Edição 3 - Março/Abril 1985 - Página 1 - ISSN 0104-2386

AO Number 3 - March/April 1985 - P.1

EDITORIAL

PENA & PAPEL

Participamos, direta ou indiretamente, de uma época que sofre transformações muito rápidas. Os meios de comunicação se desenvolvem de tal maneira que, por vezes, nos deparamos com estonteantes surpresas. Vivemos a época das coisas, até á pouco, inimagináveis: informática, chips, Brasilsat...

Nesse mundo de especializações há o paradoxo da integração, condicionada pela necessidade inerente da evolução. E, progressivamente, "AO" procura se adaptar ao desenvolvimento, envolvendo temas muitos diversos: canários (criados pelo homem desde 1400), ecologia (termos que só a partir dos anos sessenta começou a sair dos restritos círculos científicos especializados), preservação da natureza etc; todos, porém, objetivando a atualização ornitológica.

E a comunicação escrita (da pena & papel) tem, primordialmente, estimulado uma participação mais atuante dos ornitófilos.


Campeonato Mundial na Holanda: 15.500 pássaros

Especialmente para "Atualidades Ornitológicas" o Dr. Angel Martím Miñano, um dos juízes do 33º Campeonato Mundial da COM - Hemisfério Norte, enviou da Holanda as informações sobre este evento que teve encerramento no mês de fevereiro p.p.

A nível de julgamento, ao lado de Dick Vos, no sorteio nos coube julgar os Paddas - cerca de 200 - nas cores Cinza, Branco e Isabelino. Tanto em branco como em cinza havia magníficos exemplares. Os isabelinos, muito belos de cor, careciam, sem dúvida, de um maior tamanho. Julgamos depois os grandes granívoros, nos quais havia um magnífico casal de Picogordo chino, e Cardeal de topete vermelho, Virginia, Verde etc. Nos conjuntos de exóticos mutados, a medalha de ouro foi para um conjunto de bico de prata marrom escuro. E, para terminar, os pequenos granívoros australianos mutados: Gould de peito azul, peito branco etc. Diamantes "goteados" em canela e com diluição alaranjada nas zonas vermelhas. Diamante "Papagayo" em máscara amarela. Diamante de bebeyro em isabelino e Ino, Donacola de topete etc. Enfim uma variedade de belíssimos pássaros.

A nível de expectador, a gama, praticamente completa, de Australianos (Gould, Goteado, Rauficauda, Faetón, Bichenow, Baberos, Modesto ect. Boa quantidade de africanos Estrildas Granadinas, Azulitos, Ptylias, Bengalís etc.). Uma grande variedade de Diamante mandarim -uns 300 exemplares - e Isabelitas do Japão, Capuchinos, Dominós etc. Raros exemplares americanos: um pintassilgo da Venezuela, vários exemplares de pintassilgo negro da Bolívia e pintassilgo magellanicus. Uma boa variedade de frugívoros: Tangarás, Bul-Bul e belíssimos nectívoros, tanto americanos como africanos. Na fauna européia, várias mutações de Verderón, Gorrión e inclusive Jilgueros isabelinos. No setor dos psitacídeos, uma grande participação de periquitos Ondulados, de grande qualidade, em praticamente todos os tipos de cor. Também numerosa a participação de Agapornis, com os Roseicolis e suas mutações, "Finscher", "Cana" e inclusive alguns "Tarantas". Reduzido, porém variado, o grupo de psitacídeos americanos, com o predomínio dos pequenos: "Brothogeris" e similares. Abundante, como é habitual, os australianos, na sua maior parte "Euphemas" - um belíssimo exemplar de "Bourke rosa", Rosellas" e "Psephotus". Entre os afro-asiáticos, a "Cotorra de Colar" e suas mutações amarelas. E a maravilha dos diminutos "Loriculus galgulus". Em grandes viveiros, algumas Cacatuas e dois magníficos "Turacos de Hartlaub". Enfim, é difícil de descrever tanto o número quanto a beleza dos exemplares...


Quantos pássaros são criados no Brasil?

Numa pesquisa pioneira, encomendada pelo ÉFFEM PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA., está sendo realizado pela firma Empresa de Pesquisas do Mercado COLETA - São Paulo, um levantamento que abrange cinco capitais do Brasil.

A pesquisa é dirigida no sentido de se verificar o potencial do mercado de rações, calculando-se a população de pássaros mantidos em cativeiro.

Sua conclusão está prevista para o início deste mês de março, quando a firma patrocinadora obterá os dados para direcionar seu marketing. A ÉFFEM, que já produz a ração TRILL para os pássaros, está localizada em Guaíba-RS e desenvolve estudos visando a ampliação de produtos destinados às aves.


A OBJO e os critérios de julgamento

A nova diretoria da Ordem Brasileira dos Juízes de Ornitologia, empossada em 8 de dezembro último, está assim composta: Presidente: Mauro de Queiróz Garcia, Secretário: Ênio Medeiros Cunha, Tesoureiro: Paulo Pazini V. Neto. Os assessores técnicos são: Assessor de - Canários de Cor: Luiz R. M. Porto, Canários de Porte: Amadeo Sigismondi, Canários de Canto: Antonio de Barros, Periquitos: Reginaldo L. Rendeiro, Pombos: Jayme Damberg, Pássaros Indígenas e Alienígenas: Pedro S. Callado. Na mesma ocasião, a assembléia da OBJO elegeu o seu tribunal de Ética (cuja composição foi apresentada na edição p.p. desta "AO").

