Reminiscências

Yoshika Oniki - São Carlos-SP

Em 12 de agosto de 1991 recebi uma missiva do Dr. Octávio Secundino Jr. que me levou aos tempos em que eu, menina ainda, viajava em companhia de meu pai pelo interior de São Paulo e Paraná. Como bem descreve o Dr. Secundino, toda essa região era cheia de árvores de grande porte e o verde predominava por todos os lados. Hoje, com tantas estradas asfaltadas e as facilidades de penetração, poucos são os recantos não habitados e não utilizados pelo homem para plantação e criação.

No passado, os recursos naturais eram abundantes e explorados energeticamente por poucos favorecidos, atitude ainda defendida por homens "práticos" e, mesmo, pela maioria de nossos economistas e governantes. Os que defendiam a preservação da natureza eram considerados um tanto estranhos ou esquisitos.

Hoje temos uma vida melhor: um carro em cada garagem, mais tempo para pescar e menos rios com peixes e muitos quilômetros de asfalto que nos levam para áreas de lazer mais populosas que as que deixamos para trás. Muitos apresentam o mais alto padrão de vida, enquanto outros vizinhos sofrem as maiores das privações e misérias. Todos compartilhamos o ar poluído, bebemos da água poluída e desfrutamos dos rios mais poluidos do mundo. Alguns acham que cada vale deve ter a sua represa e que cada área de mata é um potencial para a derrubada com os tratores. Selecionamos minguadas áreas não poluidas para parques, para as pessoas das cidades desfrutarem o contato com a natureza e sujá-las com os restos de alimentos, sacos plásticos e de papel atirados depois de deleitarem-se de sua beleza; construímos estradas asfaltadas através de áreas cênicas para que os turistas absorvam sua beleza de um carro em movimento até chegaram a outro belo local no mesmo dia. Enviamos alimentos para os povos cujos ancestrais esqueceram-se de proteger o solo e as árvores nas montanhas e, assim, os vales desaparecem; não reconhecemos que estamos imitando o erro antigo.

Mesmo com a certeza de alguns sobre o contrário, o homem não vai conquistar a natureza. Somos parte dela, talvez maiores, mais barulhentos e mais destrutivos que um rato, mas sujeitos às mesmas inexoráveis leis. Quando a boa água faltar, o solo estiver estéril e perdido, o bom ar poluído, certamente pereceremos. Isto aconteceu em muitos lugares e tempos e está acontecendo aqui e agora.

Devemos olhar dentro de nossa própria comunidade cientes da mortalidade do indivíduo e da espécie. Devemos perguntar-nos onde poderemos plantar e preservar majestosas árvores, onde estão os rios ainda não poluídos que devemos salvar, quais e onde estão as belezas naturais que nos deleitaram e que gostaríamos de preservar para os nossos netos.

Hoje, os movimentos de preservação da natureza estão mais fortes e no papel, assinam-se convênios e tratados mas, na prática, continuamos a sujar os parques e os rios depois de desfrutá-los, deixando os nossos dejetos como marca registrada do homem moderno.

Assim, gostaria de compartilhar a carta do Dr. Secundino que descreve como era o interior do Estado do Paraná, há 50 anos atrás, um relato da percepção de um homem que durante sua geração viu descortinar-se diante de seus olhos a auto destruição que infligimos.

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Depto Zoologia, UNESP

Caixa Postal nº 197

13506-900 Rio Claro, SP


 

Pelos sertões do Brasil... Passado!

Octávio Secundino Jr. - Paranaguá-PR

Quando jovem, nas décadas de 40 até 1960, percorri a serviço ou excursões, todo o sul do país e, especialmente, o meu Estado. Conheci todo o interior do Paraná quando ainda a cobertura vegetal atingia 75% de matas nativas, pinheirais imensos e campos da mais linda visão. Desnecessário dizer que hoje parece um outro mundo, devastado, quase desértico, com menos de 10% de verde.

Algumas florestas existiam intactas até os anos de 1950 na região de Palmas (sudoeste do Paraná); vastas matas, a sudoeste e sul da então recém fundada Londrina, bem como todo o trajeto da então incipiente estrada de macadame, que levava de Guarapuava à Foz do Iguaçu; enfim, o manto verde e frondoso de uma natureza pouco percorrida que hoje não se vê mais.

Percorri de ponta a ponta, de barco ou a motor, os rios e os estuários dos municípios de Guaraqueçaba e Antonina, a Mata Atlântica do Paraná, que abrange desde o Superagui até a barra do Rio Gai (na divisa do Paraná com Santa Catarina). Hoje ainda, pela distância e pela pequena densidade demográfica, a Mata Atlântica do Paraná está quase inteira, não se sabe por quanto tempo ainda.

