Entrevista com Dra. Maria Estela Gaglianone Moro

Médica Veterinária, Mestre em Zootecnia (área de concentração Melhoramento Genético Animal), ex-bolsista CNPq e FAPESP, atualmente Pesquisadora Autônoma, a Dra. Maria Estela é hoje uma das maiores autoridades em criação em cativeiro de perdizes. Com dissertação de Mestrado sobre perdiz ou perdigão (Rhynchotus rufescens), ela cede esta entrevista, revelando aos leitores muitos aspectos importantes sobre aquele tinamídeo.

AO: Como começou a criação de perdizes pela UNESP?

Dra. Maria Estela: O criatório de perdizes (Rhynchotus rufescens), faz parte do Setor de Animais Silvestres do Departamento de Melhoramento Genético Animal da UNESP - Universidade Estadual Paulista - Campus de Jaboticabal, que além desta espécie, cria pacas, emas e veados catingueiros.

A responsável pelo criatório é a Profª. Dra. Miriam Luz Giannoni. Este criatório é científico, autorizado pelo IBAMA, desde 1988, e faz parte de um amplo projeto dentro da Universidade que é a criação do Centro de Estudos da Vida Silvestre, cuja finalidade é o estudo da fauna e flora sob todos os aspectos e formas e a formação de profissionais qualificados nesta área que é tão carente.

A criação de perdizes está sob a minha responsabilidade. Iniciamos esta criação com 13 perdizes provenientes de Viamão - RS doadas pelo Sr. Claudio Jaconi, 4 vindas do Zoológico de Curitiba e 2 de doação particular aqui da nossa região.

AO: Como é feita a criação dessa espécie?

Dra. Maria Estela: Para a criação desta espécie em cativeiro, alguns pontos devem ser considerados:

1)Animal Silvestre - Há necessidade de ter criatórios regulamentados pela portaria nº 132 (criatórios comerciais) ou pela nº 250 (criatórios científicos) do IBAMA.

2)Incubação - Pode-se optar por:

-Galinhas - inconveniente: são agitadas e podem pisar por cima dos filhotes assim que nascem,

-Próprio macho - nesta espécie quem incuba os ovos são os machos, o inconveniente é que durante o período que o macho estiver chocando, tem-se que cercá-lo para evitar que as fêmeas continuem a botar ovos no ninho e para que, quando as perdizinhas começarem a nascer, não se espalhem pelo viveiro e sejam agredidas pelas fêmeas (elas são extremamente agressivas com os filhotes, inclusive na natureza),

-Incubadeira - Esta é a melhor opção, quando se pode dispor de um modelo automático, pois, a regulagem da umidade e temperatura, a viragem dos ovos é feita sem que haja necessidade de ficar por perto controlando. Para perdiz utiliza-se temperatura de 37,5oC e 60% de umidade.

3)Cuidados sanitários - São os cuidados básicos de todo criadouro: controle parasitológico das fezes pelo menos mensalmente, limpeza diária de comedouros e bebedouros,

4)Contenção - É importante fazer uma contenção correta destas aves pois, ela possuem um impulso de vôo muito forte e, se estivermos segurando-as somente pelas pernas, o que pode acontecer é provocarmos pelo menos o deslocamento dos fêmures. A maneira correta de segurar estas aves é além de segurarmos as pernas, apoiarmos a outra mão sobre o dorso segurando as asas, sem entretanto comprimir o músculo peitoral, evitando desta maneira que batam as asas.

5)Vôo - Para evitar que as aves voem e se choquem contra a tela devemos fazer o corte das penas de uma das asas, este procedimento evitará muitos acidentes, sem que haja a necessidade de amputarmos parte da asa.

6)Voracidade - Esta espécie é bastante voraz e curiosa, tudo o que lhe parecer chamativo, que se mover ou brilhar, ela vai tentar pegar com o bico. Este hábito pode provocar acidentes como, engolir pregos, pedaços de arame, etc. que poderão ser fatais. Tem-se que procurar deixar o recinto onde estas aves vão viver, livres de objetos estranhos.

7)Canibalismo - Não é freqüente, mas ocorre. Deve-se evitar densidade alta de aves por m2, aves que porventura apresentem ferimentos, ou que por algum motivo não possam se mover.

AO: E como é feito o manejo das perdizes?

Dra. Maria Estela: Quanto aos OVOS:

-Coleta diária, limpeza com bom-bril seco

-Marcação com local de origem, peso, data postura e incubação

-Armazenagem por 07 dias em sala com temperatura controlada

-Incubação semanal, em incubadeira automática

-Ovos não eclodidos, faz-se abertura para diagnóstico: morte embrionária (fase em que ocorreu) ou infértil

FILHOTES (1º ao 21º dia)

-São pesados assim que nascem e anilhados

-Através de uma adaptação de divisões feita na gaveta da incubadeira, pode-se saber exatamente de qual ovo aquela perdizinha nasceu, anotando-se todos estes dados em fichas individuais

-Alojamento em criadeiras de madeira e tela com aquecimento.

-Recebem alimentação somente após 24-36 horas do nascimento, que é uma ração baseada em Milho, Soja, Farinha de Carne etc.

-Medicação preventiva: vacinação contra Newcastle, no 10º e 40º dia de vida.

