Entrevista com o Prof. Ângelo Machado

Presidente da Fundação Biodiversitas para Conservação da Diversidade Biológica. E entre outras atividades, o Prof. Ângelo B.M.Machado, anos, é hoje um ardente defensor da Natureza. De autor de consagrada obra de neuro-anatomia, para estudantes de medicina, a escritor de literatura infantil, o Prof. Machado é requisitado palestrista em matéria de conservação da Natureza. Nesta entrevista concedida a AO ele expõe seu ponto-de-vista sobre os criadores de aves, sobre a importância da conscientização das crianças e outros importantes temas.

AO: Por que seu trabalho agora se volta mais sobre as crianças?

Prof.Ângelo Machado: A minha tese principal é a de que as pessoas conservam a Natureza por duas razões apenas: por amor ou por temor. Por amor quer dizer, a pessoa gosta, acha bonita, não quer saber por que; só gosta. Por temor são aqueles que já ouviram falar no desequilíbrio ecológico, que têm medo de cortar mata, das enchentes, o rio assorear, têm medo do efeito estufa, da poluição e, é lógico, tem-se que ter medo mesmo, pois a Natureza, quando agredida, ela revida. Acho o mais importante ensinar a criança a gostar e não pôr na cabeça da criança catástrofes ecológicas. Devagarzinho a gente vai dando conceitos de ecologia para mostrar que precisamos conservar. E é difícil se ensinar a gostar, quando não se conhece a Natureza, àquelas pessoas que vivem isoladas dentro de cidades e que formam idéias distorcidas, ficam muito ignorantes quanto à fauna, à flora. Têm apenas informações sobre a Natureza de ensinos de ciência, de bichos que têm veneno, que provocam doenças, ou em filmes de ficção em que os bichos ficam monstruosos, toda a tradição do medo da floresta imposto nas «belas» histórias infantis do tipo «chapeuzinho vermelho». Então a criança faz uma história muito negativa da Natureza, porque ela não tem contato direto com ela.

Outro aspecto que tenho analisado é a idéia que as crianças têm, porque vivem num ambiente degradado da Cidade e não têm contato com a Natureza conservada e o aspecto «normal» é a degradação. É o caso da criança que me perguntou «Por que os rios são sujos», achando que na Natureza todos os rios são sujos, porque o único rio que ela conhecia era o de Belo Horizonte, que é um esgoto. E ela conhecia da televisão o personagem "Sujismundo" que entrava num rio e, quando saía, estava doente; e a Companhia de Águas e Esgotos dizia quanto gastava para limpar o rio. Minha proposta de educação ambiental para uma criança como esta é dar-lhe um banho de cachoeira, como num rio da Serra do Cipó. Ela vai descobrir que um rio é limpo. Motivado nesta história publiquei agora meu livro «O MENINO E O RIO», que é a história de uma criança que procura o professor, coincidentemente careca, perguntando-lhe por que os rios são sujos. E o prof. responde que ainda existe um rio limpo no mundo. E o menino pergunta: - « E onde fica?» - «Não sei, procure» - Responde o professor. E o livro é o menino andando pelo mundo à procura de um rio limpo que, no final, encontra. O livro dá minha idéia básica, ou seja, que a sala de aula, a educação ambiental, tem que ter motivadora de atividades lá na Natureza e, mais importante, que a criança deve ter contato com a Natureza desdegradada e equilibrada e é deste contraste que vai surgir a idéia de que se precisa limpar e corrigir. No livro o encontro é o contraste entre o rio sujo e o rio limpo que levam o menino a voltar à cidade e fazer uma campanha mundial para limpar os rios. Neste sentido, de ensinar a gostar, o ornitólogo tem um elemento fundamental para um passarinho, que naturalmente as pessoas gostam dele. No caso do medo da floresta, a solução está na própria história do «chapeuzinho vermelho», quando a criança vai andando no caminho da floresta, ela vai vendo passarinhos e vai vendo borboletas; então você tem a chance de organizar programas para levar crianças para mostrar passarinhos lá. E os ornitófilos podem fazer isso melhor que qualquer um. E vocês podem começar a mostrar que se pode trocar o alçapão pelo binóculo. A arma mais importante de educação conservacionista vocês têm na observação de aves, que pode ser incutida nas crianças desde pequenas. A ave é fundamental, porque onde está o ambiente equilibrado, conservado, existem muitas aves.

AO Qual a sua preocupação com as crianças do campo, pois crianças da cidade não usam alçapões?

Prof. Ângelo Machado - Minha principal preocupação é com as crianças das cidades, e isso por uma razão fundamental: o destino da natureza é decidido na cidade. É na cidade onde está o poder econômico e o poder político. Quer dizer, um executivo numa grande cidade, num pedaço de papel, ele comanda a destruição de milhares de hectares de uma mata que ele nunca viu. Um político de Brasília, numa folha de papel, pode fazer uma lei que destrua ou que conserve, assim o poder de decisão está na cidade. Assim, não consigo fazer programa de educação ao mesmo tempo para o campo e para cidade, pois a prioridade é a cidade. O passarinho que se destrói no campo é muito pouco. Estou interessado é no ecossistema inteiro. Aliás, acho muito ruim quando chega o IBAMA e solta passarinhos de gaiola dos capiaus do mato que só tem naqueles bichinhos a razão de gostar de alguma coisa. Eles não desenvolvem o comércio ilícito. Quem faz isso é, por exemplo, aquele que desce da Bahia, com o carro lotado de papagaios para vendê-los na cidade. Não sou favorável ao bodoque, não. Entende? Acho que mesmo no campo se pode ensinar ao menino que no lugar dele pegar num estilingue, passe a observar o passarinho. Quem sabe ele vai ter um prazer muito maior na observação.

