Uma visita ao atelier

ETIENNE DEMONTE

Considerado um dos mais famosos pintores naturalistas do mundo, o Sr. Etienne Demonte concedeu recentemente esta entrevista a AO em sua residência, em Petrópolis-RJ.

Com 58 anos, natural de Niterói-RJ, o Sr. Etienne é, de certa forma, o responsável pelo sucesso e fama da família Demonte; suas irmãs, Yvonne e Rosália, e seus filhos, André, Rodrigo e Eleonora espalham por todo o mundo seus bem elaborados quadros, que além de documentarem nossa Natureza, transcendem com poesia e muita arte, num encanto e deleite nossos olhos.

 

AOQuando surgiu e como se desenvolveu seu interesse pela pintura?

Sou descendente de europeus (meu avô materno era de uma região perto de Turim, nas vizinhanças da França, e minha avó era espanhola, da Catalunha; os avós paternos, portugueses). A maior influência na infância foi dada pelo meu pai, um contemplador da natureza; passeios ecológicos faziam parte da família Demonte. Junto com minhas irmãs, nos anos 40, eram freqüentes as longas caminhadas que fazíamos pelas praias de Piratininga, Itaipú, pelos morros de Niterói, etc., onde meu pai sempre despertava o gosto e o respeito pela natureza. Porém meu gosto pela arte vem de mais longe; quando garotinho tinha grande prazer em fazer bichinhos - cavalinhos, elefantes - em argila, rabiscá-los em papel. Meu pai dava o maior incentivo, elogiava. Minhas irmãs e eu passamos então a nos dedicar muito aos desenhos. As aulas que mais gostávamos eram as de desenho. Meu pai achava que eu ia fazer agronomia e minha mãe que ia cursar engenharia. Porém, um dia, num futebol de praia, recebi uma bolada no rosto, atingindo minha vista. Uns dois anos depois surgiu uma inflamação (uveíte serosa) naquele olho direito, junto a uma catarata - fui operado e, infelizmente, perdi aquele olho. Nessa ocasião parei de estudar e passei a trabalhar. Comecei a trabalhar com aquelas máquinas de contabilidade da IBM. Casei com 25 anos de idade. Trabalhei nove anos no ramo de seguros. Por fim, já não agüentava mais ficar ali, na rua do Ouvidor ("Sul América" Seguros), o centro nevrálgico do Rio de Janeiro. Eu me lembrava dos ensinamentos do meu pai, da minha infância, dos meus desenhos, bem diferentes daquilo que eu fazia. Juntei meus desenhos e comecei a procurar editores. Fui a várias agências de publicidades, editoras, etc. Numa delas, na Delta, encontrei o Dr. Elias Davidovitch, - um médico que, porém, se dedicava à botânica - que me deu muito apoio. Foi lá que comecei profissionalmente a pintar. E desde então introduzi minhas irmãs no meio. Comecei a desenhar algumas vinhetas para enciclopédias e daí fiz muitos trabalhos. Fui chamado pelo Instituto Nacional do Livro para fazer a Enciclopédia Brasileira; foi quando conheci vários cientistas. O responsável pela área de Botânica era o Prof. Segadas Vianna, Geologia o Prof. Josué Camargo Mendes, da USP, Paleontologia Carlos de Paula Couto, etc. Essa enciclopédia seria destinada a nível de pós-graduação, uma iniciação à pesquisa; era distribuída por assuntos. Sua primeira parte elaborada seria destinada à paleontologia. Porém, veio a Revolução militar e ela extinguiu o projeto. Cheguei a fazer 18 lâminas sobre vários animais (mamíferos, répteis,etc. inclusive uma lâmina sobre peixes) da Chapada do Araripe, que foram posteriormente aproveitadas em outras obras. Para o Sr. Itamar de Freitas, na ocasião trabalhando para Editora Bloch (hoje trabalha para o Fantástico), da Manchete, fiz muitas ilustrações, inclusive textos sobre história natural, para Enciclopédia Bloch. Fiz, com a Yvonne, ilustrações para o famoso livro do Dr. Rinaldo Delamare, para editora Bloch. Depois o Exército me chamou, junto com Miranda Júnior (ele havia sido contratado para fazer as aquarelas, porém, devido ao pequeno prazo que tinha para entregar o trabalho, resolveu nos chamar) para fazer a história do Exército brasileiro.

