Entrevista com o

Prof. Jacques Vielliard

Jacques Marie Edme Vielliard, nasceu em Paris no dia 22 de agosto de 1944. Montou o primeiro laboratório de Bioacústica da América Latina, na UNICAMP, em Campinas-SP, que hoje possui um acervo de 12 mil gravações de aves brasileiras, envolvendo cerca de 900 espécies. Ele conta para os leitores de AO toda sua história, desde seus contatos iniciais com as aves de Paris, até a descoberta de novas espécies, na Amazônia.

AO:Qual foi sua formação ornitológica?

Prof.Jacques Vielliard: Em Paris, em uma residência de verão, a 20 km do centro, mantive meus primeiros contatos com as aves. Havia um parque, com muitas aves, nascendo aí minha curiosidade sobre elas. Aos 12 anos começei a observar aves e no ano seguinte publiquei algumas relatos em um boletim de amadores. No Museu de Paris fiz um estágio no CRMO - Centre de Recherche sur la Migration des Oiseaux. Estudei latim e grego, física e matemática, etc., me preparando para uma Escola de Engenharia. Porém resolvi seguir outro rumo, optando pela biologia, o que, na época, era como que inferior, uma decadência. Em 1967 conclui o curso. A vantagem é que na França não se exigia presença. Assim, tendo entrado em 1962, passei todo esse tempo viajando e trabalhando para o WWF - Fundo Mundial da Natureza (meu primeiro trabalho profissional) e para o Bureau International de Recherches sur la Sauvagine, uma Agência das Nações Unidas para Estudo e Proteção das Aves Aquáticas e Migratórias. Foi durante essas muitas viagens que comecei a me interessar, em termos de pesquisas, sobre a ecologia dos maçaricos, primeiro na Bacia do Mediterrâneo, depois na Ásia ocidental e preparei minha tese de doutorado. Eu viajava cerca de sete meses no ano. Quando chegava dessas viagens tinha que pegar as apostilas, estudar e prestar exames. Fiz minha pós-graduação num Instituto dentro da Universidade de Paris e fui eu quem abriu o primeiro curso de Pós-Graduação em Ecologia da França, pois ele não existia até então (1967). Fiz o mestrado em 1968 e o doutorado em 1971. Paralelamente a essas atividades, fui editor durante 13 anos da revista ALAUDA (até 1981). Em 1967 eu era «ataché" (título honorífico, dado por eleição no conselho dos professores) do Museu de Paris, quando adquiri muita experiência extra-curricular em sistemática, coleções, etc. Nas viagens que fiz para observação das aves aquáticas trabalhei no mediterrâneo oriental: Turquia e Romênia, principalmente.

Estive na Turquia, no Iraque, fiz a primeira expedição de campo na Mesopotâmia, no Irã, Afeganistão, e o plano era entrar cada vez mais a leste do Himalaia; eram expedições caríssimas e depois começou o problema político. Não adiantava se combinar com um governo um plano para regulamentar e montar uma rede de reservas para que as aves aquáticas pudessem continuar a ter seu fluxo natural, porque logo a seguir esse governo era substituído, um presidente era deposto, exilado, etc.. Também tive que prestar meu serviço militar e consegui fazê-lo como colaborador científico. Fiz pesquisas em aves aquáticas no Lago Chadu, isso em 1971.

AO:Como veio parar no Brasil?