Basicamente, alguns caçadores gostam de andar no mato. Mas a nossa tradição não aceita que uma pessoa ande no mato sem estar fazendo alguma coisa. Assim, para não parecer bobo ele leva uma espingarda. Mas devemos tentar convencê-lo de que no lugar da espingarda é muito melhor que leve um binóculo, ou uma máquina fotográfica. Também existe um grupo, que são os sanguinários, do qual não gosto nem de falar; ele quer matar tico-tico, treinar tiro-ao-alvo. Não parece ter solução, ou melhor, a solução é a cadeia. Mas existe uma série de pessoas que se dizem caçadores, que são muito bem intencionadas, que podem mudar seus hábitos, que é um prazer tão grande de observar, como o de matar.

Temos que lembrar que os ornitólogos têm tido um papel muito importante no movimento conservacionista, inclusive no mundo. A Sociedade Audubon, dos Estados Unidos, foi criada para conservar a águia americana e logo ela viu que poderia usar a mesma estratégia para conservar o próprio homem, tornando-se uma sociedade conservacionista ampla. Mas a motivação foi a ave. De modo que espero que vocês, observando as aves, passem a criar associações que passem a protegê-las e ao seu ambiente e ao próprio homem, que precisa desse ambiente para viver harmonicamente com a natureza.

AO: Como o Sr. vê os criadores de aves?

Prof. Ângelo Machado: Acho que eles eticamente devem criar visando a desenvolver novas técnicas na reprodução. Porém todos devem evitar o comércio provocado pelas coleções. Acho muito ruim o criador de aves que quer ter uma série enorme de espécies para esnobar que tem fomentando um comércio ilícito que, direta ou indiretamente, depende da esnobação, que eles gostam de ter muito pintassilgos, por exemplo. É diferente daquele que está lá, dando duro para ver se consegue reproduzir espécies de psitaciformes, que pode inclusive criar metodologias para depois fazer repovoamento em zonas naturais. De modo que, a priori, não condeno nem aplaudo os criadores. Cada situação é um contexto diferente.

AO - Como será seu próximo livro?

Prof. Ângelo Machado: Meu próximo livro vai se chamar OS MENINOS E O VELHO DA MONTANHA e relata a minha experiência de quando fiquei um mês em uma remota tribo no Amazonas e eu andava no mato com quatro crianças indígenas. Eu estava inteiramente nas mãos daquelas crianças e criei muita amizades a elas. Elas viraram heróis no meu livro. Assim, até certo ponto, são até personagens reais. Uma delas só falava a língua tirió, e no meu livro ela só vai falar essa língua (com traduções no rodapé). Mostra o contraste de uma criança do Rio de Janeiro que vai lá para a tribo e fica amiga do índio. O livro tem um colosso de estórias complicadas, mas basicamente mostra a realidade do nosso índio e o problema da devastação quando chega o branco.

AO: É mais difícil escrever livro sobre neuro-anatomia, para estudantes de medicina, ou livro sobre ecologia para crianças?

Prof. Ângelo Machado: Não sei se é mais difícil, mas sei que escrever sobre neuro-anatomia é muito mais chato! (risos).

Eu sou um cientista e um cientista é um profissional da criatividade. Quando escrevo ciências a criatividade é limitada por aquilo que naquele momento se acha que é a verdade; não se tem o direito de mentir, de inventar. Então gosto de escrever literatura porque aí a minha criatividade não tem limites. A linguagem científica torna mais difícil isto. A gente atrapalha tudo. Para escrever esse livro, inicialmente fiz direto e saiu uma porcaria. Depois imaginei que tivesse uma criança comigo e, com o gravador, contei uma história para a criança. Aí saiu um texto razoável. Fiz isso em quinze dias e fiquei um ano corrigindo. Aí foi muito gostoso.

AO: Como vê a importância de relacionamento com a mídia?

Prof. Ângelo Machado: Mantenho um excelente relacionamento com a mídia. Primeiro porque pertenço a duas entidades ambientalistas. E os ambientalistas só se tornam fortes na medida que tenham o apoio da imprensa. De modo que durante esses quinze anos eu sempre me relaciono com a imprensa porque é importante para a luta ecológica. De tal modo que quando publiquei esse livro agora, a mídia me procurou e deu uma divulgação muito ampla ao meu livro, porque tudo decorreu de um entendimento cordial que já vem de muitos e muitos anos.

Acho também que é uma obrigação de todo cientista que trabalha - e a gente ganha dinheiro do povo - dar uma satisfação ao povo, daquilo que a gente faz. E isso se faz através da divulgação da ciência, seja através de revistas como CIÊNCIA-HOJE, seja na grande imprensa e até na televisão. É claro que, de vez em quando, a gente sofre um pouco porque alguns profissionais distorcem um pouco a idéia - e há um certo risco nisso - mas não é por isso que a gente deva deixar de ter a obrigação de divulgar as coisas que fazemos. Geralmente não é por má fé que o jornalista faz isso. Às vezes um pequeno erro do jornalista, que para ele é pouco importante, para o cientista, acostumado com detalhes, com rigor maior, fica revoltado com aquilo. E assim surgem alguns conflitos com a imprensa. Nunca tive essas conflitos.

 

 

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