Helmut Sick: Meio Século de Dedicação à Ornitologia Brasileira

Marco Antonio de Andrade-Belo Horizonte-MG

Entre os cientistas brasileiros silenciosos, que trabalharam com dedicação e competência pelo desenvolvimento da zoologia nacional, na área da ornitologia profissional e da preservação da natureza, é de justiça e mérito destacar o Professor Dr. Helmut Sick.

Nascido em Leipzig, Alemanha, em 10 de janeiro de 1910, o jovem ornitólogo chegou ao Rio de Janeiro em 1939, em missão científica do Museu Zoológico de Berlim, em convênio com o Museu Nacional. Em 1937 já possuía o título de Doutor em Filosofia (Ph. D.) da Universidade de Berlim, com a tese: «A estrutura microscópica da pena da ave e a sua função». Naturalizou-se brasileiro em 1952.

Poucos sabiam sobre o nome completo deste abnegado cientista e grande estudioso das aves brasileiras: Heinrich Maximilian Friedrich Helmut Sick. Mas, no Brasil, entre os amigos, o meio acadêmico e a comunidade ornitológica mundial, era mais conhecido como Dr. Sick ou Prof. Sick.

Trabalhou arduamente em prol da ornitologia brasileira e da América Latina, durante mais de meio século. Realizou viagens de pesquisas também para a América do Norte, Rússia e vários países da Europa. Foi naturalista da Fundação Brasil Central (1946/60), onde participou da expedição Roncador-Xingu-Tapajós, com os irmãos Villas-Boas; pesquisador chefe no Museu Nacional do Rio de Janeiro, Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Presidente da Seção Brasileira do Conselho Internacional para a Preservação das Aves - CIPA, pesquisador I e bolsista do CNPq, membro do Comitê Internacional de Ornitologia, fundador do Clube de Observadores de Aves - COA e da Sociedade Brasileira de Ornitologia, era também membro de diversas entidades científicas, conservacionistas e grupos internacionais de ornitologia.

Dentre as principais organizações profissionais que era membro ativo, podemos mencionar: International Council for Bird Preservation - ICBP, American Ornithologists Union, Deutsche Ornithologen Gesellschaft, British Ornithological Union, Societé Ornithologiques Ecole Normale Supérieure Paris, Wilson Ornithological Union, ICBP Working Group on Parrots, Laboratory of Ornithology Cornell University (New York), Yamashina Institute for Ornithology (Tokyo), ICBP Working Group on Birds of Prey, Sociedade Brasileira de Zoologia - SBZ, Sociedade Brasileira de Ornitologia - SBO, Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza - FBCN, Conselho Científico da FUNATURA (Brasília), dentre outras mais.

Como experiência profissional foi Assistente do Instituto Fisiológico da "Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft" (hoje Sociedade Max Planck), em Heidelberg, Alemanha, 1937/38; Assistente do Museu Zoológico da Universidade de Berlim, no Departamento de Aves, tendo como orientador o Prof. Dr. E. Stresemann, em 1938/39; Pesquisas ornitológicas no Espírito Santo, em 1939/41, em colaboração com o Museu Nacional do Rio de Janeiro; Bolsista do CNPq desde 1956, sendo ultimamente como pesquisador/conferencista; viagens de pesquisas ornitológicas para Venezuela, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Canadá, Europa e todo o Brasil.

Infelizmente, este fabuloso homem de conhecimentos inigualáveis, da maior probidade científica, de renome internacional, veio a falecer no dia 5 de março de 1991, no Rio de Janeiro, aos 81 anos de vida ativa. Seu humanismo e simplicidade ajudou a muitos, dando oportunidade a jovens ornitólogos crescerem sob sua orientação. Possuía dezenas de alunos e orientou vários pesquisadores em teses de mestrado e doutorado no país. Durante mais de 20 anos incentivou e orientou a pesquisa ornitológica no Estado de Minas Gerais, onde tinha vários discípulos e deixou saudades.

Ao longo de sua vida publicou cerca de 170 trabalhos científicos, em vários idiomas, tendo descoberto espécies novas de aves no Brasil. Seu principal legado, fruto de seu diário de campo com mais de 8.500 páginas, foi, sem dúvida, sua famosa obra "Ornitologia Brasileira: Uma Introdução", um verdadeiro "Manual de Ornitologia Neotropical", como o próprio Prof. Sick mencionava em suas palestras.