Desde o início da nossa atividade, utilizamos o ETIENNE DEMONTE E EQUIPE. Eu coordenava todo o trabalho delas. A Yvonne teve mais escolaridade na pintura; ela foi, por algum tempo, a mais eclética, a que abordava mais assuntos na pintura. Eu me especializei muito em aves e na paleontologia. A Rosália e eu, éramos, porém, mais detalhistas. Hoje nos nivelamos. A Yvonne fez, posteriormente, um curso de porcelana e daí uma exposição, que teve muito significado na nossa profissão. Por volta de 1967, o Prof. Djalma de Vicenzi, um dos introdutores da pintura de porcelana no Brasil, professor da Yvonne, vendo nossos trabalhos, nos estimulou para realizar uma exposição na agência de O GLOBO, em Copacabana. Foi um sucesso, com muita divulgação, e vendemos muitos quadros. Surgiram muitas encomendas e daí procuramos fazer trabalhos mais artísticos. A partir desta primeira exposição verifiquei minha tendência para me dedicar à ornitofauna. Em 1973 deixei Niterói e vim morar em Petrópolis (inicialmente em Taquara, depois em Mosela, Val Paraíso e depois aqui na estrada do Carangola); naquele ano (73) eu fazia um trabalho para uma Enciclopédia de Pesquisas Escolares e havia uma quantidade enorme de vinhetas e desenhos; foi quando o meu filho André começou também a participar na Equipe. Depois fiz umas dez pranchas para um americano que vendia os trabalhos através de Mala Direta; foram impressas em Off Set (e não em Litografia, como normalmente fazíamos) e vendida bem mais de 9 mil dessas pranchas, com muito sucesso. Em 1976 conhecemos o famoso pintor Van Dick, holandês radicado aqui em Petrópolis há muitos anos, e de grande penetração nos mercados europeu e americano de arte. Ele nos estimulou sobremaneira a continuarmos com os movimentos de exposições; só havíamos feito a de Dias da Rocha, de 1968. Assim, em maio de '76, fizemos a segunda exposição, no Casa Blanca Center, um hotel aqui em Petrópolis. Foram expostos de 50 a 60 quadros (meus, da Yvonne e da Rosália); apesar do sucesso da presença de tanta gente, não vendemos nada. Porém, visitou a exposição o Comodoro Augusto de Niklaus, do Iate Clube do Rio de Janeiro, que participava na ocasião aqui de uma convenção do Lions Club International e ficou encantado com a exposição. Ele nos convidou para, naquele mesmo ano, fazer uma exposição lá no Iate Club, que ocorreu em setembro; e lá vendemos quase todos os quadros. Recebemos muitas encomendas de colecionadores particulares. Só do Dr. Antonio da Rocha, que faz Medicina Nuclear, recebemos a encomenda de 40 quadros de aves para dar de presente a amigos dele. Depois dessa exposição ocorreram outras, fizemos muitos trabalhos particulares, etc. Posteriormente trabalhamos para a empresa Franklin Mint Corporation, da Pensilvânia, Filadélfia. Minha prima morava lá e contatou aquele pessoal, mostrando alguns dos nossos trabalhos; eles adoraram e, assim, minha irmã fez uma coleção de borboletas do mundo inteiro, para selos, e eu fiz, junto a outros artistas americanos, uma coleção de desenhos de aves canoras, também para selos. Ficamos vários anos trabalhando para aquela firma. Com isso vieram muitos encomendas de trabalhos para colecionadores particulares. Assim, depois de 1976, já tínhamos criado um nome e tomado a definição pela pintura naturalista e também nos especializamos: eu fiquei mais com a pintura ornitológica, a Rosália em lepidópteros (insetos, borboletas) e peixes e a Yvonne em mamíferos e botânica, embora sempre fizéssemos uma mistura. Nesse período sempre fizemos excursões, observando a natureza, colhendo informações, fazendo anotações, trazendo algumas folhas, pedaços de madeira apodrecida, etc., para enriquecer nosso