Em busca da ararinha azul de Spix

Carlos Keller - Rio de Janeiro

Ilustração do Ateliuer Etienne Demont

Este é um resumo de relatório de uma viagem a Petrolina-PE na tentativa de localização e filmagem de um suposto casal de Cyanopsitta spixii.

O original tem 25 páginas datilografadas, com minuciosa descrição da viagem e aspectos locais, tanto naturais como humanos («comércio de aves»), onde o autoe explicita todos os fatos que o fizeram chegar às conclusões abaixo.

1 - Meu papel na "expedição" foi o de mediar, juntamente c/ Felipe Machado, um contato entre comerciantes e mateiros (que predavam filhotes de Spix no passado) com o biólogo Francisco Pontual. O objetivo dessa mediação era o de que eles mostrassem à Pontual um casal de Cyanopsitta spixii que diziam ter visto na natureza, próximo da ararinha solitária de Curaçá.

Estavam todos cientes que assim que este casal fosse localizado, ele seria protegido para sempre.

2 - Infelizmente não conseguimos localizá-lo, mas, creio que esse casal existe e o fato de não o localizarmos foi apenas azar.

3 - Pretendo voltar à área na companhia de Rolf Grantsau que já concordou em ir, em fevereiro próximo, pois nessa época:

a - As araras provavelmente estarão se reproduzindo e, portanto, mais fixas em uma área, não podendo desaparecer no meio tempo da minha notificação no Rio e minha chegada na área.

b - Será mais fácil proteger-se o ninho contra roubos de filhotes.

4 - A presença de Anodorhynchus leari na área, principalmente na Serra da Borracha, pode causar alguma confusão na identificação da C. spixii, mas não acredito que isso se dê com as pessoas que me informaram sobre o casal.

5 - Tenho indícios bastante significativos da possível existência de outra população de C. spixii no Piauí (de cerca de, pelo menos, 6 indivíduos), a qual foi já vista e fotografada por pesquisador, aparentemente tido como sendo Paul Roth.

6 - É citado como fato incontestável a ligação de C. spixii com árvores de caraibeira Tabebuia caraiba que bordejam riachos sazonais na caatinga. Concordo apenas em parte:

a - Na área de Curaçá isso é certo, pois caraibeira é a única árvore da área que fornece poleiro, abrigo e ninho (não alimento)

b - Qualquer outra árvore do mesmo porte faria o mesmo papel em área similar.

c - A meu ver, C. spixii não está ligada à vegetação denominada «riacho de caraibeira» como se diz mas, sim, é menos especializada, estando ligada apenas à caatinga (nunca mata)

d - Dessa forma, caatinga com buriti, ou cerrado seco com buriti, poderão conter C. spixii (parte oeste da área).

7 - Apesar de extensas buscas feitas sem sucesso, ou indícios, no oeste da área onde foi localizado o «último indivíduo», creio que não se deve considerar conclusa essa região.

a - Todas as peles de museu, mais as observações feitas por naturalistas, são de lá e de Juazeiro.

b - Não se pode invalidar todas essas observações.

c - Ainda existe muita área inexplorada.

Obs.: Lembrem-se que A. glaucus aparentemente foi localizada este mês em área totalmente diversa do que se esperava, isto é, na Bolívia (G. Smith).

8 - Esse casal deve ser remanescente da população de Curaçá, a qual foi dizimada por captura e retirada de filhotes. Estima-se que eram mais ou menos 40 indivíduos e deles restaram 4 no local, denominado «Riacho da Melancia». Das 4 aves, 1 foi morta à tiro pelo dono da fazenda local, restando as 3 vistas por Roth; 1 ficou no local e é tida como última que agora é protegida pelo fazendeiro acima.

As duas outras «fugiram»(!) em direção da Serra da Borracha (Cidade de Barro Vermelho).

9 - O último filhote tirado na área foi o que agora se encontra em Recife, com o Sr. Maurício dos Santos. Foi retirado do ninho (que eu vi e fotografei) em fevereiro de 1988, no Riacho da Melancia.

10 - Tenho informações que mais dois filhotes foram exportados do país através de Terezina-PI, via Floriano-PI, que esses dois filhotes não saíram da zona de Curaçá, e foram capturados depois de 1988.

11 - Possuo informações que das 3 araras de Spix que eu pessoalmente vi na casa de um criador de São Paulo, uma morreu, e duas foram vendidas por ele a um intermediário, o qual as levou para Tenerife. Isso já faz alguns anos.