Descobriu e descreveu algumas espécies e sub-espécies de aves novas para a ciência, com destaque para o Piprídeo Pibra vilasboasi das matas do rio Xingu, o tapaculo Scytalopus novacapitalis da região de Brasília (descoberto da década de 50) e mais recentemente uma nova sub-espécie de andorinhão-de-coleira-falha (batizado de Streptoprocne biscutata seridoensis) que habita uma furna na Serra do Bico da Arara, em Acari, região do Seridó, no Rio Grande do Norte. Descobriu o primeiro ninho do Cotingídeo Cephalopterus ornatus, uma das mais interessantes aves da Amazônia, que pode ser comparada até com a ave-do-paraíso. «Isto foi em 1949 no alto Xingu», conforme contou o Prof. Sick.

Um dos acontecimentos mais marcantes em sua vida, com relação à ornitologia, foi em 1978 quando encontrou a arara A. leari no Raso da Catarina, uma região inóspita do sertão da Bahia. «Essa foi uma coisa imensamente importante para mim, pois naquele tempo havia mais de cem anos que se procurava a leari e não se achava, pensava-se que ela estava extinta», dizia o Prof. Sick, feliz por ter encontrado esta rara arara-azul.

Descreveu um novo caboclinho que foi batizado pelo nome científico Sporophila bouvreuil crypta. Descobriu também para a ciência um periquito que é o representante setentrional de Aratinga cactorum, formando uma sub-espécie denominada A. c. paraensis. Em fevereiro de 1966 encontrou em Cambará, Rio Grande do Sul, mais um pássaro novo, batizado por Cinelodes pabsti, um parente do João-de-barro que constrói o ninho no interior do barranco, em uma galeria.

Publicou também o livro "Tucaní, entre indios y animales del Brasil" que foi editado em vários idiomas (espanhol, inglês, alemão e outras línguas). No campo da ornitologia, seus interesses principais abrangeram a morfologia, a vocalização, o comportamento e a filogenia das aves silvestres, que estudou em vários países da América do Sul e em outros continentes. Mas, seu forte mesmo era o estudo e pesquisa em campo, dando ênfase ao conhecimento das inúmeras vocalizações (canto, pios, gritos, chamados) das aves. Muitas vezes o Prof. Sick identificava as aves só pelas vozes emitidas, sem precisar vê-las. Interpretava com profundo saber e exatidão cada nota do canto, passando para o papel a fonia correta. Ao longo dos anos desenvolveu uma verdadeira sensibilidade auditiva, que muito contribuiu para seus estudos em campo.

Em Minas Gerais, o Prof. Sick esteve várias vezes contribuindo para o engrandecimento da ornitologia mineira, seja em forma de palestras, congressos ou estudos em campo. Já em 1941 realizou importante pesquisa na Serra do Caparaó, divisa de Minas com o Espírito Santo, quando ainda nem havia sido criado o Parque Nacional do Caparaó. Nesta região serrana descobriu aves interessantes como o Caprimulgus longirostris. Pesquisou também nas seguintes localidades mineiras: Serra do Cipó, Fazenda Jaguara, Lagoa Santa, Camanducaia, Parque do Rio Doce, Viçosa, Parque Estadual do Ibitipo etc. Em abril de 1985 excursionou novamente no Parque Nacional do Caparaó, no lombo de um burro, acompanhado dos ornitólogos Geraldo Mattos, Maria Ignez Ferolla e Marco A. Andrade. Seu primeiro aluno mineiro foi Geraldo Mattos, residente em Viçosa. Durante cerca de 22 anos Geraldo aprendeu muito com o seu mestre, tendo realizado várias descobertas importantes para a avifauna mineira. Estudaram juntos a distribuição e a ecologia de duas espécies crípticas: Embernagra longicauda e E. platensis, na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, publicando importante trabalho na Revista Brasileira de Biologia (vol. 45, nº3, 1985).

Em 1985, o Prof. Sick colaborou na identificação do Arapaçu-do-rio-São-Francisco (Xiphocolaptes franciscanus), que estava desaparecido desde 1926, e foi redescoberto 60 anos depois nos municípios de Januária e Itacarambi, no norte de Minas Gerais, por seus alunos: G. Mattos, Marco A. Andrade e Marcus V. Freitas. Após esta importante descoberta, o Prof. Sick passou a apoiar e orientar os estudos sobre a avifauna do alto e médio São Francisco, nas regiões norte e noroeste de Minas Gerais. Como resultados das pesquisas em campo, os ornitólogos registraram 26 novas ocorrências de aves para o Estado de Minas Gerais (ver Revista SOM nº 39, 1991).

