A Economia da Natureza: a Reciclagem de Aves Mortas

Yoshika Oniki - Rio Claro-SP

Avery at al.(1980) e Weir (1976) apresentam uma coletânea de 853 e 1042 referências bibliográficas, respectivamente, sobre mortes e acidentes de aves em torres de transmissão, prédios com paredes de vidro, mostrando como o mundo moderno afeta o mundo natural e retratando a preocupação dos biólogos. Grande número de aves em migração são mortas ao baterem em fios, redes e paredes sendo, nesse caso, a movimentação das aves, a causa mortis. A movimentação de veículos automotores, entretanto, causa grande número de atropelamentos e perdas. Anualmente, nos Estados Unidos, essas aves são coletadas e «aproveitadas» por indivíduos ou museus, com o preparo de espécimes ou esqueletos para os museus ou coleções.

É grande o número de aves e mamíferos mortos por carros em movimento, em alta velocidade. No Brasil as estatísticas para as aves mortas, tanto por redes de transmissão, prédios e construções com paredes de vidro, ou por carros, não existem devido a falta de estudos detalhados sobre o assunto. Se nos países onde a conscientização é maior, as aves e os mamíferos continuam a morrer nas cidades e estradas, o que dizer, então, em um país como o Brasil, onde a falta de educação adequada sobre as «coisas» da natureza e a completa indiferença e desrespeito aos problemas ambientais são grandes?

Nos dias atuais, à medida que o homem degrada os hábitats causando a extinção das espécies ai contidas, algumas sem mesmo terem sido estudadas e o governo impondo medidas restritivas para a coleta dos mesmos, a reciclagem de aves mortas torna-se cada vez mais imperativa. Assim, estamos iniciando, em Rio Claro, uma campanha sobre a reciclagem de aves mortas. A idéia não é nova mas não foi ainda implementada na cidade. Baseia-se na conscientização da população local para os problemas da mortandade de aves e na adesão à uma campanha para trazer para o Departamento de Zoologia da Universidade Estadual Paulista (UNESP), todo animal morto encontrado nas estradas e ruas, a fim de ser reaproveitado. No Brasil, certamente, localmente alguns já devem estar fazendo isso mas, com o crescente aumento de casas onde se comercializam aves e outros animais de estimação, essas campanhas devem ser mais abrangentes para que todos os animais mortos nessas lojas sejam reaproveitados para uso educacional em instituições ou museus, ao invés de irem para o lixo.

Uma vez no museu, ou em instituições educacionais, inúmeros são os modos de preparação e apresentação desse material para fins educativos. Tomemos, por exemplo, as aves encontradas mortas nas ruas ou em cativeiro. Podemos, nas universidades, taxidermizá-las para coleções científicas, montá-las para exibição; deixá-las sob forma de esqueleto para estudos dos ossos; deixá-las imersas em álcool (após fixação com formaldeído) para estudo posterior da pterilografia, muda, ecto e endoparasitas, dissecações etc., ou podemos preparar uma pele achatada («flat skin») onde é possível estudar a pterilografia e muda. Desses espécimes assim preservados, mesmo os mais antigos, estão, hoje, sendo utilizados para o estudo de DNA de cada espécie.

Uma ave morta trazida ao departamento deve conter no mínimo informações como o nome do coletor, o local onde foi encontrada e a data. A partir daí, o zoólogo pode, durante a taxidermia, obter uma série de informações que lhe são fornecidas pela ave: ela nos diz se era jovem ou adulta, se estava reproduzindo ou não, se era fêmea ou macho, se estava mudando a plumagem ou não, o que havia comido e se apresentava ecto e/ou endoparasitas. Dependendo do número de parasitas pode-se perceber a condição física da ave: se ela estava doente há algum tempo ou não e, muitas vezes, podemos determinar a causa mortis e, assim, um número máximo de dados deve ser obtido da ave coletada.

