Fronteiras de Encantamento

Yoshika Oniki - Rio Claro-SP

Serra das Araras é um magnífico nome, mas não condiz com a realidade. Certamente é um paraíso para os psitacídeos com muitas espécies de periquitos e papagaios mas, as araras não são abundantes na região; na verdade são até raras. Talvez, em tempos passados, as araras ocorressem em tal número na região, que justificou o nome para definir essas serras a oeste de Cuiabá e a leste do rio Paraguai. A Estação Ecológica da Serra das Araras foi estabelecida para preservar esta bonita região de cerrado, campos e cadeias de montanhas achatadas variando de 600 a 800 m de altitude, em cujo topo ocorre uma vegetação mais baixa, entremeada de campos abertos. Os vales são recortados por pequenos rios que deságuam em outros, sendo o rio Salobra, um dos mais conhecidos, antes de se atingir o Rio Paraguai, o mais famoso da região. A vegetação que bordeja estes rios é conhecida como mata ciliar e abriga um número significante de espécies de aves que muitas vezes não se encontra nos cerrados ou nos campos.

A pequena clareira formada pela construção do laboratório e duas pequenas casas que abrigam os encarregados da estação, forma um "Shangri-La" incrustado no vale entre duas cadeias de montanhas, num local cuja beleza nos traz paz interior e uma emoção que só se iguala àquela que sentimos, quando estamos diante de magnificente e luxuriante floresta amazônica situada um pouco mais ao norte desta região.

Prenunciando o amanhecer, o sol se eleva lentamente por trás das montanhas, forte e brilhante, iluminando todo o vale. Enquanto a pesada neblina se dispersa dando lugar ao calor e a luz trazida pelos raios solares, a força da natureza envolve-nos a faz-nos agradecer os bons ventos que nos trouxeram até aqui.

Caminhando lentamente através das estreitas trilhas, desviando das folhas pendentes das palmeiras, com o ouvido aguçado aos sons da natureza, aos pios e cantos das aves e o olhar atento a qualquer movimento de uma ave que sorrateira se afasta ou que se alimenta distraída ignorando a presença de estranhos, traz-nos grandes e agradáveis surpresas.

Na clareira, os sons intermináveis de gritos das maracanãs-pequenas (Ara nobilis, Psitticidae), ou do chilrear animado dos pássaros-pretos (Gnorimopsar chopi, Icteridae), os cantos melodiosos dos sabiás (Turdus rufiventris e Turdus leucomelas, Turdidae), chama-nos a atenção para diversas figueiras que estão em frutificação, junto ao pequeno rio, atraindo assim uma variedade de aves.

Contra as montanhas achatadas de coloração verde acinzentada, sobressaem várias árvores sem folhas e cujos ramos secos abrigam entre 80 a 100 pequenas aves arredondadas quando vistas de longe. Observando, agora, com os binóculos, nota-se que se trata de rolinhas azuladas, os machos (Claravis pretiosa, Columbidae), e suas fêmeas amarronzadas, pousadas nos ramos secos aquecendo-se aos primeiros raios do sol mas que de longe lembram uma árvore de Natal (Fig.1).

Em outras árvores isoladas, quatro pares de periquitos (Aratinga aurea, Psittacidae), limpam-se uns aos outros, aos pares, com poucos e curtos sussurros como se conversassem entre si, ignorando a passagem de um gavião solitário, branco, Gampsonyx swainsonii, batendo fortemente suas asas. Este é o início de um novo dia na Serra das Araras.

Incrustado neste vale, o laboratório e a casa de hóspedes, e as duas casas que abrigam os encarregados da estação, não ocupam uma grande clareira considerando o tamanho da reserva. No passado, havia até um aeroporto e diversas famílias que ocuparam certas áreas, mas foram desalojados e transportados para outras regiões onde lhes foi dado um pedaço de terra ou pagos para a sua desocupação. Os vestígios desta ocupação e suas atividades estão ainda presentes em muitas áreas: mangueiras, marmeleiros, goiabeiras, laranjeiras, orvalheiros e genipapos.

