Aves do Parque Nacional Marinho Fernando de Noronha

Silvana Cusatis Luçolli - Curitiba-PR

O Arquipélago de Fernando de Noronha é o topo de uma montanha submarina de origem vulcânica, cuja base está a 4.000 metros de profundidade.

A Ilha maior com 17km2 e as outras 20 ilhotas encontram-se a 360km de Natal-RN e a 545km de Recife-PE. Esta condição de isolamento geográfico de outras áreas, ao longo de milênios de anos, fez com que o Arquipélago apresentasse características bio-ecológicas singulares; espécies endêmicas e um equilíbrio característico, bastante susceptível às alterações provocadas pela ocupação humana e introdução de plantas e animais. É importante esclarecer que estas características ocorreriam em qualquer outra ilha em condições semelhantes àquelas de Fernando de Noronha.

Desde sua descoberta em 1503, por Américo Vespúcio, até setembro de 1988 quando foi decretado Parque Nacional Marinho, por motivos estratégicos e econômicos, o Arquipélago sofreu drásticas mudanças, que alteraram a flora e conseqüentemente o ambiente para as aves que freqüentavam o território. Cartas e relatos de viajantes e pesquisadores demonstram o que a necessidade de sobrevivência, a exploração e a ignorância humana podem fazer num ambiente ainda inexplorado.

No livro de d'Abbeville de 1614 sobre o Arquipélago encontra-se o seguinte parágrafo: "Encontramos..., e sobretudo grande quantidade de pássaros de diversas espécies desconhecidas, e em número infinito o que muito nos agradou por serem bons para comer e de fácil caçada, pois podiam ser mortos no vôo, ou sobre as árvores a varadas e cacetadas, e até a mão em seus ninhos. A maior parte deles põem ovos sobre ervas ou mesmo na terra, e não se retiram desses lugares, embora sejam empurrados a ponta-pés, sem dúvida com receio de não se esmagar os ovos".

"Darwin (1860) encontrou a Ilha principal bem arborizada, durante a sua breve visita de algumas horas, em 20 de fevereiro de 1892. Logo depois, uma campanha foi montada com objetivo de eliminar as árvores, para evitar a utilização delas por parte dos prisioneiros na fabricação de balsas. Dezessete anos mais tarde, quando Ridley pesquisou o arquipélago durante seis semanas as únicas árvores de grande porte se encontravam no quintal da casa do governador", cita o ornitólogo David Oren do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Hoje, o carinhoso nome de Esmeralda do Atlântico só pode ser atribuído à belíssima coloração verde esmeralda de suas águas, e não à vegetação Insular Atlântica que recobria a Ilha originalmente, pois dela só restaram 5% restritos à ponta da Sapata, que é utilizada como área de nidificação de espécies terrestres e marinhas.

O ecossistema marinho apresenta-se mais preservado, e este é um ponto bastante positivo para as aves marinhas que retiram do mar o alimento para a sobrevivência e para sustento de seus filhotes. E apesar da forte pressão antrópica sofrida nos últimos 400 anos, o Arquipélago abriga as maiores colônias de aves marinhas entre as ilhas oceânicas do Atlântico Sul Tropical, embora não possa ser comparada em número com os relatos de viajantes portugueses e pesquisadores.

Entre as aves costeiras e marinhas que residem no Arquipélago: os rabos-de-junco: o de bico amarelo Phaeton lepturus ascensionis no Brasil encontrado apenas em Fernando de Noronha e o de bico vermelho P. aethereus que nidifica também em Abrolhos (sul da Bahia) e ocorre regularmente no Pacífico, nas Antilhas e em outros mares quentes. O Morro do Pico na ilha principal é um excelente ponto para observar as manobras de vôo que essas belíssimas aves executam no ar.

