Rumo ao Ártico

Silvana Cusatis Luçolli - Bremen - Alemanha

Poster de divulgação da WWF Alemã mostrando as rotas de migração do sul da África para Europa e Península Taymir no Ártico. São elas o ganso Branta (Branta berncicla), o ganso Barnacle (Branta leucopsis), o maçarico-branco (Calidris alba), o maçarico-ruivo (Calidris canutus), a batuíra-cinzenta (Pluvialis squatarola) e o fuseto (Limosa lapponica).

 

Adin, deva, tri, chietiri, piati... Oleg, o nosso chefe, como um paciente professor, tentava ensinar-me a contar em russo. Éramos oito: tri (3) suecos, tri (3) russos, adin (1) alemão, e adin (1) brasileira. Tínhamos nossos olhos irritados do ar esfumaçado produzido por um fogão à lenha. O rádio estava ligado o dia todo para nos distrair, mas aquele pequeno abrigo de madeira, começava a nos fazer sentir como pássaros engaiolados. Lá fora a natureza nos pregava uma peça: Uma verdadeira tempestade de neve em pleno verão siberiano. Nenhuma ave no céu, os ventos ameaçadores que sopravam na tundra não permitiriam.

Sibéria? Aves? O que é que esse time internacional de malucos estava fazendo lá? Por mais absurdo que possa parecer estávamos lá para acompanhar a estação reprodutiva de aves migratórias!

Ao contrário do que se possa imaginar existem uma série de boas razões para que as aves se reproduzam na tundra siberiana. No verão, as temperaturas podem ultrapassar os 20°C (1990) e toda aquela inospitalidade dos meses de inverno desaparece. Os longos dias polares fazem a vida explodir por toda a parte. A disponibilidade de alimento é grande e não existem variações de marés, para atrapalhar as aves limícolas. A competição com outras espécies e o número de predadores é bem menor que nas áreas tropicais. Então, é possível criar mais filhotes em menos tempo. Eles também emplumam mais rápido, regressando com os adultos para o sul.

Assim, todos os anos milhares de aves migratórias aventuram-se numa veloz jornada até as longínquas latitudes árticas. Elas passam por vários países fazendo uma série de «vôos de conexão» onde descansam e acumulam gordura; o combustível para suas longas viagens.

Nas últimas décadas as pesquisas ornitológicas têm demonstrado que só existe um caminho para que elas continuem cruzando os céus: a cooperação política internacional. Só assim será possível proteger as áreas naturais ao longo de toda rota migratória. Reconhecendo essa condição, o Prof. Euvegeny Syroechkovski da Academia Russa de Ciências, há quatro anos organiza a Expedição Internacional Taymir-Sibéria-Ártico, reunindo pesquisadores, principalmente, daqueles Países que integram as rotas de migração das aves que se reproduzem na tundra siberiana. Ele quer compilar todo tipo de informações científicas sobre o assunto e unir a comunidade ornitológica para preparar um projeto demonstrando o interesse internacional na proteção da área, pressionando politicamente seu país.

Diversas áreas da Península Taymir e uma série de pequenas ilhas costeiras na Sibéria são o palco de reprodução de espécies de gansos selvagens, maçaricos, batuíras e fuselos que realizam uma das mais extraordinárias rotas migratórias da Terra. Eles deixam o sul da África voam através do Leste Atlântico até atingirem a costa de diversos países europeus, tendo como destino final as distantes planícies da tundra siberiana. Lá, nos confins do fim do mundo, nas primeiras semanas de junho iniciam seus cortejos de acasalamento.

Como muitos outros em nosso Planeta, a tundra é mais um dos paraísos alados que está ameaçado. O Dr. Peter Prokosch, ativo pesquisador da WWF Alemã (Wildlife World Fund), que tem investido altas quantias para sustentar projetos de proteção ao longo de toda rota migratória comenta: 1) em 1990 a ex-União Soviética abriu uma passagem ao longo da costa siberiana para tráfego marítimo internacional. Atualmente o quebrador-de-gelo nuclear "Taymir" está estabelecendo uma rota cruzando o Pólo Norte. Os transportes de cargas perigosas, bem como o estabelecimento de portos e ancoradouros são óbvios; 2) a existência de pequenos povoados (Dickson, Chatanga, Cheljuskin) demonstram problemas imensuráveis com o lixo; 3) muitos minerais valiosos têm sido descobertos na Península Taymir e a exploração econômica é apenas uma questão de tempo; 4) a caça ilegal de gansos migratórios e a venda de licenças frias para caçar ursos polares ameaçam a vida selvagem da tundra.

