A FOTOGRAFIA DE NATUREZA

Haroldo Palo Jr. - São Carlos-SP

Atualmente, quando o mundo todo descobriu a necessidade de se preocupar e acompanhar o que acontece com o meio ambiente, a fotografia passou a ser uma ferramenta fundamental para a documentação e apresentação dos fenômenos que passaram a influir diretamente na vida de cada habitante desse planeta.

Em muitos casos, infelizmente, só a fotografia poderá preservar a imagem de determinadas espécies, que estão condenadas à extinção, devido à caça predatória, poluição ou destruição do seu hábitat. No Brasil temos o caso do Mutum-do-nordeste (Mitu mitu mitu), que se acredita já estar extinto na Natureza, restando apenas alguns exemplares em cativeiro. Uma população tão reduzida que será incapaz de se recuperar para evitar a extinção definitiva. Temos muitas aves em condições semelhantes, como é o caso dos PSITACÍDEOS; algumas espécies de araras e papagaios foram tão perseguidas para o comércio de animais vivos, que hoje são raríssimas na Natureza. Fotografá-las em liberdade tornou-se um desafio ainda maior.

Fotografar, então, elementos da Natureza, há muito deixou de ser uma atividade de lazer para se tornar, em muitos casos, uma profissão de fato. Imaginem que quiséssemos registrar em filme pelo menos uma imagem de cada ser vivo e de cada ambiente ou micro-ambiente deste planeta. O número de fotografias seria contado na casa dos milhões. Seriam necessários milhares de fotógrafos, milhares de câmeras e lentes e, principalmente, milhões de dólares. Esta é uma tarefa que ainda não foi feita e, provavelmente, nunca será pois não existe uma organização para tal. Muitos seres vivos e ambientes típicos já desapareceram e outros seguem rapidamente pelo mesmo caminho, sem terem sidos sequer fotografados.

Por esta razão, considero a fotografia de Natureza, antes de qualquer coisa, um documento. Mas, para atingir esse status, ela precisa ser bem executada e estar acompanhada de todas as informações pertinentes ao assunto fotografado, local e condições ambientais no momento da foto. Esses dados devem ser arquivados junto com a imagem para posterior consulta. Do mesmo modo que um exemplar de qualquer ser vivo depositado em um Museu científico não tem nenhum valor sem as informações do local de coleta e as observações registradas pelo coletor, a fotografia de um elemento da Natureza sem identificação e legenda também deixa de ter valor como documento.

Quando se trabalha com milhares de imagens e milhões de informações ao mesmo tempo, o melhor recurso é o computador. Atualmente, um sistema portátil, de custo bastante acessível para utilização profissional, pode armazenar qualquer tipo e quantidade de informação alfanumérica e até mesmo as próprias imagens obtidas originalmente em filme ou em vídeo.

As vantagens de se utilizar a informática para armazenamento de informação já são amplamente conhecidas mas gostaria de acrescentar mais uma, do ponto de vista do fotógrafo. Quanto menos se manusear uma fotografia, melhor para ela. O computador permite que se troque com clientes e outros usuários todas as informações preliminares, sem que se tenha que usar a fotografia para isto. Só depois de escolhidas as fotos que serão utilizadas, só elas é que sairão do arquivo. Isto aumenta sensivelmente a vida de um cromo (slide), que é muito delicado e sofre muito quando o manuseio não é cuidadoso.

Fotografias, de qualquer tipo, negativos ou positivos (cromos), devem ser arquivadas em lugar seco (umidade relativa entre 40 e 50%), com temperatura o mais constante possível (ideal seria -20<198> C) e em total escuridão. Arquivos de aço para escritório numa sala climatizada (com ar condicionado e desumidificador) chegam bem próximo da situação ideal.

Profissionalmente somos obrigados a trabalhar com cromos (filmes positivos) porque dão o melhor resultado para impressões gráficas. Eles têm, no entanto, vida mais curta do que os filmes negativos, e são mais difíceis de serem bem processados. Nossos laboratórios estão melhor preparados para atender ao público amador, que produz muito mais filmes expostos do que os poucos profissionais independentes que atuam no mercado brasileiro. Os profissionais ligados às grandes editoras, jornais e estúdios, têm seus próprios laboratórios, pois não podem depender de serviços de terceiros. Os serviços prestados pelos laboratórios brasileiros deixam muito a desejar e, na minha opinião, afetam a qualidade da fotografia em 15 a 20% somente no processamento inicial. Sem falar dos problemas de riscos e manchas provocados pelo manuseio incorreto do filme por parte do laboratorista. Deve-se, portanto, para minimizar esses efeitos danosos, procurar se entender diretamente com o responsável pelo processamento dos filmes, para desenvolver um tratamento diferenciado para seu filme. Se o laboratório não oferecer esta possibilidade, mude de laboratório!!!