Meus olhos viram (e nunca mais outros vão ver) trechos quase selvagens de grande beleza, florestas que hoje viraram campos pelados ou lavouras "intensivas" como a subida da serra da Esperança que divide o 2º Planalto de Curitiba, com o 3º Planalto (dos Campos Gerais de Guarapuava). Por volta de 1949, lá na subida chegando ao alto, avistava-se 180 graus de mata, a maior parte de pinheiros de grande porte, na massa cinza-esverdeada cobrindo toda a região.

Em 1982 fui pela moderna rodovia asfáltica, que sobe a serra da Esperança e lá de cima enxerguei apenas tratores, lavouras, terras reviradas escuras, que foram queimadas, derrubadas e não vi uma ave, não ouvi um pássaro e não percebi o vôo de qualquer espécie, salvo os urubus, os gavionetes e as corujinhas de campo. Desapareceram as codornas, as perdizes, o inambu e o macuco, o graxaim (rosilho no verão e quase branco no inverno); também sumiram da serra os veados, os coatis, a jaguatirica, o leãozinho de cara suja, o bugio, as tirivas que gritavam acima dos pinheiros. Os guarás Chrysocyon, que deram seu nome à cidade de Guarapuava (no centro do Estado do Paraná) porque habitavam em grande quantidade, em bandos, segundo narrações dos antigos, em toda mataria e "campos sujos", desde Laranjeiras do Sul à Foz do Iguaçu; são raridade em algum fundo de fazenda e só podem ser vistos nos zoológicos.

Quanto às espécies de pena, só são vistas em gaiola ou nos parques, pois não há mais florestas, onde entre os galhos de altos pinheiros, imbúias e perobas grossas, ou ciscando em capoeira baixa, eu vi o uru, o jacu, o tucano e outros aos milhares revoando.

Nas minhas andanças daquela época, percorri várzeas e rios caudalosos, como o Piquiri, o Cachoeira (este no litoral paranaense), o Iguaçu, o Tibagi e vários do delta da cidade de Antonina e, nas margens, pude ver dezenas e dezenas de espécimes coloridos que hoje temo não podem ser vistos em liberdade.

Certa vez, no baixo Ivaí, paramos para olhar o rio encachoeirado com trechos de manso deslizamento, mata abundante nas suas margens e trechos espraiados onde armavam os parís para peixes. Garças pretas de grande envergadura subiam (e logo depois voltavam) em bandos como esquadrilhas bem adestradas, o rumor da água confundia-se com o canto de aves em quantidade, parecia o começo do mundo. Mais tarde escrevi "não me admiraria se, de repente, na curva do possante rio, surgisse na margem um ancestral das cavernas, com o tacape ou a clava de madeira, barbudo e cabeludo, aparecendo pelo lado de um menir megalítico; seria natural a visão pré-histórica daquele primitivo originário do Homo sapiens, naquele recanto encantado do rio Ivaí: ali a natureza mostrava o aspecto do despertar do mundo."

Conheci Vila Velha (o portentoso aglomerado pétreo situado a 26 Kms da cidade de Ponta Grossa) aqui no Paraná, na época em que essa "metrópole de pedra" só era alcançada pelo mato, atravessando a pé léguas e léguas ou, a cavalo, cruzando pelo trilho dos boiadeiros que traziam gado para Curitiba; recentemente voltei a Vila Velha por estrada de asfalto que passa junto às colossais pedreiras e perguntei: onde ficou a mata bruta circundante, que fazia o fundo natural da Vila Velha?

Aqui perto de Paranaguá, no balneário entre Praia de Leste e Pontal do Sul, tenho pequeno lote um pouco longe da praia, fazendo fundo para os matos da margem do rio Guaraguaçu: sempre percorro o areião em torno e encontro rastros de tatu, de veado, de cachorro do mato, que por aqui ainda existem, embora raros.

Todos os dias, voam serenos três gaviões pretos Buteogallus urubitinga que acompanho no binóculo, com seu mais de metro de envergadura, o pescoço em arco olhando as galinhas soltas que gritam e correm para se esconder quando os três vultos negros cruzam o espaço, belíssimos e ameaçadores. Entretanto, talvez desapareçam logo mais, para sempre; são espécies quase em extinção e quiçá os únicos ainda livres nesta parte do nosso litoral: o loteamento irá avançando, novos moradores, novas construções; ou esses três altaneiros se mudam ou serão liquidados pelos naturais do lugar, na proteção de suas "penosas" contra o instinto predador (e natural na sua busca de alimento para a sobrevivência): resistirão até quando?

Conheci também um pouco, rapidamente, um pedaço do cerrado e andei pelo Coxim a 100 Kms de Campo Grande; viajei pelo pampa sulino desde Passo Fundo a Riveira, vi as lebres aos saltos nas coxilhas e vi a seriema apontando a cabeça aqui e desaparecendo ali, nas macegas de Mato Grosso.

Não sou saudosista mas reconheço que quase tudo desapareceu, no que se refere à fauna alada, mas nem por isso deixei de ler e pesquisar com esperanças que as novas gerações percebam a tempo a degradação que vem sofrendo a natureza.

 

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