de pesquisa já aprovado pelo CEMAVE - Centro de Estudos de Migrações de Aves, órgão do IBDF, de Brasília-DF.

RAÇAS GEOGRÁFICAS

A existência de várias raças geográficas, caracterizadas pela forma das penas primárias externas, permite saber a procedência de certos indivíduos que fazem parte da enorme congregação mista na Amazônia durante o inverno austral (Sick, 1985). No Brasil ocorrem três raças, uma meridional (M.t.tyrannus) que ocorre da Argentina a Mato Grosso; e duas setentrionais (M.t.menachus, México até o Rio Solimões, Amazonas) e M.t.circundatus, do baixo Tapajós, no Pará (Sick, 1985).

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE,M.A. Observações sobre hábitos agressivos da tesourinha, Muscivora tyrannus, em Minas Gerais, Charão, Curitiba (13):3, 1986.

CEMAVE. Uma anilha devolvida, o que isto representa. Brasília, CEMAVE, 1980. 11p.

CINTRA,R.& LIMA, J.G.A. Movimentos migratórios da tesourinha, Tyrannus savanna (=Muscivora tyrannus, Linné 1766) em Cuiabá, Mato Grosso IN: CONGRESSO BRASILEIRO DE ZOOLOGIA, 13º, Cuiabá, 1986. Resumos... UFMT, 1986, p.194.

NEGRET, A.J.& NEGRET, R.A. As aves Migratórias do Distrito Federal. Boletim Técnico, IBDF, (6): 1-64, 1981.

SCHUBART, O.; AGUIRRE, A.C.; SICK, H. Contribuição para o conhecimento da alimentação das aves brasileiras Arq.Zoologia, São Paulo, 12:95-249, 1965.

SICK, H. Ornitologia Brasileira: Uma Introdução. Brasília: Ed.Universidade de Brasília, 1985. Vol.II.

 

AO - SERVIÇOS - LINKS