O Dr. Mauro Garcia informa que "de princípio é nossa pretensão unificar um pouco mais a classe de juízes que ultimamente vem sendo alvo de muitas críticas. Na assembléia de posse pedimos sugestões e críticas para desenvolvermos uma gestão - que embora pequena - seja profícua. Nossa prioridade máxima será dirigida no sentido de melhorar o nível dos julgamentos. Para isto teremos que aprimorar os conhecimentos já adquiridos através de cursos e aulas práticas, pois somente praticando mantemos nossos conhecimentos teóricos mais firmes".

O presidente da OBJO também informa sobre o desenvolvimento de um manual de julgamento: "Trata-se de um trabalho sobre critérios de julgamento de canários de cor, porte e desenho. O trabalho é da autoria do Dr. Luiz Fernando F. Beraldi em colaboração com o Dr. Paulo Pazini Neto. Vamos fazer o possível para publicar na forma de livreto de modo que os criadores também possam adquiri-lo. Com este trabalho espero que possamos satisfazer os anseios de nossa classe e também dos criadores na medida em que diminuirá as divergências existentes. Já no próximo Campeonato Brasileiro, de Vitória-ES, esperamos julgar de acordo com seus critérios".


Livre para voar

o que é o COA

Liliane Ferrez Weinberg - do Rio

O Clube de Observadores de Aves pretende reunir pessoas interessadas em observar aves em seu habitat natural; estimular uma outra forma de lazer onde todos, não importando a idade, possam participar; ensinar métodos de observar as aves, suas diferentes Ordens e Famílias e como identificá-las; ensinar suas vozes, danças nupciais, ninhos etc., enfim, um aprendizado visando aguçar a percepção da beleza de nossas aves.

O COA é um local onde troca-se informações e se adquire respostas para tantas perguntas que nos avassala.

Excursões periódicas são organizadas, de meio dia ou um dia inteiro, as localidades de vegetação bem diversificada para poder ver espécies diferentes. Estas excursões são sempre acompanhadas por um observador veterano que explica o comportamento de cada espécie e a dependência de cada integrante da cadeia biológica. Estes passeios são a espinha dorsal do clube. Neles faz-se um bom "cooper", respira-se ar puro - seja ele com cheiro salobre ou de terra molhada quando a chuva cai por sobre as estradas de barro ressequidas. Discerne-se as diferentes matas como a capoeira, mata secundária, floresta cerradão etc. Neles sente-se a aventura e vê-se a beleza de rios translúcidos (difíceis hoje em dia, mas ainda possível...). São neles que se depara uma garça delgada ou um socó-boi à beira de um alagado; ou ainda um tiê-sangue, saí- azul ou saíras de cores vivas, saltitando por entre ramagens à beira das matas.

O convívio com a natureza nos leva à filosofia do COA: a pura contemplação do que é bonito, a curtição da vida sem um objetivo concreto, como apreciar um "ballet" ou ainda ouvir o som de um "rock". E estar alerta denunciando as destruições de matas ou o uso indevido de pesticidas que acaba com os nossos ecossistemas. Temos voz ativa e devemos usá-la para a conservação da natureza que por sua vez é o habitat das nossas aves.

É preciso aprender a ver, enxergar, diferenciar, identificar, e não apenas classificar tudo na natureza de forma simplista em que só duas palavras são usadas: mato e bicho.


Pesquisa faz levantamento sobre a criação em cativeiro do pintassilgo da Venezuela.

"Ayúdame yo también soy venezolano y estoy en peligro de extinción" Cardenalito (Carduelis cucullata)

Esta súplica, impressa nos cartões de Natal do ano passado pela Federação Ornitológica da Venezuela, parece já estar sendo ouvida. Um projeto de pesquisa sobre a criação em cativeiro desse pássaro já está implantado, sendo o mesmo coordenado pelo Sr. Bryan E. Reed, da Inglaterra.

Segundo o Sr. Antonio Rivero, já decorrem 140 anos de perseguição desta espécie que ora chega a um estado crítico. No passado o pintassilgo da Venezuela normalmente nidificava três vezes ao ano, mas agora, quando pode nidificar, acontece uma só vez, em certas regiões, devido a tantas perseguições.

Numa nota explicativa, o coordenador inglês do projeto afirma: "o Pintassilgo da Venezuela, endêmico em tal país, é uma espécie em grave perigo, no limite da extinção na natureza".

A I.U.C.N. Red Data Book classifica esta espécie como uma população não determinada, mas afirma que ela encontra-se em declínio considerável e irreversível nos últimos anos.

Os motivos deste declínio são, em parte, devido à notável procura do comércio dos pássaros de gaiola, porque o pintassilgo da Venezuela se hibrida facilmente com o canário doméstico, dando vida ao apreciado "fator vermelho". Apesar de protegido por lei na sua terra de origem, persistem ainda criadouros ilegais que ameaçam de tal modo a futura sobrevivência da população remanescente.

Baseado em artigo publicado na "Avicultural Magazine" (1983, 120) de Mary Goodwing e em correspondências de muitos ornitófilos, foi decidido empreender, com início no dia 1º de janeiro deste ano, uma pesquisa sobre a atual população vivendo em estado de cativeiro. O objetivo é aquele de estimar não só o número dos exemplares criados, mas também de avaliar o bom andamento dos resultados e de recolher dados sobre técnicas adotadas pelos criadores desta espécie.


ORNITOLOGIA BRASILEIRA ENLUTADA

No último dia 26 de fevereiro a ornitologia ficou mais pobre. A morte do querido e admirado juiz CARLOS GIMENEZ, além de consternar toda a classe ornitófila, deixa marca; a perda de uma pessoa conhecida leva sempre ao desânimo e incredulidade, porque o homem não percebe, de imediato, o significado e o valor concreto, real de um acontecimento semelhante; mas o desaparecimento de um amigo esvazia improvisadamente o ânimo e a mente de pensar e de sentir... e a notícia que é "AO" apresenta com imensa consternação enche os corações de profundo pesar.

 

 

 

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