...E AS FUTURAS GERAÇÕES...

Liliane Ferrez Weinberg - Rio de Janeiro - RJ

Dr.Pedro Salviano Filho pediu-me para escrever um artigo sobre o COA - Clube de Observadores de Aves - no mesmo tom de entusiasmo e ingenuidade com que escrevi, faz alguns anos, Como Observar Aves. Pensando sobre o assunto, vi que isto seria impossível no momento, tendo participado do IIº Encontro sobre Psitacídeos em Curitiba, e ouvido declarações de vários participantes, da destruição que vem sofrendo esta família de aves.

Duas coisas me surpreenderam. Primeiro, que não são só algumas espécies que estão em vias de extinção como a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), a arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus) ou ainda a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), mas sim muitas outras espécies desta família. A grande surpresa é o fato de que a grande razão da diminuição destas espécies é a captura para colecionadores e para o bel prazer de algumas pessoas, em tê-las em cativeiro. Ora, e eu que pensava ser a destruição do seu meio-ambiente?

A nova constituição declara que é crime, não afiançável, a captura da fauna silvestre. Sabemos também que a lei não é imposta. Logo, cabe a cada um de nós, pessoas lidas e que sabem a real situação da nossa fauna, ter o bom senso e ouvir nossa consciência, para agir dentro da lei. Ela não foi decretada para ser antipática. Ela foi o resultado de uma luta dos conservacionistas e cientistas que estudam a natureza e viram o perigo que se corre.

Há oito anos, fui pela primeira vez ao Pantanal com meu marido e meus 3 filhos. Estes, ainda relativamente pequenos com idades variando de 10 a 14 anos. Observamos a beleza das araras-azuis- grandes (Anodorhynchus hyacinthinus) ao cruzarem o céu aos pares, formando um grande bando. Subitamente deram meia volta perdendo altitude e pousaram sincronizadamente numa árvore. Foi deslumbrante vê-las, enormes - as maiores do mundo - azul- cobalto, com um pouco de amarelo vivo em torno dos olhos, serem tão ágeis. Além disto, sabe-se que depois de formado o casal, estes jamais se separam. Isto fazia brotar em nós um sentimento romântico e nos sensibilizava. Era um grande privilégio estar ali observando o comportamento das aves em todo seu esplendor.

No IIº Encontro sobre Psitacídeos, soube que estas mesmas aves hoje tendem a desaparecer. Milhares são capturadas, encaixotadas, exportadas ou vendidas diretamente ao mercado interno. Nestas transações pelo menos 60% morrem, mas o preço pelo qual são vendidas ainda compensa. Na Feira de Caxias, no Rio de Janeiro, os vendedores dizem a possíveis compradores que as aves são mansas, quando a fome é a verdadeira causa de sua apatia.

Por sorte, em momento algum, na nossa excursão ao Pantanal, me veio à mente a visão delas empoleiradas num cubículo ou com grossas correntes nas patas, exalando aquele cheiro doentio e peculiar que vem da sua prisão futura e eterna.

Você que tem aves silvestres em cativeiro, me responda se puder: o quê meus filhos, hoje pensando em procriarem e serem pais responsáveis, o que é que eles irão mostrar aos seus filhos que cause tão grande impacto e beleza quanto o nosso passeio? O que me vem à cabeça é uma motocicleta possante ou quem sabe levá-los ao novo centro de cultura; moderníssimo, ar refrigerado, estacionamento, som estereofônico, luzes pisca-pisca, tudo muito caro e reluzente mas, cadê a emoção maior?

Março de 1989


ESTUDOS CITOGENÉTICOS EM AVES AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO E/OU EXTERMÍNIO E PROCRIAÇÃO EM CATIVEIRO

Aldo Waldrigues - Londrina-PR

A poluição e destruição ambientais assumiram proporções alarmantes no Brasil, principalmente em algumas áreas. A extinção e/ou extermínio de algumas espécies de aves são principalmente conseqüências dessas agressões ao ambiente que levam à destruição total ou parcial de hábitats, onde os mesmos se reproduzem.

Diversas são as maneiras de se procurar evitar a deteriorização do ambiente natural. Uma delas, talvez a mais efetiva, é a preservação da integridade de grandes áreas (parques ou reservas) que permitem a existência de inúmeras espécies animais e vegetais.

A caça predatória também influi decisivamente no tamanho das populações, principalmente de mamíferos, aves, répteis e peixes. Muitas espécies destes animais, caçados indiscriminadamente para servirem como alimento, adorno, divertimento ou até mesmo para serem ostentados como «verdadeiros troféus», têm apresentado uma diminuição drástica na sua população, chegando mesmo ao extermínio em grandes áreas.