Portanto, a reciclagem colabora para a economia da natureza pois, mesmo depois de mortas, as aves podem servir à ciência fornecendo-nos muitas informações acerca de si mesmas e do taxon que representam.

Bibliografia

Avery, M. F., P. F. Springer & N. S. Daily. 1980. Avian mortality at man-made structures: an annotated bibliography (revised). U. S. Fish and Wildlife Service, Biological Service Progam, National Power Plant Team, FWS/OBS-80/54. 152 pp.

Weir, R. D. 1976. Annotated bibliography of bird kills at manmade obstacles: a review of the state of art and solutions. Ottawa, Ontario, Dept. Fish & Enverion., Canadian Wildl. Serv.

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Bolsista CNPq, Pesquisador Associado, Depto. Zoologia, UNESP, Caixa Postal 199, 13500-000 Rio Claro, SP.


 

Onde estão as aves japonesas?

Yoshika Oniki - Rio Claro-SP

No Japão, no verão, acordamos às 04:00 h da manhã para a tão esperada saída ao campo, na expectativa de um excitante dia de observação de aves. Depois de uma caminhada que durou quase todo o dia, e cansados de procurar com os olhos atentos a ligeiros movimentos nas moitas ou na fronde de árvores altas, e de aguçar o ouvido a qualquer som que prenuncia a presença de uma ave nova, finalmente perguntamos «onde estão as aves»?

Isto foi o que nos aconteceu em primeira visita ao Japão, um país onde 75% de sua área é coberta de montanhas e matas mas, destas últimas, as originais já cortadas e exploradas no passado.

Assim, ao folhear o guia de aves do Japão (1982) ficamos abismados pelo número de aves lá ilustradas porque em saídas para as áreas «naturais» e muitas horas no campo, poucas são as aves avistadas.

É verdade que estivemos no final do verão, entre 23 de julho e 15 de setembro, quando as aves haviam terminado a reprodução e pouco vocalizavam mas, mesmo assim, a raridade de aves foi impressionante. Em qualquer saída ao campo via-se menos de 10 espécies e uma dúzia de indivíduos: um outro chapim, corvo ou gralha, pica ou tuta, mariquita do Velho Mundo, quase nada de andorinha ou taperá. A impressão é que todo local plano está plantado com arroz ou ocupado por cidades, poucas matas remanescem e poucos passarinhos ou aves são avistados ou ouvidos.

Mesmo nas matas secundárias dos morros e serras de Hokkaido ou no parque de Monte Fuji, as aves são raras. As matas de coníferas e as serras do norte parecem tão vazias de aves quanto as matas de pinheiros e eucaliptos introduzidos no sul do Brasil. No sul do Japão, quase não existe a vegetação de folhas largas e extensas áreas são, muitas vezes, reflorestadas com fileiras de coníferas.

O Japão é um típico país de primeiro mundo que já não possui a mata original e atualmente tem vários santuários, inclusive de religiosos que protegem as aves para deleite dos visitantes e turistas. Em uma área de banhado próximo à cidade de Kushiro (Hokkaido) existe um local onde os grous japoneses, Grus japonensis podem ser avistados durante suas visitas a cada ano em números preocupantes; é uma espécie em extinção. É, também, uma ave bastante apreciada e reverenciada pelos nativos e, assim, chamada de «ave da felicidade». A preocupação pelo destino dessa espécie é tanta que existe junto ao aeroporto da cidade uma espécie de zoológico onde estão sendo criadas em cativeiro, para futura libertação na natureza.

Nós, que ainda podemos orgulhar-nos de possuir porções remanescentes de matas, devemos aprender com esses exemplos um tanto tristes de uma nação antiga e evitar que desastres maiores ocorram com nossas florestas e fauna.

Bibliografia

Wild Bird Society of Japan. 1982. A Field Guide to the Birds of Japan. Wild Bird Society of Japan, Tokio. 336 pp.

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Pesquisador Associado, Depto. Zoologia, UNESP, Caixa Postal 199, 13500-970 Rio Claro, SP

 

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