Muito provavelmente elas são as que hoje estão no Loro Parque.

12 - É importante que o IBAMA, mais o Comitê Pro-Spix, restrinjam totalmente futuras legalizações de C. spixii, pois comerciantes brasileiros e estrangeiros continuam a fazer ofertas na área, ainda hoje. Valores de US$ 20.000.00 por cada ave não são incomuns.

A possibilidade de legalização é a mola mestra dessa procura, e os criadouros não vigiados devidamente podem propiciar o «esquentamento» de filhotes da natureza.

13 - A primeira Spix capturada pelos comerciantes de Petrolina-PE foi em 1978 (os que contatei). A última em 1988.

Nesse intervalo cerca 25 filhotes foram vendidos.

Em 1982, 21 exemplares foram capturados sendo que 19 eram adultos e capturados com visgo por caçador desconhecido. Desses 21, 13 adultos morreram de fome e maus tratos no local, 2 filhotes foram vendidos para João Alberto Camargo Cardoso (Floriano-PI), 1 adulto morreu à caminho de São Paulo, 1 adulto se encontra c/ Nelson Kawall (fêmea) e 4 não consegui traçar o paradeiro.

Esses exemplares foram capturados por pessoa estranha aos comerciantes de Petrolina-PE, os quais dizem que não capturavam adultos.

14 - Quanto aos costumes e alimentação da C. spixii, pude apenas confirmar os trabalhos de Paul Roth.

15 - Quanto à recomendação para a manutenção de C. spixii no cativeiro, o que posso dizer é que ela deve ser tratada de maneira semelhante a psitacídeo do interior da Austrália (por ex. gênero Purpuricephalus ou Polytelis) e não como psitacídeo neotropical.

a - Tanto o comportamento como o hábitat de C. spixii são muito semelhantes às aves acima mencionadas.

b - Pouca resistência aos germes, favorecidos pela umidade, ou a fungos, é de se esperar, assim, doenças respiratórias e intestinais.

c - Pouca resistência ao frio e necessidade de espaço para o vôo.

16 - É de vital importância que se continue a procurar novos exemplares de C. spixii na natureza, principalmente em regiões ainda não exploradas e fora da área de Curaçá.

A descoberta de indivíduos longe de Curaçá, de preferência à oeste, significaria fortes indícios de uma nova população.

17 - Existe a remota possibilidade de existir uma população de C. spixii conhecida por poucos, que têm interesse em não revelar o fato para tentar «esquentar» filhotes no exterior.

O dinheiro envolvido, em termos de Brasil, é alto o suficiente para tanto. O contínuo contato com comerciantes de aves da área, talvez ajude a detectar tal fato, caso ele exista ou venha a ocorrer no futuro.

18 - A descoberta de novo exemplar, nem que seja a confirmação desse casal, poderá mudar o rumo de toda a orientação do programa de proteção à Spix na natureza, principalmente no que se refere ao pareamento do exemplar «último» selvagem com um de cativeiro.

É importante ressaltar-se o risco de se infectar o indivíduo selvagem com doenças trazidas por outro que está a longo tempo no cativeiro, por melhor quarentenado que ele seja, principalmente no que se refere a vírus. Seria muito melhor lidar-se apenas com aves selvagens.

19 - Nas regiões limítrofes com Juazeiro-BA, a vegetação foi alterada e suas caraibeiras cortadas para fornecer madeira para construção.

A partir do município de Curaçá-BA, no entanto, a vegetação está bastante bem conservada em seu estado natural e, certamente, suportaria uma população significativa de C. spixii. Ao lado da estrada que ela corta o riacho que divide os municípios Juazeiro/Curaçá, ainda se viam C. spixii há alguns anos. Naquele local está a árvore onde foram capturados os filhotes que foram apreendidos por Juan Villalba fora do Brasil e que agora estão no Zoo de S. Paulo.

Tudo isso é prova incontestável que C. spixii, pelo menos nessa região, extinguiu-se devido à captura para o comércio com avicultores, só restando apenas uma ou, quem sabe, três.

20 - O item 16 vem reforçar a atual tendência de se banir totalmente o comércio e transporte de aves selvagens em todo o mundo; medida, a meu ver, acertada e urgente.

Rio, 27 de novembro de 1991.

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