FASE DE RECRIA (22º dia a 4,5 meses)

-Alojamento em boxes com piso de cimento, coberto com cama de feno de capim seco

-Bebedouro automático, comedouro tubular

-Nesta fase faz-se controle parasitológico das fezes mensalmente

-Corte das penas de uma das asas assim que o empenamento se completa, com a finalidade de evitar o vôo

-Alimentação é a mesma dos filhotes

 

ADULTOS E REPRODUTORES

-Convencionou-se chamar Adultos as aves que estão com peso estabelecido (em torno de 4,5 meses) e Reprodutores as aves que estão em reprodução ou que já passaram por um ciclo de postura

-Nesta fase ficam alojadas em viveiros coletivos, telados, com chão de terra, plantado com moitas de capim Brachiaria sp., comedouro tubular sob um abrigo, bebedouro tipo tanque no chão.

-A partir dos 4,5 meses até a estação de reprodução (Agosto) e durante o período de repouso reprodutivo (Abril a Agosto) estas aves recebem uma ração que chamamos pré- postura, baseada em Milho, Soja e Farelo de Trigo

-Durante a estação reprodutiva recebem a ração de postura que tem por base, Milho, Soja e Calcáreo

Com o manejo da criação baseado no descrito anteriormente nossos estudos conseguiram, apesar das dificuldades, clarear pontos importantes na criação de perdizes (Tinamiformes):

1- Criação dos filhotes somente com ração- Este é um ponto muito importante para que seja facilitada a criação, pois as poucas descrições que se tinha de criações destas aves em cativeiro eram desanimadoras quando se lia que "somente se conseguia sucesso na criação quando os filhotes eram alimentados com verdura picada, ovos cozidos picados, etc." Hoje, em nosso criatório, as perdizinhas são alimentadas somente com ração, 24-36 horas após o nascimento, e o mais importante com um baixo índice de mortalidade.

2- Curva de crescimento- Com os dados obtidos durante a criação, através de pesagem dos ovos e pesagens semanais das aves durante o seu desenvolvimento, estabelecemos uma curva de crescimento para as fêmeas e para os machos, o peso médio dos ovos que foi de 55,66g, e peso médio dos filhotes de 36,15g.

Pesos médios de Rhynchotus rufescens fêmeas e machos.

3- Sexagem desta espécie em idade precoce- Não conseguíamos acreditar nos dados da literatura que diziam: "A sexagem desta espécie só é possível durante o período reprodutivo através de reversão da cloaca e visualização do órgão copulador nos machos", ou "A sexagem só era feita através de observações durante eventuais cópulas que ocorriam", algumas citações diziam "terem sido ineficientes a sexagem por reversão de cloaca". Esses dados nos intrigaram bastante e levou-nos a aprofundar os estudos sobre o assunto. A partir de sexagem de indivíduos adultos, fomos gradativamente regredindo na idade, e hoje conseguimos sexar indivíduos com menos de 1 semana de idade, utilizando somente os dedos para fazer a reversão da cloaca e exposição do órgão copulador (nesta idade é menor que 2mm). Foi preciso treino e paciência, mas nosso êxito está em torno de 99% de sucesso nas sexagens feitas até o momento.

Cloaca revertida de um macho de Rhynchotus rufescens. A seta mostra o órgão copulador.

4- Estabelecimento dos valores hematimétricos desta espécie nas diferentes fases do crescimento.

QUADRO 6.Valores do quadro hematológico da Rhynchotus rufescens em diferentes fases do seu desenvolvimento.

 

5-Descrição do cariótipo da espécie

6- Além destes dados mencionados anteriormente, a criação desta espécie nos deu experiência e prática de manejo em cativeiro com estas aves.

AO: Como vê as perspectivas para esse seu estudo?

Dra. Maria Estela: Todos estes dados, embora comprovados, são considerados como preliminares, pois na época não dispúnhamos de instalações para podermos alojar um número maior de aves. Existem muitas perguntas que ainda não podemos responder pois, diversos estudos ainda têm que ser conduzidos para que possamos elucidar estes pontos e darmos respostas corretas e conclusivas.

Por exemplo:

-Com relação aos estudos nutricionais, poderiam nos perguntar se a alimentação que estamos fornecendo aos animais está correta, se o nível de energia ou proteína poderia ser maior ou menor? Infelizmente não saberíamos responder porque até o presente ainda não conseguimos instalações adequadas e número suficiente de animais para que pudéssemos fazer este tipo de investigação. Uma das nossas metas para este próximo ano é esta, só nos falta apoio financeiro para que possamos realizá-la.

-Outro ponto importante é quanto ao comportamento imunitário destas aves frente a diferentes agentes patógenos como vírus da doença de Newcastle, Coriza, DCR, entre outros. Precisamos esclarecer a sua susceptibilidade a estes agentes para que possamos estabelecer medidas profiláticas adequadas para as criações de acordo com a real necessidade. Estes experimentos são caros pois necessitam de locais adequados, para que não ocorra propagação da doença em questão. E mais uma vez, esbarramos nas limitações de verbas para a pesquisa.

-Existem outras perguntas que precisamos responder como: proporção ideal de machos/fêmeas por viveiros, lotação, granulação da ração, custos de produção, etc. Que com muito esforço, dedicação e pouco dinheiro vamos muito lentamente conseguindo responder.

 

AO - SERVIÇOS - LINKS