Uma entrevista com o Prof. Helmut Sick

Um dos mais renomados ornitólogos do país, autor de mais de 150 trabalhos científicos, dois livros (Tucani, entre indios y animales del Brasil Central e Ornitologia Brasileira, Uma Introdução), o Prof. Helmut Sick vive hoje em um apartamento no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, onde cedeu esta entrevista para AO, em fins de fevereiro.

Com 79 anos de idade (aposentado há 8), ele se dedica atualmente e exclusivamente à re-edição do seu ORNITOLOGIA BRASILEIRA.

AO: Qual o seu primeiro contato com as aves?

Helmut Sick: Aconteceu quando eu tinha 9 anos de idade, na cidade de Leipzig, na Alemanha, onde nasci; foi uma coisa interessante: no quintal da casa dos meus pais eu anotei o canto de sabiás em notas musicais. No inverno os sabiás vão da Europa para a África, onde ficam de 3 a 5 meses. No ano seguinte os sabiás voltaram e, pelas minhas anotações, pude até reconhecer os indivíduos. O tipo de canto de indivíduo para indivíduo é diferente. Eu possuo uma grande sensibilidade para com as vozes das aves; tenho um ouvido absoluto, até raro entre músicos. O pessoal diz que eu tenho a capacidade de ouvir até tosse de pulga...(risos).

AO:E a paixão pelas aves?

Helmut Sick: Isso vem de longe: meu pai, Paul Sick, no começo do século, gostava muito de borboletas, porém, naquela época, não existia facilidade para isto e meu avô - que era um cirurgião famoso, embora gostasse de bichos - não deixou, orientando para que meu pai estudasse também medicina. E este se transformou num também famoso cirurgião, chefe de uma equipe na primeira guerra mundial, de 1914 a 1918.

AO:A que se deveu sua vinda para o Brasil?

Helmut Sick: Eu era assistente no Museu de Berlim e foi constituída uma expedição que me trouxe ao Brasil.

AO:Como vê a criação de aves no Brasil?

Helmut Sick:O brasileiro sempre gostou imensamente de um passarinho na gaiola, e já há centenas de anos que é assim. A população de certas espécies no mato fica tão reduzida que temos a esperança de talvez conseguir, com a reprodução em cativeiro, repor futuramente. Mas isso parece só funcionar algum tempo, pois durante algumas gerações em cativeiro ocorre a consangüinidade e a fertilidade declina. Um exemplo é o Mutum do Nordeste que se encontra praticamente extinto, não devendo existir mais na natureza, pois devastaram todo seu hábitat e os exemplares reproduzidos em cativeiro já encontram dificuldade para reproduzir-se.

Ultimamente têm surgido algumas entidades que procuram a preservação. O COA - Clube dos Observadores de Aves, criado há alguns anos, já conta com quase mil associados.

Um fato interessante ocorreu recentemente no COA. Perto de Angra dos Reis-RJ, na baixada de Mangaratiba, o pessoal do COA observou uma ave diferente e chamou um dos meus alunos, o Fernando Pacheco. Ele confirmou que a espécie há mais de cem anos não tinha mais sido encontrada e pensávamos que estivesse extinta. Trata-se de um formicarídio, o Fomicivora eritronotus.

AO:O Brasil ainda não tem sua Ave-Símbolo. O Sr. desenvolveu um projeto para que fosse escolhida a Ararajuba; por que ele ainda não foi aprovado?

Helmut Sick: Porque este governo é de uma incompetência total; é uma confusão. Ele não compreende o que é uma ave nacional. A ave nacional é mil vezes mais importante que um Presidente da República, porque ela vai até o fim do mundo... ... e em cem, duzentos anos, ninguém se lembra mais daquele tal presidente. Tive uma conversa com o presidente do Conselho Nacional de Pesquisa e ele me disse: "Acho que a ave nacional do Brasil deveria ser o tico-tico". Eu perguntei: por que o tico-tico? E ele me respondeu: "Porque o tico-tico choca os ovos do gaudério (uma ave parasita), cria seus filhotes, e não leva a nada, por isso deve ser uma boa ave nacional para o Brasil". Ninguém parece querer compreender a coisa.

Havíamos combinado que, quando do lançamento do meu livro Ornitologia Brasileira, editado em Brasília em 1985, o Presidente Figueiredo assinaria o decreto sobre a Ararajuba como Ave- símbolo, mas ele entretanto saiu e até hoje ficou tudo como está. (Irritado) Tem bastante brasileiro para tratar disso, porém ninguém está querendo compreender...

AO:Qual sua opinião sobre o projeto NOSSA NATUREZA?

Helmut Sick: Ultimamente eu tenho me envolvido unicamente com a revisão do meu livro, não tenho tempo para ler jornais e até roubaram meu televisor (nem quero ter outro). Mas se for sobre o problema da Amazônia tudo me parece mais um lero-lero, comissões, gente só querendo encher os bolsos...

O Brasil é um país com tantas possibilidades... Mas o brasileiro faz tudo para destruir a Natureza. Por exemplo, a Mata Atlântica já era. Só existem pequenos pedaços que não vão agüentar certas espécies de aves que necessitam de mais espaço. Agora começaram na Amazônia e no século que vem vão acabar também com a Amazônia. E isto é uma tristeza.

O brasileiro não tem conscientização para com a Natureza. Se se compra um terreno, a primeira providência é cortar todas as árvores, tornando-o limpo, para não ter cobra, etc., para depois construir a casa, porém primeiro arrasa-se a mata. Isto é uma das coisas que mais me aborrece.

Quando se extingue uma mata, quando se extingue uma espécie, isto é para sempre. Esta espécie não vai mais voltar. Se está extinta, significa que acabou! E cada vez isto ocorre com mais freqüência.

AO: ORNITOLOGIA BRASILEIRA; UMA INTRODUÇÃO; por que este sub- título?

Helmut Sick:Esta modéstia é porque sei que essas quase mil páginas são só um começo. Quem conhece as aves do Brasil sabe bem porque mil páginas é quase nada, só uma introdução.

Tenho um diário com quase nove mil páginas; é um manuscrito (naqueles cadernos de escola), em alemão, em que me baseio para elaborar os textos do livro, que faço em português.

Atualmente estou trabalhando intensamente na nova edição e praticamente já mexi em quase todas as páginas. Tenho uma cópia em xerox de todo o livro na qual vou fazendo as alterações. Já existem tantas modificações que praticamente escrevo um novo livro.

Entre as modificações, introduzo um capítulo sobre as aves fósseis; tenho trocado várias correspondências com um médico de Taubaté-SP, Herculano Alvarenga, que estuda também este assunto.

AO:Após esse trabalho o Sr. já tem planos para outro livro?

Helmut Sick: Tenho muitos planos, porém isso vai demorar, e não gosto de falar de coisas que não estão certas.


 

AO - SERVIÇOS - LINKS