NO MUNDO ENCANTADO DOS OBSERVADORES DE AVES

Otávio Salles - Jacutinga-MG

SINFONIA GRATUITA ao CAIR da TARDE - O sol declina pouco a pouco e difusa penumbra começa a envolver os ombros imensos da Terra. O momento é de pausa e quietude. Borboletas luminosas despedem-se das flores. Mansa brisa afaga as folhas. Abelhas apressadas regressam ao lar. Mas o silêncio é apenas momentâneo. Em breve, notas de cristal, dulcíssimas, ressoam suavemente no palco do entardecer. Intermitentes, compõem deliciosa canção silvestre, que sonoriza o ambiente bucólico do parque. O artista é orgulhoso sabiá-laranjeira que, com seu canto, comunica aos rivais que aquele território já tem dono. Mas outros músicos alados fazem coro ao mágico turdídeo. Buliçosa cambacica emite sua musiquinha ciciante no topo de um guapuruvu. Enérgico trinca-ferro fere os ares com seu apelo rascante. Confiante tico-tico oferece à tarde que se vai a singela cançoneta que é tão sua. No cume de velho pinheiro, mavioso pintassilgo deslumbra com a suavidade e harmonia de seu concerto particular. Até mesmo rude anu-branco lança aos quatro ventos a áspera seqüência de gritos roucos que o caracterizam. E velozes andorinhões, mestres supremos da arte de voar, enchem de vida o espaço em que navegam ao vocalizarem conjuntamente. Uma seta de luz está cantando num ramo seco! É um colibri de cores preciosas e sua delicada melodia só é audível aos ouvidos mais atentos. Ah, sim, um par de joões-de-barro surpreende pelo perfeito sincronismo de seu dueto. Há outros cantores sonorizando a tarde. E pitoresco primata vertical (o autor destas linhas), acomodado à sombra de imensa figueira, desfruta em silêncio da doce sinfonia.

UM HÁBITO ANTIGO - Observar aves, ao contrário do que se possa imaginar, é prática realizada há muitos anos. Embora no Brasil ainda estejamos engatinhando nessa arte, desde os anos quarenta naturalistas amadores da Europa e Estados Unidos começaram a congregar-se em associações de observadores de aves, «passando a dedicar-se seriamente a este tipo de atividade», conforme as palavras do nosso caro sr. Johan Dalgas Frisch em seu livro antológico. O grande naturalista norte-americano Roger Tory Peterson muito contribuiu para a difusão de hábito tão agradável. Pintor magistral, elaborou diversos guias de campo destinados aos observadores. Tais livros reproduzem em cores naturais todas as espécies da Terra de Tio Sam. De acordo com o próprio Peterson, «as aves simbolizam um grau de liberdade pelo qual todos nós ansiamos. Talvez seja esta a razão de o bird watching ter se transformado em um passatempo nacional na Inglaterra e esteja se tornando rapidamente o mesmo em nosso país. Ele constitui um antídoto para as desilusões do mundo atual, afligido por pressões nunca dantes experimentadas. Inúmeros homens de negócios ou de profissões liberais encontram na observação de aves o necessário equilíbrio à indispensável fuga de trabalhos complexos e do artificialismo da vida urbana». No Brasil, observar aves é atividade recente. Apenas em 1.974 foi fundado, no Rio Grande do Sul, o nosso Clube de Observadores de Aves - COA. Pouco a pouco a entidade se expande, estabelecendo núcleos em diversos Estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, etc.). Isso revela o entusiasmo crescente dos observadores.

PASSATEMPO MUNDIAL - Nos países civilizados, observar aves é hábito muito popular. Na Suécia, por exemplo, observadores atentos esperam a chegada dos grous que regressam em seu vôo migratório. Na Inglaterra, todos os anos, é grande a competição para ouvir o primeiro cuco, outra espécie que migra. O Refúgio de Hawk Mountain, nos Estados Unidos, atrai grande número de interessados em aves de rapina. Ainda nos Estados Unidos (estima-se que lá existam cerca de dez milhões de observadores!), é possível, em qualquer cidade, encontrar nos jornais anúncios de grupos interessados em saídas de campo para observar aves. Também há a chamada Hot-Line (Linha-quente) dos observadores. Trata-se de um número telefônico reservado a notícias ornitológicas interessantes. E em qualquer supermercado é possível adquirir bons manuais de observação. Muitos outros países poderiam ser mencionados pelo interesse de seus habitantes no dia a dia dos enfeites alados da Terra. Hoje, aliás, é difícil encontrar um ponto do planeta onde não viva ao menos uma pessoa empenhada na observação de aves. No gélido Alasca ou na exótica China, sempre é possível descobrir um amante do bird watching. É de se esperar que entre nós tão agradável prática popularize-se de fato. Afinal de contas, um país com 1.590 espécies de aves constitui autêntico paraíso dos observadores. A fantástica diversidade de nossa avifauna, por si só, deveria estimular número muito maior de interessados. A biologia de várias espécies é ignorada por completo, inúmeras outras não foram estudadas satisfatoriamente.

