Entrevista com

ROLF GRANTSAU

Rolf Karl Heinz Grantsau nasceu em 25/03/1928 na Alemanha, na cidade de Kiel, e mora no Brasil desde 1962. Residindo em São Bernardo do Campo, SP (Rua das Macieiras, 43 - Terranova I, Cep:09820), atualmente ele dedica todo o seu tempo a elaborar seus livros, dos quais dois já estão nas livrarias. Seus desenhos científicos são cheios de detalhes e primam pelo perfeccionismo, assim como todo o seu trabalho. Cercado de muitos livros, pranchas e o material necessário para suas pesquisas, ele explicou para os leitores de AO um pouco de sua vida.

AO: Quando começou seu interesse pelas coisas da Natureza?

Sr.Rolf Grantsau: Meu pai, embora nunca tenha conhecido qualquer nome latino de aves, as conhecia muito bem; bastava, ao longe, uma cantar que ele a identificava rapidamente. Também gostava muito de outros animais e creio que através da influência dele aprendi a apreciar todo o Reino Natural. Tínhamos em um sítio uma horta e um grande pomar, onde eu coletava borboletas e criava peixes. A criação de animais silvestres lá na Alemanha é muito fácil. A qualidade da água é boa e existem casas especializadas que vendem alimento específico para cada tipo de animal, por mais exótico que seja. No Brasil muitos são obrigados a manter criações paralelas à principal para a obtenção deste.

Minha geração, no entanto, sofreu muito com a 2ª Guerra Mundial. Tinha 11 anos quando ela começou e nela perdi meu irmão mais velho, aos 12 anos perdi meu pai num acidente e as coisas ficaram difíceis. Com 16 anos já era soldado, e quando a guerra acabou, não tinha nem 18. Os meus estudos ficaram muito prejudicados e a retomada, complicada. Minha cidade natal estava arrasada, 40% das edificações, aos escombros, obrigando a população a viver precariamente. Fui trabalhar num Instituto de Zoologia, onde fiz um curso de taxidermia dermoplástica e desenho científico. A falta da conclusão do colegial impediu que eu fizesse um curso superior oficialmente. Estudei Zoologia como aluno clandestino, sem poder ser diplomado. Contei, no entanto, sempre com o apoio de superiores que me incentivavam a seguir naquilo que eu gostava. Conheci lá o Dr. H. W. Koepcke e sua mulher Maria, dois apaixonados ornitólogos como eu. Queriam ir para o Peru e propuseram minha ida para lá mais tarde, tão logo se estabelecessem na Casa Humboldt, em Lima, para trabalharmos juntos. Em 1957 casei-me com a Ilse e o nascimento da nossa filha em 58 me fez repensar minha emigração. Aceitei um convite para trabalhar num Instituto de Pesquisa de Migração de Aves. Fomos morar na Estação de Anilhamento da Ilha de Helgoland, um ponto famoso na rota migratória de aves norte-americanas, asiáticas e nórdicas em geral. Esta ilha fabulosa e rochosa emerge do Mar do Norte a 70 Km da costa da Alemanha e serve de refúgio para os ninhos de aves marinhas raras. Ficamos dois anos e meio e retomei a idéia da emigração, decidindo ir para o Brasil que, na verdade, sempre me atraia mais.

AO: Como iniciou suas atividades aqui?

Sr.Rolf Grantsau: Embora conhecesse a enorme avifauna brasileira, eram sempre os beija-flores que me atraiam mais e deixei a Alemanha em 1962 para pesquisá-los e escrever um livro sobre eles. Aqui, meu primeiro contato foi com o Departamento de Zoologia de S.Paulo no bairro de Ipiranga, onde o Dr. Paulo Vanzolini me acolheu de maneira excepcional. Ele permitiu meu acesso irrestrito à coleção científica do Museu e prontificou-se a conseguir verbas para meus projetos e viagens etc. junto à Secretaria de Amparo à Pesquisa de S. Paulo. Este tipo de relacionamento informal e aberto não existe na Alemanha.