Prof.Jacques Vielliard: Depois que terminei minha tese de doutorado, fiz mais uma viagem ao Paquistão e tudo foi desativado. Logo após, recebi o contato da Academia Brasileira de Ciências, do Rio de Janeiro, que me convidava para fazer os levantamentos preliminares para implantação de um programa de ecologia de campo na região da caatinga; era também um projeto multi-disciplinar. Cheguei em 1973 no Rio de Janeiro, depois fui ao Nordeste, na região de Exu, em Pernambuco. O local, do ponto de vista ecológico, era formidável, pois tinha todos os tipos de ambientes; desde o alto da Chapada do Araripe até as caatingas, super espinhosas. Havia um colégio agrícola enorme, que nunca tinha sido ativado. Esse projeto, porém, não foi adiante. Fiz também um teste para implantar a metodologia do estudo da ecologia das aves no campo. Verifiquei que existia uma falha grave de não se identificar as espécies pela voz; se perdia um tempo formidável de se correr atrás, de se ver, de se capturar, etc.. Como eu tinha levado um gravador profissional, parábola, etc., e realizado gravações, o Sr. Presidente da Academia de Ciências, Dr. Aristides Pacheco Leão, que era também ornitólogo amador e se interessava por gravações, se envolveu muito com isso. Assim, naquele ano, 1973, fizemos as primeiras gravações sistemáticas, científicas no Brasil. Com as modificações dos projetos da Academia, fui encarregado de montar um catálogo das aves do Brasil. Assim fiquei, nos anos seguintes, viajando o Brasil todo, fazendo gravações que depois levava para Paris a fim de fazer a catalogação. Eu passava cerca de 4 a 5 meses no Brasil e depois voltava para França, trabalhando para a Academia de Ciências e como professor de Ecologia de Aves da Universidade de Paris e também exercendo a administração da ALAUDA. Eu viajava muito e não era útil ter aquela coleção só em Paris. Assim, a UNICAMP se interessou e me ofereceu um emprego fixo. Na ocasião os contatos foram feitos pelo Dr. Zeferino Vaz. Em 1978 me radiquei no Brasil, em Campinas, onde fundamos o laboratório de Bioacústica.

AO:Como surgiu seu interesse pela Bioacústica?

Prof. Jacques Vielliard: Desde a antiguidade já se conhece, já se observa vozes de aves. No hemisfério norte, desde o início deste século, já foram aplicadas diferentes técnicas de reconhecimento de aves pelas vozes. Porém, estas metodologias se tornaram mais sofisticadas, se desenvolveram, bem recentemente. A Bioacústica é uma disciplina nova; ela teve início nos anos 60. Qualquer amador que pertence a um clube hoje, em pouco tempo, já pode adquirir essa experiência; torna-se capaz de ir à mata. A metodologia de levantamento quantitativo que desenvolvi consiste em tomada de contatos - visual ou auditivo (principalmente estes) - em uma série de pontos e épocas determinados, para ser repetitivo. Isto permite se estabelecer índices de abundância, que podem ser comparados de um ano para outro, de uma para outra área; e isto pode ser feito devidas às anotações, já que são realizadas da mesma maneira. Isto é muito praticado na Europa e A.do Norte. Lá as aves são indicadores ecológicos muito práticos. Era objetivo da Academia de Ciências, desde l973, adaptar-se essas metodologias para o Brasil. Só que não se conhecia o suficiente das espécies para aplicá-las; havia a necessidade de se fazer alguns ajustes. Os ciclos biológicos não são sincronizados como na região temperada do hemisfério norte. Devia-se multiplicar as amostras ao longo do ano, etc.. Durante 4 anos, com o apoio da Duratex S.A., que me colocou à disposição uma reserva de mata, no planalto paulista, e ajuda financeira, pude testar a metodologia, para identificar o mais prático e seguro para tomada de dados na mata. Utilizei o método de amostras por pontos. Pode-se determinar, de modo aleatório, pontos na área objeto de estudo. Procura-se, assim, que esses pontos sejam representativos da diversidade da mata, já que as matas tropicais são extremamente heterogêneas. Nesses pontos fica-se 20 minutos contando-se o número de contatos de cada espécie que se manifesta. Mais de 90% delas são escutadas. Se no momento não se é capaz de colocar o nome de cada canto, de cada grito que se escuta, não se pode aplicar esta técnica. A obtenção destes dados é rápida e se acumula um grande número de amostras, o que permite, após um tratamento estatístico, se ter dados bastantes refinados e precisos, calculando-se a diversidade, montando-se todo um perfil da vida das aves que é o reflexo da estrutura do ecossistema. O método é simples, embora no papel possa parecer complicado. A identificação de uma espécie é mais certa pelo canto do que mesmo com o bicho na mão. A vantagem é também que é um método instantâneo.