COMO FACILITAR a OBSERVAÇÃO - Muitos podem pensar que é necessário equipamento caro e sofisticado para observar aves. Isso é verdade no que diz respeito a um bom binóculo, mas olhos atentos e bons ouvidos são fundamentais. Muita atenção, antenas bem ligadas, uma caderneta de campo, duas canetas esferográficas, disposição para andar, roupas de cores discretas, um chapéu ou boné (para quem não está acostumado com sol, eu nunca usei) e um ou dois manuais básicos, com fotos ou ilustrações fiéis de aves brasileiras, não é preciso muito mais que isso. As aves a observar não gostam de barulho, movimentos bruscos, aproximação excessiva. E quem quiser fazer boas observações tem que acordar cedo! Após a intensa movimentação matinal, quando as aves vocalizam muito e procuram alimento, não é tão fácil observá-las. Ocorre que, nas horas de sol a pino e calor intenso, os enfeites alados da Terra procuram abrigar-se no meio da vegetação, exibindo-se pouco. Durante o período que precede o anoitecer, porém, voltam a aumentar as possibilidades de observação, embora não na mesma intensidade do período matinal. Os manuais mais completos dão pormenores dos melhores binóculos, gravadores, filmadoras, etc. Importante é rabiscar um esboço da ave não identificada, anotando cores, dimensões aproximadas (basta comparar com uma espécie já conhecida), forma do bico e da cauda, manchas coloridas nas asas, no peito ou na cabeça... Ah, sim, convém olhar bem onde se pisa ou se toca, para evitar surpresas desagradáveis (cobras venenosas, lagartas urticantes, vespas, abelhas...).

SURPRESAS e PRAZERES do OBSERVADOR - Quem se dispõe a sair pelo campo, num fim de semana, com o objetivo de observar aves, em poucas horas acaba perdendo a noção do tempo. Afinal de contas, é impossível resistir às cascatas de luz que se desprendem da plumagem de veloz beija-flor que adeja junto à floração do camará mais próximo. Como deixar de admirar o vôo fácil do urubu que plana durante horas sem qualquer esforço, até localizar a refeição do dia? Alguém consegue ignorar o bandinho barulhento de quero-queros cujos gritos onomatopaicos denunciam sua presença? Há coisa mais curiosa que uma pequena fêmea de tico-tico alimentando taludo filhotão de chupim? Não é interessante o súbito mergulho do martim-pescador em busca de um peixinho? E o frango d'água que nada no açude, atento aos escuros pintainhos que o acompanham, não é encantador? Ah, algumas horas em contato pleno com a Natureza, como beneficiam os neurônios! Que sensações gratificantes proporcionam! Para o observador de aves, quão estimulantes são as novas descobertas! Não consigo me esquecer da manhã em que, percorrendo distraidamente uma trilha no meio de árvores (coletava plantas para o meu herbário), assustei-me com o curiango que, num repente, alçou vôo quase sob meus pés, revelando o ninho. E o que dizer do espalhafatoso tucanuçu que, irritado quando eu lhe examinava os filhotes no fundo do ninho, alçou vôo primeiro para o alto e depois - que surpresa! - mergulhou verticalmente, de bico, numa manobra notável, que deveria ter sido filmada! Lembro-me até de cenas pesadas, embaraçosas, como a do bentevizinho Conopias trivirgata tentando violentar uma rolinha no sítio de Mon Ami.

BRASIL, PARAÍSO dos OBSERVADORES - Os observadores estrangeiros que vêm ao nosso país devem ficar eufóricos com a imensa quantidade de espécies, presentes nos mais diferentes hábitats. O maravilhoso livro ECOSSISTEMAS BRASILEIROS, que já deverá estar no mercado quando esta edição de ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS vier a lume (o amigo sr. Wilson Siviero, da Gráfica Hamburg, que imprimiu a obra, tem bela residência aqui em Jacutinga e fez a gentileza de mimosear-me com um exemplar), dá expressiva idéia da diversidade de hábitats existentes nesta terra de mulatas mil, proporcionando possibilidades infinitas ao observador de aves, pois cada ecossistema tem sua avifauna peculiar, inconfundível. Além disso, há espécies versáteis, presentes no campo e na cidade, na floresta e no cerrado, etc.. Com toda a nossa opulência ornitológica, é quase impossível um observador ir ao campo e voltar «sapateiro». Tanto que até o Sassá Mutema* descolou dois sabiás (o infame, porém, os capturou, embora os soltasse depois, em mísero estado). Boa pedida seria o interessado (ou a interessada, pois também temos observadoras, uns encantos!) postar-se numa área estratégica, onde as aves e pássaros costumam alimentar-se ou banhar-se. Em locais bem protegidos podem ser instalados comedouros para granívoros e frugívoros, bebedouros para beija-flores, etc.. Enfim, finalizando, no campo, no cerrado, na mata, no banhado, na restinga, até nas cidades há muito a ser visto, gravado, fotografado e filmado no reino mágico dos viventes que voam, encantadores enfeites alados deste planeta, apesar de nós, ainda tão belo!

* - Nota do Autor - Sassá Mutema, interpretado pelo grande ator Lima Duarte, é personagem rocambolesco da novela O SALVADOR DA PÁTRIA, levada ao ar no Brasil.


 

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