EM BUSCA DO GAVIÃO-POMBO-GRANDE

Silvana Cusatis Luçolli - Curitiba-PR

O homem, como caçador e predador, sempre foi fascinado pela agilidade e força de muitas águias, gaviões e falcões. Na verdade, as aves de rapina impressionaram muito nossos antepassados, a ponto de se tornarem importantes símbolos de adoração e religiosidade em uma série de culturas.

Enormes gaviões com olhos brilhantes e asas velozes traziam tempestades e chuvas para índios das Américas, da África e Australásia. Na Indonésia, ainda sobrevive a adoração a um Deus Hindu chamado Garuda, ao qual foram erguidos templos e estátuas que permanecem em pé nas ruínas de Angkor Wat. Garuda atualmente é representado pelo «Brahminy Kite» Haliastur indus, um grande raptor de asas avermelhadas e cabeça branca, comum na Índia e cultuado pelo Brahmas.

Raptores também formam importantes símbolos marciais e imperiais de babilônios, romanos, índios das planícies norte-americanas e aztecas de Montezuma.

Qualquer pesquisador que comece a interessar-se por aves de rapina encontrará material bibliográfico para mergulhar fundo na história de seus antepassados ou para desestimular-se com os comentários sobre as dificuldades enfrentadas no trabalho de campo.

Muitos pesquisadores são categóricos em afirmar que os estudos com raptores não são fáceis: «As aves de rapina florestais são geralmente bastante inconspícuas e muitas vezes caminhando-se um dia inteiro, lentamente, dentro de uma floresta pouco alterada, alguém pode esperar ver e identificar apenas um raptor, e raramente não mais do que em poucos segundos. A maioria dos indivíduos são vistos e identificados ao longo das estradas florestais e clareiras e não abaixo do dossel».

Quando iniciei as pesquisas bibliográficas sobre o gavião-pombo- grande Leucopternis polinota, as informações sobre hábitat tratavam a espécie como um raptor florestal que depende da existência de matas mais ou menos extensas para sobreviver.

Diante deste quadro, eu esperava encontrar o gavião-pombo-grande na borda de uma estrada ou clareira. E foi exatamente assim que aconteceu, depois de um dia inteiro de buscas...

Eram seis horas da manhã do dia 16 de julho de 1990, ainda na cama, afastei a cortina e deparei com o vidro coberto por uma espessa camada de gelo. Tirei algumas raspas e descobri que tudo lá fora tinha mudado de cor e aspecto: a grama, a cerca, os pinheiros e as casas.

No município de General Carneiro, extremo sul do Paraná, três a oito boas geadas por ano costumam produzir paisagens absolutamente diferentes em lugares que se tornaram comuns para nós. Às 7:00h na Fazenda S. Pedro, o termômetro marcava - 1° C e tentando esquecer o frio eu observava curiosa um trinca-ferro pousado numa tábua cheia de cristais de gelo, as penas estavam tão arrepiadas que era impossível distinguir a cabeça do resto do corpo. Dois toques de buzina trouxeram-me de volta à grande tarefa do dia: encontrar o gavião-pombo-grande.

Trata-se de um raptor neotropical cuja distribuição geográfica abrange o Brasil oriental e meridional, de Alagoas até o Rio Grande do Sul. No Paraguai e Argentina é conhecido como «Aguilucho Blanco» e seus registros são muito escassos, limitando-se ao extremo noroeste argentino (Missiones) e localidades paraguaias adjacentes (Alto Paraná, Iguaçu, Porto Bertoni).

Desde 1979, tanto em publicações de pesquisadores nacionais como internacionais o «status» da espécie tem sido considerado raro, ameaçado de extinção ou indeterminado. O status da maioria dos raptores florestais é completamente desconhecido e podemos apenas esperar um declínio com a destruição de seus hábitats, dizem os especialistas em falconiformes.

O gavião-pombo-grande era visto na área da Fazenda São Pedro desde 1984, mas há alguns meses estava desaparecido e eu queria sondar a possibilidade de viabilizar uma pesquisa com a espécie para dissertação de mestrado, pelo Departamento de Zoologia da UFPR.

Chimenki (o guarda-florestal) e eu, rodamos por diversas estradas da Fazenda S. Pedro que se caracteriza pela presença de reflorestamento de nativas (araucária), reflorestamentos de exóticas e remanescentes de floresta de araucárias. A pressão antrópica é bastante acentuada e evidenciada através de: área industrial para processamento da madeira, vila operária, barragens, lagos artificiais, estradas e aceiros, em 1.300 ha de terras.