No Parque Estadual do Ibitipoca, sul de Minas Gerais, o Prof. Sick acompanhava de perto e com entusiasmo os estudos biológicos com os andorinhões-de-coleira-falha (Streptoprocne biscutata) que anualmente migram para o parque e onde nidificam em grutas. Neste local, seus alunos G. Mattos, M. A. Andrade e M. V. Freitas, anilharam centenas de andorinhões e descobriram os ninhos, ovos e filhotes desta espécie que era pouco conhecida da ciência. Em 1987, o Prof. Sick chegou até a viajar, em nossa companhia, ao Rio Grande do Norte a fim de estudar uma enorme população de andorinhões desta espécie, na região do Seridó, em Acari, onde escalou uma serra íngreme e pedregosa para ver de perto onde os andorinhões pernoitavam. Nessa ocasião já usava um marca-passo cardíaco.

Em 1974, no Rio Grande do Sul, junto com William Belton, Flávio Silva e Walter Voss, ajudou a fundar o Clube de Observadores de Aves - COA, uma entidade destinada a reunir pessoas interessadas na observação de aves em seu ambiente natural. Desde então, tornou-se fã do COA e de suas atividades em prol da conservação e estudos das aves brasileiras. Era assíduo freqüentador das reuniões e saídas de campo do COA no Rio de Janeiro.

Mais tarde tornou-se o mais importante sócio da Sociedade Brasileira de Ornitologia - SBO, tendo contribuído com artigos científicos para a recém criada Revista Brasileira de Ornitologia "ARARAJUBA". Seus alunos seriam hoje mais de 200, considerando os sócios da SBO e outros mais pelo exterior e aqueles que têm como livro de cabeceira Ornitologia Brasileira: Uma Introdução, fonte de consulta diária, obra única, de valor inigualável, porque somente um cientista como Helmut Sick poderia escrever.

Uma de suas últimas lutas a favor de nossas aves e do país foi a escolha de uma ave como símbolo nacional: a Ararajuba (Aratinga guarouba), um raro e belo psitacídeo brasileiro. Durante anos defendeu com grande esforço e empenho (até com políticos e Presidente da República) a indicação desta ave, justificando com seriedade e simplicidade: «trata-se de uma ave com as cores da bandeira nacional - amarelo e verde - além de ser rara, ameaçada de extinção e somente ser encontrada no Brasil», assim dizia o Prof. Sick para a pessoas. Como o decreto Presidencial ainda não foi assinado, indicando a Ararajuba como ave símbolo nacional, é nosso dever fazer concretizar este projeto a favor de nossa pátria e de nossas belas aves.

Nos últimos anos de sua vida trabalhava arduamente na revisão de seu livro, não tendo tempo para ler jornais, ver televisão, passear etc. Cada minuto de sua vida era dedicado à ornitologia brasileira. Sempre havia o que acrescentar em seu diário de mais de nove mil páginas. Como dizia o Prof. Sick «atualmente estou trabalhando intensamente na nova edição de meu livro e praticamente já mexi em quase todas as páginas». Tinha um cópia xerox de todo o livro na qual ia fazendo as alterações necessárias. «Já existem tantas modificações que praticamente escrevo um outro livro», assim dizia o Prof. Sick. Além desta nova versão ampliada e revisada, seu livro também está sendo traduzido para o inglês por William Belton e em breve será publicado nos Estados Unidos.

Em março de 1987, quando terminei de escrever o manuscrito de meu livro "Aves Silvestres: Minas Gerais", convidei o Prof. Sick para fazer a apresentação dele e também a revisão da parte científica e de fotografias. Foi em 17 de abril de 1987 que o Prof. Sick escreveu a apresentação deste meu livro, lançado em junho de 1992, dizendo: «Esperamos que Aves silvestres de Minas Gerais, uma inédita e importante publicação, elaborada pelo meu diligente aluno e jovem estudioso Marco Antonio de Andrade, venha contribuir significativamente ao ensino básico sobre a avifauna notável deste Estado.» Tive também a honra de poder contar com a especial colaboração do saudoso Prof. Sick como membro do conselho científico e editorial de meu livro sobre as aves em Minas Gerais.

Ficamos devendo a Helmut Sick nosso caloroso reconhecimento por haver se dedicado com entusiasmo e seriedade ao desenvolvimento da ornitologia neotropical. Suas descobertas serão sempre lembradas pela ciência.

