Cristóvão Colombo e o Mar de Aves

Edwin O. Willis

 

AS AVES (Maçaricos-esquimós) E CRISTÓVÃO COLOMBO

 

 

Quinhentos anos atrás, três pequenas naves vagavam pelo Atlântico incertas se descobririam o cobiçado caminho para as Índias, ou se cairiam num abismo profundo quando chegassem ao fim do mundo. A tripulação estava próxima a amotinar-se pois, com 31 dias ao mar, nada podia ser avistado que indicasse a proximidade de terra firme.

Abruptamente, a 16 de outubro (7 de outubro no calendário juliano), foi avistada uma corrente de aves que se prolongou noite a dentro e que se dirigia para o sul. As aves foram identificadas como as do campo e não oceânicas e, então, Colombo voltou suas naves para sudoeste, seguindo o curso das aves. E assim, quatro dias depois, descobriu o Novo Mundo.

Se Colombo tivesse zarpado das Ilhas Canárias dois meses antes ou uma semana depois de 15 de setembro de 1492, ele não teria avistado aquele mar de aves que, sabemos hoje, flui apenas de agosto a início de outubro. As naves poderiam ter retornado pois mesmo esse navegador experimentado havia subestimado o tamanho do mundo e a distância para as Índias.

Sem o saber, entretanto, o navegador havia descoberto um dos fenômenos mais fantásticos de todos os tempos: a migração de outono das aves praieiras por mais de 4.000 km de oceano entre o leste do Canadá e o norte da Venezuela. Ele teve a sorte adicional de que o homem não havia exterminado ainda sua espécie principal, o maçarico-esquimó Numenius borealis. Outras aves prosseguem com o «mar», principalmente os batuiruçus Pluvialis dominicana e várias outras aves praieiras e, talvez, a pequena mariquita-de-perna- clara Dendroica striata, mas o fluxo torna-se menor a cada ano. Mesmo assim, o «mar» tem atraído muitos estudos recentemente, desde os cálculos de gordura necessária à fisiologia das aves para o vôo de 4000 km, às tentativas conservacionistas em proteger os «restaurantes» locais onde as aves param para reabastecer- se em seus vôos trans-oceânicos.

Proveniente do Ártico, onde nidificam, várias espécies de batuíras e maçaricos, aos milhões ou milhares de indivíduos, atravessam o mar aberto entre o Canadá e Venezuela a cada outono, algumas prosseguindo até a Argentina. A maioria passa em agosto e setembro. Não se sabe quais são as espécies mais comuns em outubro, até que algum ornitólogo afortunado observe as aves migratórias a leste das Bahamas de um barco. Até hoje, neste quinquicentenário de Colombo , não se verificou quais foram os maçaricos observados por ele tão tarde do ano.

Podemos indicar que, entre as aves de outubro e sobre o Atlântico, as mais importantes na época provavelmente eram o maçarico-de-sobre-branco Calidris fuscicollis, o batuiruçu e o maçarico-esquimó. Agora que este último está em extinção, podemos esperar somente as primeiras duas espécies.

Todos esses maçaricos e batuíras aproveitam a comida farta a leste na descida para a América do Sul e a alimentação abundante nas pradarias do centro da América do Norte no retorno. Comendo muito e ficando gordos no leste do Canadá e nordeste dos Estados Unidos, levantam vôo em bandos em dias de vento frio do norte, saindo para o alto mar em direção sul. Armazenam gordura suficiente para voar mais de 4.400 quilômetros sobre o oceano somente com ventos favoráveis e, assim, sempre esperam dias propícios.

Colombo teve a sorte adicional que no dia anterior a 16 de outubro de 1492, os ventos no leste do Canadá sopravam do norte. Caso contrário, ele não teria encontrado ave alguma realizando a travessia. Também, ele teve muita sorte que, ao chegar próximo a seus barcos, as aves encontrando ventos contrários, viravam-se para o sudoeste para descansar nas Bahamas ou Antilhas. Se os ventos estivessem soprando do leste, como é normal nessas latitudes, elas estariam se dirigindo para sudeste e Colombo iria pensar que a terra firme estaria a sudeste, erro muito grave no Atlântico.

O maçarico-esquimó

A mais conspícua das aves de Colombo era o maçarico-esquimó, ave de 227 gramas, mas chegando a pesar 400 gramas com o acúmulo de gordura para a viagem Canadá-Venezuela. Era tão gorda e saborosa que os caçadores do século 19 mataram muitos barris delas para suprir os restaurantes, causando o presente estado de quase extinção da espécie.

Nidificava nos campos abertos do Ártico, a «tundra seca» do norte do Canadá. Os adultos abandonavam os filhotes para voar depois para o planalto de Labrador, em agosto e setembro, onde se fartavam de «fruta-de-corvo« Empetrum nigrum e ficavam com as barrigas tingidas de roxo, cor característica dessas frutas. Quando a reserva de gordura era suficiente, levantavam vôo para o Atlântico tão logo os ventos norte estivessem a favor. Alguns indivíduos desciam em Barbados e outras ilhas das Antilhas, se os ventos não estivessem favoráveis, mas a maioria prosseguia o vôo para os lhanos e savanas elevadas da Venezuela, Guiana e Roraima.

Dos lhanos, os maçaricos voavam sobre as matas da Amazônia, não sabemos exatamente como. Nos anos de 1820, de setembro a novembro, o naturalista austríaco Johann Natterer coletou alguns nos campos e lagoas de Ipanema, próximo à Sorocaba, no Estado de São Paulo. Provavelmente, estavam enchendo as suas barrigas com os cupins voando com as chuvas de primavera nas zonas queimadas dos cerrados brasileiros.

Dos cerrados, os maçaricos voavam para os pampas da Argentina, onde o naturalista William Henry Hudson (autor de «Mansões Verdes») encontrou-os engordando novamente para um vôo até os campos da Patagônia e Terra do Fogo.

Em fevereiro e março, voavam novamente para os pampas e cerrados. Devem ter chegado aos lhanos da Colômbia, onde novamente engordaram para voar - agora não mais sobre o Atlântico - mas sobre o Mar do Caribe, chegando às pradarias dos Estados Unidos, a tempo para as queimadas e insetos de primavera. Engordando, voavam para o Ártico para nidificar. Uma vez que os caçadores matavam quase todos e que as pradarias e os pampas foram cultivados, os maçaricos são raros até hoje. Há poucos anos atrás, alguns indivíduos foram avistados na Argentina e bem podiam ter sido estes.

Precisamos ficar atentos nos poucos campos restantes em São Paulo, Mato Grosso e em muitos lugares para ver se os maçaricos observados por Cristóvão Colombo ainda persistem. Os demais maçaricos e batuíras que ele avistou seguem a trilha dos Numenius borealis, em direção sul sobre o Atlântico no outono e norte sobre o Caribe na primavera.

É muito importante preservar lugares para estas aves descerem e engordar para voar milhares de quilômetros sobre as matas, montanhas e mares, para chegar no Ártico a cada verão e na Argentina a cada inverno (nosso verão). Assim, muitos pesquisadores estão anilhando as aves praieiras e indicando as praias, campos e lagoas para preservação no Brasil e ao longo de todo o percurso destas «aves de Colombo».

Uma versão mais detalhada do presente trabalho, em inglês, está no prelo na revista Natural History do American Museum of Natural History de Nova York.

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Depto. Zoologia, UNESP

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