trabalho. Em 1977, o Almirante Bernard David Blower, irmão do meu cunhado, que era amigo do Prof. Ruschi, insistia muito em que o conhecêssemos. Numa daquelas excursões, minhas irmãs estiveram em Santa Tereza e o Prof. Ruschi ficou interessadíssimo em me conhecer, pois eu fazia a parte de ornitologia e ele estava precisando de um pintor de aves para ilustrar seu livro de beija- flores. Uma semana depois fui com o meu filho André , conheci o Professor e acertamos a fazer a ilustração, só que eu teria fazer meu trabalho lá, em Santa Tereza. Minha pintura passou a ter uma nova dinâmica, pois, trabalhando ao lado do cientista, as informações que recebia eram fundamentais; ele me dizia o que caracterizava cada espécie, o que podia ser desprezado, saber distinguir cada cor, cada padrão, etc. Isso foi um marco na minha pintura. E, assim, ilustramos o livro "Beija-flores do Estado do Espírito Santo", o primeiro do prof. Augusto Ruschi. Nessa ocasião, um editor de São Paulo, o Sr. Raimundo Rios (que tem uma bela história: começou como vendedor e hoje possui 5 empresas...), me procurou para ilustrar um livro sobre aves. Ele havia procurado o Dr. Olivério Pinto, mas ele já estava muito idoso e recomendou o Prof. Helmut Sick, o Prof. Augusto Ruschi e outra pessoa de Belém, que não recordo o nome. Como eu já trabalhava com o Ruschi e o Prof. Sick havia escrito tudo em alemão, havendo assim a necessidade para traduzir tudo, etc., sugeri ao Sr. Rios que, diante da estrutura montada no Museu Melo Leitão e da rapidez com que o Prof. Ruschi fazia as coisas, talvez fosse ele a melhor opção. E, diante da pressa em ter o AVES DO BRASIL, o Prof. Ruschi entregou para o Sr. Rios a obra em 7 meses, com 300 páginas. Sob a orientação do Professor eu fiz toda a ilustração; os "bico-de-pena" foram, também sob a orientação dele, feitos pela Yvonne. Com o sucesso da obra, o Prof. ficou muito animado e entrou em acordo com a editora Rios para fazer o AVES DO BRASIL nº 2, que também saiu rapidamente. O nº 3, onde sairia a parte descritiva, não foi publicado e os 4 e 5 foram apresentados por outra editora. Em 1983 fomos convidados pela Empresa de Correios e Telégrafos para fazer uma série de selos com os Tucanos, que foi lançada na Suíça. Fui premiado pela ECT como a melhor edição de selos de 1983. Recebi a medalha de ouro "olho de boi". Depois fizemos uma série sobre os búfalos, sobre o pantanal matogrossense, e parque nacional de abrolhos. Ainda em 1983 fizemos uma exposição numa galeria - Shelly - de Botafogo e foi um sucesso de vendagem, de promoção; mereceu um longo comentário do Rubem Braga, o Prof. Ruschi fez uma palestra lá, os grandes órgãos de imprensa difundiram muito. O embaixador da Espanha, na ocasião, Sr. Miguel de Aldassoro, nos contatou e organizamos várias exposições na Espanha. O Real Jardim Botânico de Madri promoveu, assim, de 84 a 85 exposições nas cidades de Valladolid, Zamora, Leon, Ponferrada, Toro, Benavente, Segóvia,e Valencia. Nesse mesmo período, o Sr. Philip Bruno nos convidou a expor nos Estados Unidos. Em maio de 1985 expomos no Hunt Institute for Botanical Documentation, no Carnegie - Mellon University, em Pittsburg, em 1986 no Wave Hill, em Bromx, New York e de dezembro de 86 a janeiro de 87 expomos no Smithsonian Institution, em Washington. Esta exposição, que teve cerca de 50 quadros (todos eles já estavam vendidos desde a exposição da Hunt), marcou pela importância da instituição; foi um sucesso muito grande. Fomos contatados por várias organizações científicas. Ainda em 1985 fizemos uma exposição no Museu Filatélico de Brasília, sob o patrocínio da Embaixada espanhola, que nos ofereceu um banquete na ocasião.