Mas, voltando à pergunta, como disse, a Bioacústica propriamente dita teve início nos anos 60 e, apesar de não ser meu tema de pesquisa, participei dessa organização. Eu era muito ativo no ramo de gravações de aves e tudo se deveu à iniciação de amadores. A sociedade ALAUDA participou muito disso e lançamos os primeiros 6 discos de vozes de aves; primeiro da França, depois toda uma série da África ocidental. Logo que apareceram os gravadores portáteis profissionais, eu comprei um equipamento para esse fim; aproveitava as viagens que fazia e o utilizava como uma coisa acessória. Participei da elaboração das primeiras normas para catalogação; fiz um programa em computador para isso. Tínhamos um computador enorme, Univac, uma potência para a época. Trabalhávamos, na ocasião, num laboratório de acústica musical, que era ligado a um laboratório do Departamento de Física da Universidade de Paris. Não tinha aquelas dependências que eu gostaria de ter. Assim, no Brasil, surgia a oportunidade de criar o laboratório que desejava, que a UNICAMP me deu. Só que, em 1978, começou a crise econômica brasileira e precisei de 6 anos para montar o laboratório completo, embora bem menor do que o planejado para ser montado em dois anos. Isso atrasou um pouco o processo. Hoje temos um acervo muito importante, com uma colaboração internacional interessante e com uma rede de colaboradores regionais que começa a ser muito operacional. O arquivo sonoro neo-tropical, locado na UNICAMP, está disponível para pesquisas, programas didáticos, e é subsidiado pelo CNPq. Atualmente já conta com 12 mil gravações classificadas, englobando cerca de 900 espécies. Existem cerca de 50 colaboradores espalhados no Brasil; também já funcionam 3 centros regionais, um em Curitiba, na Universidade Federal, para o Paraná, um na Universidade Federal do Rio de Janeiro, para a mata atlântica e aves marinhas, além daquele estado, um em Santa Teresa, no Espírito Santo, também para mata Atlântica; também temos gente trabalhando no nordeste, em Pernambuco, no norte, em Belém e em Brasília, para o Brasil Central. Essa é a nossa rede de trabalho para ampliar o acervo de pesquisas. Elas são de dois tipos: apoio para identificação de campo - isto diz respeito à metodologia de levantamento quantitativo de avifauna (que estou começando a divulgar uma metodologia adaptada à mata tropical) e monitoramento de composição de comunidade de aves (a estrutura dos ecossistemas). Esse monitoramento é muito importante para programas de conservação da natureza. O arquivo permite, na prática, a identificação rápida de uma espécie, na mata. Esse é um grande subsídio que o arquivo oferece. Existem também pesquisas ligadas diretamente a problemas de comunicação sonora de animais; são os fatores de comportamento, repertório vocal das espécies, comportamentos desenvolvidos por sinais sonoros; problemas de parentesco (se analisa a estrutura das vozes para se descobrir as diferenças e semelhanças entre espécies); são pesquisas próprias da bioacústica. Os primeiros trabalhos começam a sair. Foram 12 anos para se chegar a isso. Depois da implantação, se colocou as pesquisas em andamento para somente agora aparecerem os primeiros resultados. Mas todo esse esforço valeu a pena, não resta dúvida.

AO:Que espécies de aves novas a bioacústica já facilitou identificar no Brasil?

Prof.Jacques Vielliard: Acabei de descrever o Glaucidium hardyi e nosso colega Edwin Willis Drymophila rubricollis, graças à análise bioacústica.

AO:Como você vê o futuro dessa atividade no Brasil?

Prof.Jacques Vielliard: A preocupação para conservação da natureza no Brasil, por parte da mídia, dos jornalistas e da população em geral, já fez progressos enormes nesta última década. Existe também a preocupação óbvia dos alunos de biologia, que cada vez procuram mais se informar e se profissionalizar em técnicas que possam repassar em suas atuações em prol da defesa da natureza brasileira. O problema é que existe uma estrutura exígua para absorver tantos alunos; não existe ainda um mercado de trabalho organizado. A grande problemática é de formar especialistas que possam realmente ser utilizados na sua especificidade. Esse mercado de trabalho, ligado aos problemas ecológicos, deve ser então organizado, senão o espaço vai ser ocupado por essas consultorias que surgem quando se abre uma concorrência, que desaparece no dia seguinte, que vende qualquer peixe...

 

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