VOA PASSARINHO, VOA

Silvana Cusatis Luçolli

Num canto do barracão da marcenaria estava uma grande pilha de retalhos de madeira. Tinha pedaços de vários tamanhos e espessuras. A idéia apareceu na hora:

- Casinhas para passarinhos!

Enquanto bióloga da divisão de Ecologia e Pesquisa da Indústria Madeireira Pedro N. Pizzatto, em General Carneiro-PR, desenvolvi o "Projeto Passarinho", que consistia basicamente em treinar os filhos dos funcionários no reconhecimento das aves locais e na construção de casinhas para ninhos.

Mesmo no interior, onde as pessoas encontram-se mais próximas da natureza, em algum lugar da casa tem uma gaiola com uma ave silvestre (geralmente capturada com alçapões nas matas adjacentes). Este foi um dos motivos que me levaram a ensinar crianças de áreas rurais a construírem casinhas de madeiras para atraírem aves. A vantagem é que, além de acompanharem todas as atividades reprodutivas, as crianças podem vê-las retornar para junto delas mesmo estando em liberdade.

Conversando com a professora Irene, foi possível incluir a atividade na programação da disciplina de Ciências. Na escola, com a ajuda do marceneiro Dionisio, cada criança construiu uma casinha. O trabalho foi desenvolvido em equipe, numa atividade solidária realizada com poucos martelos e sem marteladas nos dedos. Dia 30 de outubro de 1991, as casinhas já estavam espalhadas pela vila. Orientamos quanto aos locais mais indicados para colocação das casinhas e também quanto às anotações que deveriam começar a fazer quando algum passarinho visitasse o novo lar.

Para estimulá-las ainda mais, decidi fazer um concurso de redação, com distribuição de prêmios na festa anual de encerramento das atividades. Dia 16 de dezembro recebemos todas as redações e, para nossa surpresa, das 20 casinhas 16 estavam com ninhos.

Apresentamos algumas frases das redações sobre os ninhos, escritas por estudantes na faixa etária de 9 a 11 anos:

«Outro dia eu olhei na casinha e tinha um matinho no buraquinho e os passarinhos puxavam e puxavam com o bico, era um casal de canarinho-da-terra... quando os passarinhos saiam eu colocava quirera em cima da casinha e eles vinham comer...»

(Everton Daniel Nattel - 3ª série)

«Um dia, aqui na escola, veio uma moça falar sobre pássaros e isso me tocou muito. Antes eu tacava pedras neles... eu mudei, pensei assim comigo: tenham uma casa, durmam quentinhos...»

(Márcia B. Silveira - 3ª série)

«Dia 15 de novembro de 1991, vi duas corruíras trazendo raminhos secos, pauzinhos, pedaços de fios e também penas de galinhas para casinha de madeira...»

(Elizete de Fátima Resende - 4º ano)

«E um dia entrou um canarinho na casinha, mas a corruíra continuou a ir, eu acho que ela não desistiu do ninho...»

(Alessandro Cardoso - 4º ano)

«Eu fiquei observando elas fazerem o ninho. De vez em quando uma corruíra pegava um galho muito grande e sofria para entrar na casinha. Tem dois ovos no ninho, e agora é difícil de ver a corruíra na casinha; só vejo de manhã cedo e lá pelas 7:00 da noite. Acho que ainda não descascou, tomara que descasque logo!»

(Roberson Jean - 4º ano)

O tráfico de aves, a apreensão e comércio ilegal, a caça de espécies silvestres nas unidades de conservação etc., têm dizimado diversos representantes da avifauna brasileira. Infelizmente, no Brasil, a falta de organização, treinamento e infra-estrutura dos órgãos oficiais encarregados da fiscalização da nossa fauna, tem feito com que se combata apenas o irremediável; quando milhares de animais já foram mortos.

Mudar certos comportamentos culturais de um povo implica num trabalho lento e prolongado, um programa educativo onde procura- se sobretudo causas, alternativas e medidas preventivas.

Muitas alternativas estão próximas da nossa realidade de país em desenvolvimento. Não podemos pedir às nossas crianças para que tragam um binóculo ou máquinas fotográfica para escola. Às vezes uns pregos e retalhos de madeira, com orientação de uma professora, podem transformar-se em uma alternativa viável para despertar o carinho e o respeito pelas aves, talvez o primeiro passo para uma amizade que poderá acompanhá-las por toda vida. Voa passarinho, voa!...

Elizete colocou a casinha no beiral da casa, depois de quinze dias encontrou um ninho de corruíras.

Everton fixou a casinha em uma árvore seca do quintal, divertiu- se observando um casal de canarinhos-da-terra.

Modelo de casinha utilizado no «Projeto Passarinho».

Fotos Silvana C. Luçolli

 

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