Sempre nas nossas excursões têm ocorrido fatos pitorescos; ora alguns membros se perdem na mata, ou o susto com um barco que quase afunda ou, como ocorreu numa excursão que levávamos alguns americanos, onde a revista Veja enviou uma fotógrafa e um repórter; ela caiu de um arbusto ao tentar se posicionar para obter melhor foto.

Em 1986 a National Geographie Society fez um documentário de uma excursão que fizemos na matas do Sudoeste da Bahia, pelo programa Explorer, de Washington. Esse filme já foi apresentado em TV de cabo e 4 vezes nas emissoras de TV comerciais nos Estados Unidos. Minhas irmãs resolveram entrar em uma galeria americana, em Pittsburg, sem consultar o nosso agente, o Philip Bruno, que não aceitava que regredíssemos em nível de galerias, já que estávamos em melhores galerias. Então elas fizeram outras exposições em Nova Iorque e eu continuei com o Bruno, desfazendo-se então aquela associação ETIENNE DEMONTE E EQUIPE. Porém continuamos muito amigos; adoro minhas irmãs.

Meus filhos estão indo muito bem; eles tiveram uma escola que eu não tive, assim eles deram um salto. Nunca fiz curso de Belas- Artes, nem de desenho; nosso trabalho sempre foi auto-didata. Aprendi trabalhando; gostava de desenhar um passarinho e fazia um passarinho. Na idade deles eu não tinha o nível que eles possuem. Eu fui autodidata e eles tiveram a grande escola da observação, da convivência natural. No Brasil resolvi então fazer uma empresa editora de arte, criando "fine arts", cartões e gravuras em off-set, lithografias aquareladas à mão e serigrafias. Nossa preocupação é a de abordar problemas ambientais, especialmente os devastadores efeitos do deflorestamento tropical no país. Temos intenção de promover jornadas ecológicas em escolas de 1º e 2º graus e universidades, através de exposições conjugadas, com palestras de artistas e exibições do acervo fotográfico do Atelier, fotos obtidas nas diversas expedições feitas aos longínquos interiores do Brasil. Também já temos programação para o exterior. Assim, em abril deste 1990, já teremos nossa primeira exposição - eu e meus dois filhos, o André e o Rodrigo (a Eleonora ainda não abraçou totalmente a arte); ela será na Cris Galery da Inglaterra. Lá, cada tela será vendida por volta de 1.800 libras (sendo cerca de 50% para o autor, o que equivale a uns 1.500 dólares). Temos vários convites, e os estamos analisando: para Frankfurt, uma na França e outra no Japão. Também recebemos o convite para termos quadros no Museu Swan, em Gloucester, na Inglaterra, que possui um acervo só de pintura e peças naturalistas. No Brasil criamos um projeto, "Por Amor à Natureza", que visa fazer uma série de exposições, em diversas capitais, não necessariamente capitais, quer dizer, em cidades do Brasil, quem sabe até em Ivaiporã (risos), com litografias também. Todas essas exposições, como já disse, deverão ter mensagens ecológicas.

AO:: Quais as características técnicas que usa na sua pintura?

Etienne Demonte:Tecnicamente usamos três modalidades de tinta; usamos o óleo, mas muito raramente; nosso trabalho basicamente é aquarela e guache, técnica mista. Mais que o óleo, usamos o acrílico. Não usamos material nacional, nem japonês. Estas tintas são feitas à base de petróleo de hulha, desses colorantes. As melhores são as feitas com sais minerais; são as inglesas, alemães, francesas. Toda tinta que não seja para profissional, não nos serve; elas agüentam no máximo cinco anos e se perdem. Hoje ponho em dúvida até a qualidade de certas tintas inglesas, pois tenho visto quadros, de uns dez anos, que já estão perdendo a cor. Os melhores pincéis do mundo são os de pelo de marta; usamos os ingleses, desde o maior, nº 5, até o 000. Quanto ao papel, utilizamos o papel alemão Schoeller 4R. Não utilizo o pentaclorofenol (contra fungos) no papel, pois temos o hábito de molhar o pincel na boca. O tempo que gasto para confeccionar uma prancha é, obviamente, variável; às vezes uma semana, 10 ou 15 dias.Existem dias que não estou disposto para trabalhar e não faço nada; em outros não consigo nem sair do atelier para almoçar - fico tão envolvido com o que faço que passo horas pintando. Meus filhos só trabalham com luz natural; eu também uso a artificial. Para detalhes, utilizo às vezes uma lupa. O Prof. Ruschi exigia que trabalhasse na escala 1:1; atualmente prefiro dar uma ampliação, sempre seguida do tema que acompanha o objeto; essa ampliação permite melhorar o resultado. Eu sempre prefiro trabalhar no meu laboratório, que é o atelier. Vamos à mata, fazemos as anotações, observações, sentimos o ambiente, etc., porém, é no meu atelier que sinto mais inspiração para criar a cena a ser retratada. Por exemplo, o ambiente em que a ave vive é muito importante; você precisa sentir aquele ambiente para fazer uma composição poética, harmoniosa. Não é a reprodução apenas da imagem, é o que há por trás da pintura; essa coisa a mais é o sentimento e que não é captado apenas visualmente. A pintura de vanguarda não nos atrai; como também a acadêmica. Usamos um estilo acadêmico porque o que é necessário para a nossa pintura é retratar com fidelidade a espécie desejada.

Turdus rufiventris Sabiá Laranjeira, de 1987 de Etienne Demonte.

Pai e filho trocam idéias sobre detalhes da nova obra.

Falco peregrinus anatum Gavião Peregrino, gravura de 1987 de Rodrigo Demonte.

O Sr Etienne, em sua casa, em Petrópolis.

No atellier Demonte, André inicia a elaboração de mais uma gravura.

Metopiana peposaca Marrecão da Patagonia, sendo executado pelo Sr.Etienne.

Também animais empalhados são utilizados para desenhos das pranchas.

Geotrygon violacea Juriti-vermelha-da-mata e Zenaida auriculata Pomba-de-arribação, de 1988 de Etienne Demonte.

Rhamphastos tucanus cuvieri Tuano-grande-de-papo-branco, de 1989 de André Demonte.

 

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