Particulares não são recebidos em Instituições e mesmo seus membros são limitados por um Professor que determina o que fazer. Obtive também a licença de coleta científica e iniciei assim minha vida ornitológica no Brasil. Coletei beija-flores e outras aves, inclusive para o próprio museu. Passou assim uma infinidade de espécies por minhas mãos e eu adquiri conhecimentos valiosos, inclusive sobre répteis, mamíferos, anfíbios, peixes e moluscos. Procurei também o Instituto Butantã onde eu soube, através do Dr. Hoge, um belga, que não existia um livro sobre as cobras venenosas brasileiras que eu pretendia comparar para orientar-me sobre os perigos nas minhas andanças nas matas. Combinamos então fazer um livro juntos, eu entrando com os desenhos, porém o Dr. Hoge faleceu antes que pudéssemos concluir o trabalho. Recentemente refiz tudo e lancei meu livro "As Cobras Venenosas do Brasil", patrocinado pela Mercedes Benz do Brasil S.A. Naquela época ganhava a vida fazendo desenhos científicos para diversos Institutos, quando estes foram surpreendidos com os cortes de verbas para tudo, ainda mais para estrangeiros. Vi-me obrigado a procurar um emprego fixo e fui aceito pela Mercedes no Departamento de Artes Gráficas de onde saem os manuais de instrução etc. Fiquei 17 anos lá e, depois, fui para a Engenharia onde estou até hoje. Meu tempo ficou escasso e as viagens restritas ao período de férias, mas fui em frente. Nas duas expedições à Antártida com a Marinha Brasileira, este tempo não era suficiente, mas a Mercedes concedeu gentilmente a diferença. Somente em 1988 conclui meu livro, "Os Beija-Flores do Brasil", publicado também com o Apoio Cultural para o Brasil da empresa. A firma compra a primeira edição e distribui gratuitamente a clientes, escolas, universidades, institutos, bibliotecas públicas etc. A segunda é minha e vai para o mercado livre. De dois anos para cá fui totalmente liberado do meu serviço na fábrica e posso dedicar-me integralmente a meus estudos, uma regalia sem dúvida. Meu manuscrito sobre todos os Tucanos já está acabado e será publicado em breve. Bem adiantado está também um Guia da Fauna da Antártida, que parece ser o próximo, e assim tenho outros trabalhos em curso: Os Papagaios do Brasil e uma Monografia dos Beija-Flores etc.

AO: Seu trabalho se baseia mais na taxonomia?

Sr.Rolf Grantsau: Somente na Taxonomia da Zoologia Geral. Ela é a base de qualquer outra pesquisa. Justamente aqui, no Brasil, onde ainda temos grandes lacunas na sistemática das aves, poucos se preocupam com isto. Hoje a tendência é se fazerem trabalhos ecológicos e estudar-se o comportamento das aves de uma região. Ás vezes citam espécies A e espécies B, por exemplo, pois não são capazes de identificar o animal, uma triste realidade hoje. Antes de iniciar um estudo, deve-se explorar uma região devidamente, procurando identificar tudo que lá ocorre, é a base necessária. O material pesquisado tem que ser preservado em coleção como prova incontestável. Só desta forma descobrem-se novas espécies. Por outro lado, devem-se examinar peles de coleção com atenção criteriosa, pois houve casos de fraude, aves compostas por diversas espécies, cuidadosamente coladas. Em primeiro plano, temos que saber quais aves existem, para depois analisar outros fatores.

AO: Como vê as perspectivas para a ornitologia brasileira?