Para executar boas fotografias de Natureza, recomendo utilizar filmes de baixa sensibilidade (indicado pelo ISO, antigamente ASA). Por exemplo, EKTACHROME 64 ISO ou 100 ISO para obter cromos, EKTAR 25 ISO ou 125 ISO para obter negativos coloridos ou, ainda, os filmes TMAX 100 ISO ou 400 ISO para obter negativos em preto e branco. Os filmes de alta sensibilidade, 1000 ISO, por exemplo, também produzem boas imagens, mas nunca com o mesmo contraste, mesma saturação de cores e mesma granulação, que os filmes de baixa sensibilidade. Por outro lado, os filmes de alta sensibilidade são a única solução quando as condições de iluminação são desfavoráveis ou quando o equipamento utilizado não oferece muitos recursos. É melhor tirar uma fotografia, mesmo com cores menos saturadas, contraste mais reduzido e maior granulação, do que não tirar fotografia nenhuma.

Deve-se adquirir filmes em lotes, pacotes com 20 unidades, para se trabalhar com filmes fabricados no mesmo instante, com a mesma emulsão. Depois de exposto e processado o primeiro filme pode-se ter um padrão para os outros 19 rolos. Entre a compra e o processamento, os filmes devem ser mantidos no freezer, a -20<198> C, para preservar a qualidade da emulsão. Numa geladeira ou congelador também serve. Mas jamais num ambiente onde a temperatura seja alta e oscile diariamente. Tem-se que proteger os filmes da umidade, colocando-os em sacos plásticos sem ar dentro, e deixar que aqueçam lentamente até a temperatura ambiente (mínimo 2 horas) antes de abrir a embalagem para utilizá-los.

A qualidade da fotografia depende também da qualidade do equipamento fotográfico que se utiliza. A diferença praticamente desaparece quando se comparam entre si as boas marcas como NIKON, CANON, PENTAX, OLYMPUS. Mas pode-se obter resultados ainda melhores quando se utilizam câmeras equipadas com lentes alemãs Zeiss, Leitz ou Schneider. Um equipamento profissional pode parecer caro, mas se considerarmos a durabilidade, qualidade das imagens e quantidade de fotos que podem ser produzidas, estes custos passam a justificar a compra. Para um iniciante recomendaria adquirir uma câmera com lente normal (50mm), uma lente grande-angular (24mm ou 28mm) e uma lente zoom 70-210mm (com possibilidade para macro-fotografia). Para quem já possui o equipamento básico e deseja ampliar seus recursos, recomendaria adquirir uma lente para macro-fotografia (50mm ou 55mm) com vários tubos de extensão (15mm, 25mm, 50mm), uma teleobjetiva de 300mm ou 500mm, um bom tripé (pesado e estável) e bons flashes eletrônicos (Vivitar ou Metz).

Depois de ter tudo em mãos o fotógrafo tem que desenvolver sua própria maneira de ver o mundo. Escolher com cuidado a melhor luz, o melhor ângulo e, principalmente, o melhor momento para disparar sua câmera. Esses cuidados se justificam, não porque seu equipamento seja caro, ou porque os filmes e o processamento também sejam caros, ou ainda porque os custos de viagem e o tempo investido sejam caros, mas, sim, porque uma foto mal feita não vale nada e não deve nem ser mostrada ou arquivada.

Uma foto mal feita é o desperdício total de um esforço que envolveu centenas de pessoas, desde a fabricação do plástico, suporte do filme, o emulsionamento, a confecção de embalagens, o armazenamento, o transporte, o processamento, etc.

Obter uma fotografia perfeita é como ganhar uma loteria, pois muitos fatores que interferem com a qualidade da mesma, estão fora do nosso controle. O fotógrafo tem, no entanto, obrigação de conhecer todas as etapas pelas quais o filme passa, desde a fabricação até o processamento, para pelo menos tentar entender porque não ficou como se esperava uma determinada foto. Só assim ele poderá corrigir o problema para obter uma melhor na próxima tentativa.

Um último comentário, específico para a fotografia de Natureza, diz respeito ao comportamento do fotógrafo perante ao assunto a ser documentado. Acho imprescindível que se conheça um pouco de biologia e ecologia para se tirar o máximo no momento de registrar a foto e colher as informações pertinentes à mesma. Respeitar os animais que estão servindo como modelo também é de bom alvitre. Quase sempre eles se estressam rapidamente e chegam mesmo a morrer (caso de aves) ou a se machucar seriamente quando se sentem acuados. Fotografar um animal ou planta raros e provocar sua morte é o mesmo que atuar como caçador-predador.

Gavião-preto Buteogalus urubitinga

Bem-te-vi

Jaçanã

Jacaré morto por caçadores

Coruja-buraqueira

Pica-pau-do-campo

Salto do Pântano (São Carlos-SP)

Filhotes de Jaburu no ninho

Ninho de Jaburus

Filhote de Garça-branca-grande

Cegonha Tabuiaiá

Coruja-buraqueira

Curiango

 

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