Uma entrevista com

Pedro Scherer Neto

Considerado um dos mais destacados ornitólogos brasileiros da nova geração, o Dr. Pedro Scherer Neto mostra, nesta entrevista, alguns aspectos da sua vida. Com 43 anos de idade, engenheiro agrônomo de profissão, ele é hoje ornitólogo do Museu de História Natural de Curitiba (Rua Benedito Conceição, 407 83800 Curitiba- PR) e desempenha inúmeras atividades, todas ligadas à ornitologia. No final do ano passado AO acompanhou um dos seus trabalhos no Parque Estadual de Vila Velha, em Fênix-PR, onde obteve as fotos e esta entrevista.

AO:Quando começou a gostar de aves?

Pedro Scherer: Sempre gostei de aves, no início como amador, querendo ter animais em cativeiro, em gaiolas. Gostava de freqüentar aviários e quando viajava com meu pai pelo interior trazia aves para casa. Naquela época ele, médico, fazia atendimentos na região e ganhava de presente, muitas vezes como pagamento de consultas, jacus, nhambus e outras aves silvestres, quase sempre vivas, que ele levava para casa e mantinha certo tempo em cativeiro. Sempre mantendo uma certa atração pelas aves, fiz meu curso de agronomia e, depois, fiz concurso na Prefeitura Municipal de Curitiba, passei e, dois anos após, assumi a chefia do Passeio Público onde então comecei a trabalhar um pouco mais com as aves. Na ocasião tive auxílio de bastantes pessoas amigas. Em 1976 sai do Passeio Público e fui para o IAPAR (Instituto Agronômico do Paraná) que, na época, estava com todas as condições científicas do extinto Instituto de História Natural do Paraná. Comecei organizando a coleção de aves. Sob a iniciativa de Roberto Lange, das professoras Yoshito Saito e Luiza Dombrovski houve o estímulo para que eu me aperfeiçoasse na pesquisa científica. E, como autodidata, comecei a identificar aves em excursões que a Dra. Luiza fazia aos campos naturais do Paraná, à Serra do Mar etc. Enquanto coletavam o material botânico, eu observava as aves. Desta forma, como tinha interesse de saber o que via, procurei ampliar meus conhecimentos e comecei a contatar outras pessoas, como o William Belton, o Dr. Helmut Sick (já falecido), Flávio Silva, e outros, que sempre me auxiliavam. Hoje, analisando, vejo que eles me atendiam sempre bem, quando lhes dirigia perguntas, às vezes tão banais; mas, para quem não sabia quase nada, aquilo era muito importante. E, aos poucos, fui me aperfeiçoando.

AO: Como surgiu o Clube de Observadores de Aves?

Pedro Scherer: Em 1982, também com Flávio Silva, resolvemos transferir essa experiência do contato homem/ave, ou seja, a observação de aves na natureza, como fato amadorístico, como uma coisa que o homem pode aproveitar no lazer cultural, - já que a identificação de aves não é uma coisa fácil; exige uma bagagem cultural bastante grande - e, assim, criamos o Clube de Observadores de Aves no Paraná. Já havia o clube no Brasil e criamos o primeiro núcleo fora do Rio Grande do Sul. Naquela época fizemos um curso, com 18 pessoas; hoje algumas delas são importantes ornitólogos paranaenses.

Fui presidente do Clube de Observadores de Aves do Brasil durante 3 anos; naquela época ajudamos a fundar 7 núcleos: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Norte. Hoje o COA-Brasil é presidido pela dinâmica mineira Maria Inês Ferolla e possui cerca de mil sócios, tendo uma publicação, chamada CHARÃO.

AO: Atualmente em que consiste seu trabalho?

Pedro Scherer: Todo o meu grande interesse foi a identificação, o conhecimento biológico das aves e, principalmente, saber a composição faunística de ecossistemas paranaenses. Assim, iniciamos nossos trabalhos em regiões naturais do estado. Começamos pela Serra do Mar, pela Mata Atlântica, Campos, «Cerrados», Florestas com Araucária. Formamos também grupos de pessoas interessadas em pesquisas científicas. As duas primeiras unidades que fizemos foram o Parque Estadual de Vila Velha e o Parque Florestal de Caxambu; aquele onde a dominância principal é de campos naturais de capões com mata de araucária, e o de Caxambu onde o ambiente dominante é de matas alteradas com araucária e reflorestamento com matas de várzeas e banhados, capoeiras e reflorestamento também de Pinus elliotti e Araucaria angustifolia. Desse trabalho saíram duas teses de mestrado. Uma outra unidade de conservação, particular, pertencente a Companhia Paranaense de Energia Elétrica - COPEL, é a Usina Hidroelétrica de Guaicana, com mata atlântica muito bem preservada. Lá fizemos um inventário de aves muito extenso. Mais tarde trabalhamos na área de proteção ambiental de Guaraqueçaba, contribuindo para macrozoneamento turístico e faunístico dessa área.