Muito crítica é a situação de algumas espécies que apresentam um hábitat bastante restrito geograficamente. Qualquer alteração nesse local pode significar a extinção da mesma. É o caso, por exemplo, do mutum-do-nordeste (Mitu mitu mitu) da região norte de Alagoas. A destruição desse hábitat significou a extinção dessa espécie na natureza, sobrando alguns exemplares vivos no momento (a grande maioria machos) em poder de zoológicos particulares que procuram procriá-las em cativeiro numa tentativa de salvar esta espécie. Devido ao já reduzido número de animais e, principalmente, de poucas fêmeas, achamos pouco provável conseguí-lo.

Algumas espécies são também caçadas para somente serem exibidas em zoológicos ou enriquecerem coleções e museus, não se visando com elas qualquer tentativa de procriação em cativeiro. Pássaros canoros da avifauna brasileira (por exemplo: curió, bicudo e o azulão) tornaram-se raros ou exterminados em muitas regiões onde eram muito freqüentes. Para estes, no entanto, a procriação em cativeiro, hoje totalmente viabilizada, serviu para evitar suas extinções e abastecer o mercado, evitando a necessidade da caça de novos espécimes silvestres.

Segundo alguns historiadores (Frei Thivet, 1558; apud Pinto, 1944) o tesouro dos índios Tupinambás era constituído de «penas de pássaros: quem mais as tinha mais rico era». Fácil é pois prever, que desde aquela época pássaros são caçados para suas penas servirem como «moedas» ou enfeitarem cocares.

Aproximadamente 150 espécies de aves já foram extintas, 50 das quais somente neste século. Segundo a lista oficial de aves da fauna indígena brasileira ameaçadas de extinção, datada de 1973, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) reconhece 53 espécies nestas condições e também que sua tendência é de aumentar.

Outro fator importante a considerar é que 70% das espécies vivem na região litorânea, a mais devastada pelo homem. O desmatamento e a poluição ambiental, flagelos das espécies biológicas, assumem aí proporções preocupantes, especialmente no que diz respeito à Mata Atlântica brasileira.

O aumento da população humana requer uma quantidade cada vez maior de alimentos. Isto tem sido conseguido graças ao aumento da produtividade e da expansão das fronteiras agrícolas. Em certas regiões, terras exauridas na sua capacidade de produção são abandonadas e novas passam a ser utilizadas. Com o tempo, estas terras abandonadas passam a apresentar uma nova cobertura vegetal (biótopos secundários ou capoeiras formando hábitats para espécies animais com patrimônio genético adaptáveis a essas novas condições. Daí, outra necessidade, de preservarmos nossos animais para, com eles num futuro, se tentar a ocupação destes novos biótipos.

No entanto, a extinção de algumas espécies vem sendo aviltada graças à sua criação em cativeiro. Zoológicos públicos e/ou particulares ultimamente vêm dedicando especial atenção ao acasalamento e reprodução de algumas espécies, o que garante a sua não extinção. Isto está ocorrendo por diversos motivos: desde a crescente dificuldade de captura de exemplares na natureza, até a conscientização da humanidade dos fatores ecológicos envolvidos.

No Brasil há alguns exemplos (Mutum-do-nordeste Mitu mitu mitu, curió Oryzoborus angolensis, bicudo Oryzoborus maximiliani, azulão Cyanocompsa cyanea, marrecas ananai Amazonetta brasiliensis, rolinhas fogo-apagou Scarfadella squammatta) onde a reprodução em cativeiro é uma realidade.

A procriação de aves silvestres em cativeiro esbarra em inúmeras dificuldades, sendo a principal delas a formação de casais verdadeiros em espécies onde o dimorfismo externo não permite a sexagem. Neste caso, para a sexagem alguns métodos podem ser utilizados: laparotomia exploradora para análise das gônadas, análise hormonal e estudo cromossômico.

A constituição cromossômica ZZ em aves está presente em machos, enquanto a ZW em fêmeas. O cromossomo Z é freqüentemente maior do que o W, além deste último apresentar uma coloração mais intensa e marcada em coloração especial (banda C). Graças a estes dimorfismos cromossômicos se poderá realizar a sexagem de aves com alto grau de segurança.

Melhorias técnicas na metodologia de obtenção de cromossomos metafísicos é que vêm tornando possível tais estudos em aves, sem a necessidade de traumatizar e/ou sacrificá-las. Entre estas melhorias destacamos a possibilidade da obtenção de material para estudo citogenético a partir da polpa e penas jovens das asas ou cultura de fibroblastos a partir de biópsia de pele. Nestes casos praticamente não há danos para as aves e daí conseguimos, então, material que, após conveniente preparo, nos permite concluir ser a ave ZZ (macho) ou Zw (fêmea). Estas técnicas estão sendo implementadas pelo Laboratório de Citogenética da área de Genética do Departamento de Biologia Geral da Universidade Estadual de Londrina e colocadas à disposição da comunidade, oportunizando, desta maneira, a sexagem de aves por estes métodos. Esperamos com isto poder também contribuir para a preservação e criação em cativeiro de espécies da nossa avifauna.

 

 

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