Seus conhecimentos, que soube transmitir com simplicidade e seriedade, estarão sempre em nossa memória. Obrigado, Prof. Sick, por tudo que fez pelas aves brasileiras, pela luta em prol da conservação da natureza, pela formação de dezenas de ornitólogos no Brasil e por ter despertado em grande número de pessoas o gosto pelo trabalho em prol da ciência ornitológica brasileira.

Principais Publicações do Prof. Helmut Sick:

1 - Ornitologia Brasileira: Uma Introdução. Brasília: Editora Universidade de Brasília, Vols. I e II, 1985.

2 - Migrações de Aves na América do Sul Continental. CEMAVE, Publ. Técnica nº 2, 1983.

3 - A Fauna do Cerrado. Arq. Zool. vol. 12, 1965.

4 - A voz como caráter taxonômico em aves. Bol. Museu Nacional, nº 294, 1979.

5 - Ein neuer Sittich aus Brasilien: Aratinga cactorum paraensis, subsp. nova. Jour. für Ornithol., 100(4), 1959.

6 - Zur Entdeckung von Pipra vilasboasi. Journal für Ornithologie 100 (4): 404-12, 1959.

7 - Hybridization in Certain Brazilian Fringillidae (Sporophila and Oryzoborus). Proc. XII Intern. Ornithol. Congr.: 161-170, 1963.

8 - Découverte de 1ª patrie de I'Ara de Lear Anodorhynchus leari. Alauda 47 (l).1979.

9 - Estudo comparativo das cerimômias pré-nupciais de Piprídeos Brasieliros. Bol. Mus. Naci., nº 213, 1959.

10 - Resultados de uma excursão ornitológica do Museu Nacional a Brasília, DF, com a descrição de um novo representante de Scytalopus. Bol. Museu Nacional, nº 185, 1958.

11 - Contribuição para o conhecimento da alimentação das aves brasileiras. Arq. Zool. 12: 95-249, 1965.

12 - Sobre a ecologia e a distribuição de duas espécies crípticas: Embernagra longicauda e E. platensis, Emberizidae, Aves. Rev. Brasil. Biol. 45(3): 201-206, 1985. (Em co-autoria com Geraldo Mattos).

13 - A proteção das aves contra a umidade. Pub. Avulsas do Mus. Nacional, 1964. 19 p.

14 - Notas sobre as aves brasileiras raras ou ameaçadas de extinção. Pub. Avulsas do Mus. Nac., nº 62, 1979. 39 p.

15 - Migrações de Aves no Brasil. Brasil Florestal, 9(39): 7-10, 1979.

16 - Anotações sobre Cucos Brasileiros (Cuculidae, Aves). Rev. Brasil. Biol. 13(2):145-168, 1953.

17 - Nova contribuição ao conhecimento de Cinclodes pabsti Sick, 1969 (Furnariidae, Aves). Rev. Bras.Biol. 33(1):109-117, 1973.

18 - Sons emitidos pelas aves independentemente do órgão vocal: caso de Conopophaga lineata. Anais Acad. Brasil. Ciências 37(1):131-140, 1965.

19 - O ninho de Panyptila caynnensis e algumas observações compilatórias sobre a ecologia de outros andorinhões brasileiros. Rev. Bras. Biol. 8(3):401-409, 1948.

21 - Notes on some Brazilian Birds. Bull. British Ornit. Club 99(4):115-120, 1979.

22 - Sobre a distribuição de algumas aves do Sudeste do Brasil segundo coleções do Museu Nacional. Bol. Mus. Nacional, sér.zool., nº 239, 1962.

23 - Anilhamento de Streptoprocne biscutata no Rio Grande do Norte. Anais do III ENAV, São Leopoldo, 1988.p.65-72 (Co-autores: M.A.Andrade, G.Mattos e M.V.Freitas).

24 - Migrações de Aves. Anais I Enc.Nacion.Anilh.Aves, Viçosa/UFV, 1985. p.27-60.

25 - Andorinhas e Andorinhões: eles se parecem, mas não são parentes. Ciência Hoje, 14(83):58-60, agosto/1992. (Co-autor: Marco A. Andrade).

______________________

Marco Antonio de Andrade é autor dos livros: Aves Silvestres: Minas Gerais e Retratos de Aves Brasileiras.

 

AO - SERVIÇOS - LINKS