Sr.Rolf Grantsau: Acho que algumas coisas andam um pouco distorcidas. Existe uma supervalorização da ecologia, é modismo. Por isso, o cientista nem pode trabalhar direito, às vezes. Proíbe-se simplesmente tudo, ninguém mais pode tocar em algo. Se as coisas continuarem assim, teremos problemas no futuro. Sem coleta científica, não haverá condições para estudos. Proíbe-se até mesmo de empalhar uma ave nacional quando achada morta por acidentes numa rodovia. Aves que morrem em zoológicos são queimadas. Em contrapartida, não se dá nenhuma proteção à ave exótica. Ela não merece, por quê? Sou a favor de todo tipo de proteção, desde que racional e ampla, principalmente do hábitat natural, sem o qual nada adianta. Pequenas reservas mal vigiadas não resolverão.

Aves raras em vias de extinção que procriam bem em cativeiro não encontram mais áreas naturais para repovoá-las, lamentavelmente. Curiosamente há aves, cuja extinção definitiva é apenas uma questão de pouquíssimo tempo, que são mantidas em cativeiros isoladas com um exemplar em cada um, dá para entender? Os donos destas aves deveriam deixar de lado qualquer egoísmo pequeno e juntar as aves, na tentativa de formação de um casal, enquanto é tempo, inclusive sem disputa, onde e com quem ficariam. Lembro-me de uma ação conjunta de salvamento do Bisonte Europeu entre a Rússia e a Alemanha, em plena Guerra, evacuando os animais de uma região de batalha para outra, segura. Após a guerra, os animais foram repatriados e assim salvos da extinção. Em tempo de paz podemos e devemos fazer muito mais.

AO: Fale sobre seus desenhos.

Sr.Rolf Grantsau: Existem vários estilos de desenho naturalístico que se dividem em dois campos principais: o decorativo, sem compromisso com a fidelidade do retrato do animal ou da planta, e o científico, que é o meu, realista e sem enfeites. Infelizmente são poucos os que sabem distinguir um do outro, levando-os a equívocos na hora de ilustrar trabalhos científicos, optando pelo «mais bonito», em prejuízo de todos os que se utilizam desta pesquisa. Recomendo a todos que desenhem, pois leva a observar melhor os detalhes. Lembro-me de um fato interessante que ocorreu quando desenhei uma cobra que tinha duas escamas debaixo de sua fosseta loreal, enquanto a característica dela é de ter apenas uma. O pesquisador reclamou do desenho e, ao examinarmos o bicho, vimos que tinha realmente dois lados diferentes, o que o levou a mudar por completo sua chave de classificação. Muitos pintores encontram dificuldade em acertar as proporções e não atentam a detalhes anatômicos e morfológicos fundamentais, confundem até mesmo o calcanhar com o joelho da ave. Cada ave tem sua maneira de pousar num galho e os dedos têm que estar conforme a espécie. Ilustrações comparativas ficam melhores, e de leitura mais clara, quando os animais estão todos na mesma posição, o que tem sido meu estilo.

Fotos nunca vão poder substituir desenhos bons, pois as suas cores podem não estar muito fiéis, detalhes encobertos e apresentar reflexos indesejáveis sobres as penas metálicas.

AO: E sobre seus livros?

Sr.Rolf Grantsau: Um trabalho difícil, complexo, demorado e pouco compensador financeiramente. Tenho que superar inúmeros obstáculos, uma literatura dispersa e nem sempre ao meu alcance através das bibliotecas, sendo obrigado a compará-los com meus próprios recursos. As Editoras, escolhidas por concurso, em geral não têm experiências na elaboração de livros científicos e não conseguem captar o espírito da coisa. Correção e tradução ficam totalmente por nossa conta, senão, não sai. A distribuição não funciona bem, e as pessoas interessadas não chegam nem a saber da existência do livro, uma pena. Mas vou em frente assim mesmo, quem sabe, um dia chegaremos lá.

Aix galericulada mandarim

Cyanicterus cyanicterus  Pipira azul

Columba speciosa Pomba trocal

Rolf Grantsau

Volatinia jacarina Tiziu

Sporophila plumbea Patativa

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