Hoje em dia, observando esses anos de trabalho e de luta, de 1976 até agora, a minha dedicação continua sendo as espécies ameaçadas de extinção. Trabalho com um papagaio, o Amazona brasiliensis («papagaio-da-cara-roxa») desde 1982, que foi minha tese de mestrado. Consegui, nesse período, informações importantíssimas sobre a bio-ecologia e distribuição dessa espécie. Atualmente faço o estudo dessa ave em todo litoral paranaense; conto com a colaboração do ornitólogo Paulo Martus Celli que pesquisa no extremo litoral sul de São Paulo. Trabalho também com a «jacutinga» Pipile jacutinga integrando uma equipe de ornitólogos brasileiros, no Parque Carlos Botelho, em São Paulo, que procura levantar dados sobre essa espécie ameaçada.

Procurando conhecer a avifauna de ecossistemas paranaenses o que mais nos preocupava era o "cerrado"; assim, em conjunto com outras pessoas, procuramos ampliar os conhecimentos. Com Fernando Straub e Marcos Bornschein realizamos uma pesquisa, cada um colaborando muito bem, e hoje temos registros de muitas espécies importantes para o atual conhecimento sobre a avifauna do Paraná. Trabalhamos também em ilhas de vegetação com inventários qualitativos e iniciando estudo sobre a dinâmica de aves dentro dessas áreas. Particularmente nos interessa muito um parque situado no centro norte do estado que é o Parque Estadual de Vila Rica, no município de Fênix, que tem uma área de 353 hectares. Nele fizemos um inventário preliminar, onde colaboraram Luiz dos Anjos, Fernando Strauber e Marcos Bornschein, chegando ao registro de 224 espécies, um número realmente alto, embora que algumas delas não sejam residentes. Recentemente resolvemos repetir o inventário qualitativo e também estudar a parte de dinâmica de aves, através de anilhamento. Há três anos temos nos dedicado também a anilhamento em áreas isoladas, como matas e capoeiras e matas alteradas, isoladas por reflorestamento com Pinus elliotti na região de Tijucas do Sul, no sul do Paraná. Nessa área, bastante pequena, já marcamos quase mil indivíduos, a maioria passeriformes. De um ano para cá, nossa faixa de recaptura oscila entre 60 a 70%. Estes são dados importantes em relação ao uso da área e da permanência de indivíduos naquela região.

Nos interessamos muito também pelas aves marinhas. Desde 1983 trabalho na Ilha dos Currais, que é a única ilha marinha no litoral do estado. Lá estudamos colônias de reprodução de Fregata magnificens e Sula leucogaster. Já temos 4 mil aves marcadas e estamos num processo de recuperação e informações para saber da dinâmica do ninhal.

Ajudei também o projeto de pesquisas levado a cabo pela Universidade do Rio dos Sinos, chefiado pelo Prof. Martin Sander, na Ilha Elefante, na Antártica, trabalhando com petréis, pingüins e biguás. Foram quatro vezes que fomos a Antártica ajudar nesse projeto que utilizava o censo de populações e anilhamento para se saber os hábitos migratórios.

Há dois anos iniciamos o estudo de bacias hidrográficas na região metropolitana da grande Curitiba em áreas que sofreram impacto pela construção de represas. Algumas dessas áreas, muito alteradas, já possuíam inventário prévio à construção das barragens e, agora, complementamos informações e resgatamos um pouco mais da memória da fauna dessas regiões que, gradualmente serão exploradas e perdidos os espaços verdes que contêm toda bacia hidrográfica do rio Passaúna, em Curitiba. Recentemente passamos também a estudar a bacia do Rio Iraí. Ele vem da Serra do Mar, no sentido leste-oeste, passa por campos úmidos e drenagens e forma, ao longo do canal, matas ciliares. Em quatro meses de estudo já revelamos a presença de 4 espécies ameaçadas de extinção.

Em 1981 fiz a primeira relação da aves do Paraná, pesquisa bibliográfica e de museu, e minhas próprias observações e de outros colaboradores, tendo sido publicado no livro LISTA DAS AVES DO PARANÁ. Atualmente já temos uma nova listagem de aves, com uma introdução à história da ornitologia no Paraná e também com excelentes comentários sobre espécies de aves do estado. Esse trabalho deverá ser publicado em 1992.

Durante 3 anos fui presidente da Sociedade Brasileira e Ornitologia, ajudei em muitos cursos de observação de aves, formando vários núcleos de observadores de aves. Nesse período tivemos um fato importante que foi o lançamento da primeira revista científica de ornitologia brasileira, ARARAJUBA.

Enfim, acho que dedico a minha vida às aves do Brasil.

A observação atenta e silenciosa...

...o uso de binóculos para dirimir dúvidas...

...a captura de espécies...

...que são recolhidas...

...pesadas, inspecionadas...

...medidas...

...anilhadas e devolvidas à liberdade.

AO - SERVIÇOS - LINKS