Na praia do Sancho, em algumas árvores secas e altas em local quase inacessível, no início de novembro encontramos ninhos da viuvinha-preta Anous minutus, construídos com algas coletadas na superfície d'água. A viuvinha-grande Anous stolidus também é comum em Fernando de Noronha, formando importantes colônias mistas com o trinta-réis-das-rocas Sterna fuscata.

Outra espécie bastante conspícua e atrativa é a viuvinha-branca Gygis alba inteiramente branca, com olhos grandes e muito escuros e tão mansa que nos penhascos do Morro do Pico nos aproximamos tanto de um indivíduo que quase pudemos tocá-lo. Coloca com freqüência seu ovo na forquilha de um galho, ou em rochas do Morro do Pico, sem usar qualquer material.

Os atobás, chamados de mumbebo pelos habitantes locais, são outra grande atração da Ilha encontrando-se três espécies. O atobá-marrom Sula leucogaster que ao entardecer acompanha o grupo de surfistas que vão à Praia do Cachorro ou da Conceição e acabam ficando os donos do show, dando mergulhos vertiginosos e voando rápido com as asas quase esbarrando nos túneis de água formados pelas grandes ondas durante a maré alta. O atobá-de-pé-vermelho Sula sula constrói ninhos em árvores secas e altas juntamente com as viuvinhas-negras, na Praia do Sancho. O atobá-grande Sula dactylatra pode ser visto em diversos lugares do Arquipélago.

As fragatas ou catraias Fregata magnificens também fazem um bonito espetáculo na Baía de Santo Antônio, onde nos meses de reprodução os machos inflam seus papos vermelhos e acompanham os barcos de turistas que saem para conhecer as praias e ver os golfinhos rotadores Stenella longirostris.

Muitas famílias de aves migratórias também visitam o Arquipélago: Ardeidae, Procellaridae, Charadriidae e Scolopacidae. Algumas provenientes de longos percursos do Hemisfério Norte que chegam para descansar e se alimentar, sendo os maçaricos e batuíras os mais comuns, entre eles um maçarico Ártico o vira-pedras Arenaria interpress.

As jitiranas, trepadeiras daninhas que sufocam árvores e arbustos nativos, deixam várias áreas abertas no interior da Ilha, freqüentadas pela avoante Zenaida auriculata noronha (endêmica a nível de subespécie). A avoante alimentado-se de sementes de jitirana ajuda dispersá-la. Em 1988, a população estimada era de 40.000 indivíduos, considerada pequena para a espécie. O sebito Vireo gracilirostris, é um passarinho insetívoro endêmico do Arquipélago e a cocuruta Elaenia spectabilis ridleyana é endêmica a nível de subespécie. Durante a nossa visita vimos por duas vezes próximos à Vila do Trinta e Vila dos Remédios o galo-da-campina Paroaria dominicana, talvez tenha sido solto há alguns anos atrás quando o pessoal do IBDF de Pernambuco soltava aves apreendidas no continente, falsificando a fauna de Fernando de Noronha.

A avoante Zenaida auriculata noronha nidifica em áreas abertas e alteradas do Arquipélago.

O sebito Vireo gracilirostris é abundante na mata baixa da Ilha.

No Morro do Pico a viuvinha-branca Gygis alba dá seu show de beleza realizando graciosas manobras ao vento.

As fragatas vistas com freqüência no Porto da Baía de Santo Antônio.

O atobá-de-pé vermelho constrói ninhos em árvores da Praia do Sancho.

Nas árvores próximas às encostas da Praia do Sancho, as viuvinhas-negras descansam e também constroem ninhos.

O maçarico vira-pedras Arenaria interpress confunde-se com as rochas espalhadas nas praias, procuram por moluscos e pequenos crustáceos.

Do alto do Morro do Pico (321m), além da melhor visão da Ilha, um observador de aves pode entreter-se durante horas observando rabos-de-junco e viuvinhas.

No brilho do entardecer, atobás dão vôos rasantes próximos da arrebentação. No fundo o Morro Dois Irmãos na Baía dos Porcos, um dos lugares mais encantados da Ilha.

 

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