Como ornitóloga participei da Expedição Internacional de 1992 e no início de junho iniciei meus vôos rumo ao Ártico: Curitiba - São Paulo - Rio de Janeiro - Moscou - Norilski - Dickson e a Ilha de Sibirjikova (74°lat.N e 80° long. W).

A vida na estação de campo

Pesquisadores russos, suecos, alemães, holandeses, ucranianos e franceses estavam distribuídos em 5 estações localizadas entre os deltas de Taymir e Jenissei. A estação de Sibirjikova, onde fiquei alojada, era um pequeno abrigo de madeira nas praias árticas. Tinha quatro paredes e meia e era regido pela simplicidade. Ele supria todas as nossas necessidades básicas sem a tradicional "high-tec" dos tempos atuais.

Nossos únicos vizinhos moravam a 5 Km em cabanas cônicas de pele, usavam trenós puxados por renas, comiam animais selvagens e não acreditavam em Papai Noel. Eram os Nenets; verdadeiros eurasianos, nativos daquela região do ártico.

O trabalho de campo

Gansos, maçaricos, batuíras e vira-pedras entre outros migrantes começaram a chegar na Ilha no dia 6 de junho procurando por áreas livres da neve para se alimentarem e marcarem seus territórios reprodutivos. Contudo, este ano eles também foram surpreendidos pelas marcas que o inverno rigoroso tinha deixado. A tundra mesmo no inicio de verão ainda era um grande deserto gelado. As temperaturas que deveriam ser positivas, continuavam entre -7 e -2 °C. O tapete colorido de liquens e musgos continuava adormecido debaixo daquela camada branca de neve e gelo.

Essas condições dificultaram barbaramente os trabalhos de campo. Nossas pernas afundavam na neve, era difícil carregar e instalar as armadilhas para captura de aves.

Na primeira semana o trabalho, coordenado pela equipe sueca, consistia em contagens de bandos utilizando telescópios e binóculo.

Os objetivos principais da pesquisa eram: verificar a data de chegada das espécies, o período da estação reprodutiva e reconhecer a Ilha como área de reprodução e/ou descanso e alimentação para aves migrantes. Os pesquisadores suecos tinham particular interesse nas aves que passavam parte de suas vidas na Suécia.

Os picos de migração deram-se nos dias 14 e 15 de junho, quando bandos de até 2.000 gansos Branta (Branta bernicla) entre outros migrantes africanos escureciam os horizontes da Ilha.

Embora lentas, as transformações na tundra eram perceptíveis; surgiam córregos e pequenas piscinas por toda a parte. Faralopos e belíssimos patos selvagens alimentavam-se nas lâminas d'água espelhando o colorido exótico das plumagens de acasalamento.

Caminhávamos diariamente dezenas de quilômetros naquele mundo plano procurando por ninhos, mas sem muito sucesso. Como em 1989, o ano de 1992 também não foi dos melhores e muitas espécies não se reproduziram.

A lista de aves para a Ilha de Sibirjikova no ano de 1992 é a seguinte:

Nome das espécies................Data de chegada

Larus argentatus................6.de junho

Plectophenax nivalis............6 de junho

Stercorarius pomarinus..........6 de junho

Stercorarius longicaudus........6 de junho

Lagopus mutus...................6 de junho

Nyctea scandinacea..............6 de junho

Larus hyperboreus...............7 de junho

Clangula hyemalis...............8 de junho

Polysticta stelleri.............8 de junho

Calidris alpina.................8 de junho

Sterna paradisea................8 de junho

Anser albifrons.................8 de junho

Charadrius hiaticula............9 de junho

Calidris maritima...............9 de junho

Arenaria interpress.............9 de junho

Eremophila alpestris............9 de junho

Calidris canutus...............10 de junho

Emberiza pusilla...............10 de junho

Gavia stellata.................13 de junho

Branta bernicla................13 de junho

Calidris minuta................13 de junho

Somateria spectabilis..........14 de junho

Pluvialis squatarola.......n...14 de junho

Buteo lagopus..................14 de junho

Pluvialis fulva................14 de junho

Calidris ferruginea............14 de junho

Stercorarius parasiticus.......14 de junho

Calidris temmincki.............16 de junho

Calidris alba..................16 de junho

Limosa lapponica...............16 de junho

Hirundo rustica................16 de junho

Branta ruficollis..............17 de junho

Phalaropus fulicarius..........17 de junho

Motacilla alba.................17 de junho

Philomachus pugnax.............18 de junho

Oenanthe oenanthe..............20 de junho

Phylloscopus trochilus.........20 de junho

Luscinia svecica...............20 de junho

Eudromias morinellus...........23 de junho

Falco peregrinus...............23 de junho

Gavia artica...................23 de junho

Fringilla montifringilla.......24 de junho

Emberiza rustica...............25 de junho

Phalaropus lobatus.............25 de junho

Corvus cornix..................27 de junho

Falco columbarius..............27 de junho

Carduelis hanemani.............27 de junho

Motacicla citreola.............28 de junho

Foi realizada com a participação dos seguintes ornitólogos Oleg Chernikov, Ake Lindstrvm, Fredrick Hass, Peter Frodin, Romain Julliard, Anne Caroline Prevot e da presente autora.

Dia 3 de julho o helicóptero veio nos buscar, porque todos os pesquisadores das outras estações, também decidiram cancelar a Expedição.

Os ventos que enfrentamos durante o trabalho de campo tinham varrido boa parte da neve. Até flores começavam a desabrochar tingindo com tons vibrantes a monotonia das planícies. Mas, já era muito tarde para que as aves tivessem o sucesso esperado.

Pode-se dizer que um ornitólogo sente-se em casa quando em qualquer lugar da Terra observa aves que já viu antes. Andando na tundra siberiana a 15.000 Km de casa eu observava espécies que ocorrem nas praias do Parque Nacional da Lagoa do Peixe no Rio Grande do Sul: a batuíra-cinzenta Pluvialis squatarola, o vira- pedras-ferrugem Arenaria interpress, o maçarico-branco Calidris alba e o maçarico-ruivo Calidris canutus. No Brasil, elas são visitantes-norte migrantes do Alasca e América do Norte. Em 1991, através de esforços de pesquisadores brasileiros, do Centro de Migração e Estudos de Aves (CEMAVE) e da comunidade científica internacional ele foi incluído na Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas. A proteção de seus hábitats é de fundamental importância para preservação de aves Neoarticas e Neotropicais.

Agora é a vez de proteger a tundra. Em 1993, será apresentado ao governo russo o projeto de criação da "Great Artic Reserve" (Grande Reserva do Ártico) com 5.000.000 ha, incluindo hábitats de vital importância para aves, mamíferos marinhos, salmões, ursos polares, raposas do ártico, lobos, lebres, lemingues e a maior população de renas selvagens do mundo. A Ilha de Sibirjikova está incluída no projeto.

Na memória voltei com a idéia de que tal como os desertos ou as florestas tropicais a tundra é um mundo por si mesma. Ali vivem animais e plantas que não ocorrem em nenhum outro lugar do nosso Planeta. No coração, voltei com o sonho de confraternização entre os povos dos Hemisférios Norte e Sul, pois só com a cooperação total entre eles será possível proteger os ecossistemas da Terra.

As boas experiências da vida são sempre conspirações de pessoas amigas. Assim, não posso deixar de agradecer a Luzimara Brandt da Brandt Meio Ambiente de Minas Gerais pelos contatos com a Academia Russa de Ciências e com o Centro Federal de Ecologia da Paisagem em Bonn os quais permitiram minha participação na Expedição Ártica Internacional, À Fundação O Boticário de Proteção À Natureza que gentilmente forneceu o suporte financeiro para o transporte aéreo, ao fotógrafo Zig Koch pelo carinho, apoio, torcida e lentes Nikon, Antonio Cavalcanti e Teresa Koch pelo estímulo e máquina fotográfica e ao amigo Ronaldo Franzen Júnior pelo "sleeping-bag" que aqueceu as minhas noites siberianas.

Meus primeiros dias na tundra siberiana. No fundo, o abrigo russo.

O tapete de líquens e musgos começa a respirar novamente. Peles e chifres de renas espalhados na tundra depois da estação de caça.

O trenós de Nenets e o helicóptero que nos levou até ao acampamento deles.

Fredrick Hass, ornitólogo sueco, segurando um Calidris minuta.

(Fotos: Peter Prokosh 5-9)

A batuíra-cinzenta Pluvialis squatarola espécie que também frequenta a Lagoa do Peixe.

Captura de 300 gansos Branta bernicla em 1989 no delta de Taymira. Muitos deles foram observados depois no oeste europeu.

O vira-pedras ferrugem Arenaria interpress que frequenta as praias do Parque Nacional da Lagoa do Peixe (RS).

O «Dotterel Eurasiano» Eudromias morinellus.

Um ninho da coruja-das-neves Nyctea scandinacea.

Fotos: Zig Koch

 

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