Muitas vezes pode-se ver um pedaço de cerca de arame farpado abandonado ou um mourão, ainda em pé, no meio do cerrado. Mas, estas áreas foram re-incorporadas à estação e apenas a uma família, a do encarregado, foi permitido viver dentro da reserva. Assim, a natureza está retomando sua aparência natural e os animais foram deixados em paz ou de acordo com sua sorte.

O vale da Serra das Araras é principalmente de cerrado, áreas abertas ou arenosas com árvores de ramos retorcidos e de casca grossa. A montanha rochosa apresenta uma a três cachoeiras durante a estação chuvosa, veios d'água que correm em meio à vegetação com predominância de palmeiras babaçu.

O evento mais sensacional aconteceu em minha visita em Outubro de 1987, uma visão inesperada e excitante que poucos têm o privilégio de experimentar. O rio agora estava em seu nível mais baixo devido à prolongada estiagem, e as grandes pedras dentro da água estavam à mostra, podendo-se até caminhar sobre elas. Eu estava sentada imóvel em uma destas pedras, observando as gralhas, Cyanocorax cyanomelas alimentando filhotes no ninho em uma palmeira; o tiziu, Volatinia jacarina saltitando à beira do rio, e a juriti, Leptotila verreauxi que voou de uma árvore pendente sobre o rio. Repentinamente, sem qualquer barulho do lado oposto do rio, eu vi um jaguarundi (Felis yagouaroundi, Felidae) muito esbelto, de pelagem cinza, aveludada e bonita caminhando em minha direção. Ele não me viu ou ignorou-me pois atravessou lentamente o rio, pisando cuidadosamente sobre as pedras expostas. Apesar do excitamento de ver, pela primeira vez em minha vida, um felídeo na natureza, mantive-me imóvel até que ele desapareceu por entre a vegetação. Pouco depois, os excitados sons de cinco pipiras (Ramphocelus carbo, Thraupidae) que vieram banhar-se à beira do rio, quebrou o encanto desta visão mas sua memória permanecerá para sempre.

A extravagância de riquezas naturais como estas, e as sensações experimentadas quando em seu contato, transportam-nos à realidade de que tudo isto poderá ser destruído pelo homem e sua tecnologia, se medidas enérgicas e imediatas não forem tomadas para sua proteção. Felizmente, é encorajador que as autoridades por tais estações ecológicas e parques nacionais estejam conscientes dos desastrosos danos que o desenvolvimento sem planejamento pode causar e estejam tomando precauções no sentido de avaliar e estudar o patrimônio que lhes coube administrar.

Durante nossas viagens de pesquisas de campo a várias áreas do Estado de Mato Grosso, meu esposo e eu, testemunhamos a grande devastação que as matas estão sofrendo, infringidas principalmente em nome do desenvolvimento agrícola e pecuário. Este desenvolvimento pode ser efetuado com um planejamento ponderado de forma a não prejudicar a natureza; prejuízo este que indiretamente afetará o próprio homem. Da forma em que vem sendo efetuado, a natureza necessita de socorro. Agora!

AGRADECIMENTOS

Sou grata ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela bolsa de Desenvolvimento Regional, em 1987, que me permitiu visitar as exóticas áreas somente encontradas no Estado de Mato Grosso.

O presente trabalho foi redigido durante meu estágio no Departamento de Entomologia e Nematologia da Universidade de Flórida, Gainesville, U.S.A. com uma bolsa de pós-doutoramento do CNPq. Agradeço o auxílio logístico prestado por Jerry F. Butler e também, a Adivaldo Fonseca e Edwin O. Willis pela leitura crítica do manuscrito.

* Bolsista CNPq, Pesquisador Associado, Depto. Zoologia, UNESP, Caixa Postal 199, 13.500 Rio Claro, S.P.

Associado em Pesquisa, Department of Plant Industry, P. O. Box 1269, Gainesville, Florida 32602, U.S.A.

 

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