A partir das 9:00 h um sol forte de inverno dissipou o nevoeiro e derreteu o gelo, um céu azul límpido mudou toda paisagem novamente. Fui então para a carroceria do Toyota, toda aberta, o que facilitava as observações. Estivemos na Fazenda Santa Cândida, com paisagens muito diferentes da anterior; um sistema agrosilvopastoril com pequenos reflorestamentos de pinus e capões de araucária. Estradas e aceiros estão presentes mas em número muito inferior à S. Pedro.

As Fazendas Santo Antonio e São João também foram visitadas, sem nenhum vestígio do gavião.

Meio-dia, jogo da Copa 90, Brasil X Costa Rica, motivados com a magra vitória brasileira reiniciamos as buscas às 14:00h. Desta vez, Áureo, o novo capataz, acompanhou-nos para fazer o reconhecimento das fronteiras das Fazendas Pizzatto. Procurei incansavelmente em todos os pinheiros e árvores altas. O horizonte tingido de diversas cores e matizes indicava que estava terminando o dia e Chimenki arriscou um último palpite com o qual concordei imediatamente: Vamos para o Lago da Reflora II! Enquanto nos aproximávamos do local, vimos dois vultos deixarem um pinheiro-do-Paraná na beira da estrada e sobrevoar em seguida o lago. Seus ventres refletiram os últimos raios alaranjados do dia. O binóculo e as características da plumagem não me deixavam mentir. Eram dois gaviões-pombos-grandes! Naquele momento acho que estava tão fascinada e impressionada como meus antepassados. Simplesmente tive a certeza que estudaria aquela espécie.

Os gaviões ficaram pousados em pinheiros diferentes, numa estreita faixa de reserva de araucárias localizada entre as margens da reflora I e II (ambas com reflorestamento de pinus com pequenas manchas de floresta nativa).

Nos outros dois dias monitorei os gaviões, com bons goles de chimarrão que me ajudaram a agüentar o frio. Só mais tarde descobri que se tratava de um casal.

Hoje, após 14 meses de pesquisa com a espécie, uma série de dados já foram coletados: identificação e mapeamento de 31 áreas freqüentadas pelo gavião-pombo-grande (7.500 ha), descrição do ninho construído na sub-copa de uma araucária de 27 metros de altura, descrição do comportamento dos pais com o filhote, ritmo de atividade nos diferentes períodos no ano, dispersão do imaturo na área, marcação das espécies vegetais para pouso preferencial, identificação de itens da dieta alimentar e estratégias de forrageamento. Foi feito também um treinamento de funcionários para identificação da espécie, palestras na Escola Integrada Cândida Pizzatto e recentemente com o apoio da Indústria Pedro N. Pizzatto, iniciamos uma campanha a nível municipal para mapear as áreas de ocorrência da espécie em General Carneiro.

Esta pesquisa, que tem sido realizada com a ajuda de muitas pessoas, visa a contribuir cientificamente para o conhecimento da bioecologia da espécie, identificando os atributos essenciais do hábitat que possam embasar estudos de manejo de populações, caso seja verificado que o gavião-pombo-grande esteja mesmo ameaçado.

Apesar de terem sido adorados por nossos ancestrais, especialistas da atualidade acreditam que o futuro dos raptores florestais é bastante negro, principalmente de florestas úmidas; das 111 espécies de Falconiformes destas florestas, aproximadamente 15 espécies são bem conhecidas e seus estudos foram feitos em hábitats marginais. Mais da metade das espécies podem ser consideradas como desconhecidas. Para a maioria delas falta-nos o conhecimento básico necessário para o manejo de seus hábitats e populações. Assim, muitas desaparecerão antes de serem conhecidas.

Atributos diferentes da impessoalidade, racionalização e forças do Ego levam pesquisadores a enfrentar as dificuldades das pesquisas de campo, para tentar entender as complexas relações que regem a vida na Terra.

Não precisamos adorar falcões de pedra nem depositar nossas preces nas asas velozes de uma águia para entendermos os mistérios entre o céu e a terra. Bastaria entender que as espécies que compartilham este planeta conosco são resultado de milhões de anos de evolução e respeitar esta longa existência é o mínimo que podemos fazer.

Fotos: Zig Koch

Filhote do gavião-pombo-grande dentro do ninho; um mês e 14 dias antes do primeiro vôo.

Casal de gavião-pombo-grande próximo ao pinheiro do ninho: atenção e cuidados com o filhote.

Área da fazenda S.Pedro mais freqüentada pelos gaviões-pombo-grande, o pinheiro do ninho aparece em primeiro plano.

AO - SERVIÇOS - LINKS