Aves da Floresta Atlântica Paranaense

Com o livro PANTANAL, a EDIBRAN (Editora Brasil Natureza Ltda - Rua Costa Rica, 63 - 82510-180 Curitiba-PR; fone [041] 257-6711) proporcionou aos amantes do que é belo uma obra maravilhosa. Com 200 fotos coloridas, em 200 páginas de papel «couché» 150, no formato 21 x 27 cm e encadernação de luxo o livro deu ênfase às aves aquáticas do Pantanal, nas suas 2 edições: português e inglês.

Impulsionada pelo sucesso daquela obra, a EDIBRAN já anuncia para este mês de fevereiro o MATA ATLÂNTICA. Com 160 fotos de Carlos Ravazzani, Hilário Wiederkehr Filho, José Paulo Fagnani, Carlos Renato Fernandes, Claudio Andrade e Zig Koch o livro mostra a Mata Atlântica «sensu strictu», ou seja, floresta tropical pluvial costeira e ecossistemas associados (manguezais, restingas e campos de altitude) existentes no Paraná. Divididos em capítulos, o livro tem uma introdução de Carlos Ravazzani e temas diversos: Vegetação (José Motta), Fauna (Pedro Scherer Neto), com alguns tópicos reproduzidos aqui para os leitores do AO pela amabilidade dos autores, Serra do Mar (Roberto Lange), Os Caminhos (Maí Mendonça) e Guaraqueçaba (Miguel von Bern). Também apresenta de mamíferos (elaborada por Rogério Lange) e de Aves (Pedro Scherer Neto, Fernando Straube e Marco Borschein).

Pedro Scherer Neto - Curitiba-PR

A Floresta Atlântica, em seu trecho paranaense, apresenta uma fauna altamente diversificada, típica de áreas arborizadas situadas na região neotropical (Sclatter, 1857).

Dentro da ótica zoogeográfica, esta região situa-se dentro da província Tupi, a menor sub-região Brasiliana.

Rico em nichos ecológicos, o grande bioma proporcionado pela Floresta Atlântica, aliado a condições climáticas, ecológicas e geomorfológicas, e a uma forte irradiação adaptativa durante o Pleistoceno, gerou uma fauna altamente diversificada entre animais vertebrados e invertebrados. Esta fauna apresenta elementos típicos para a região sul brasileira, aí incluindo-se espécies endêmicas, algumas em processo de extinção.

Dos ecossistemas brasileiros, a Floresta Atlântica foi a que mais sofreu com perturbações de origem antrópica, reduzindo-a para o desenvolvimento de núcleos humanos e para a exploração madeireira e agropecuária, o que comprometeu populações animais, cuja biologia até hoje permanece desconhecida.

A fauna da Floresta Atlântica paranaense recebeu um esforço de pesquisa, através de naturalistas do antigo Instituto de História Natural, que deram início a coleções zoológicas de cunho científico. Parte dessa coleção foi obtida na Serra do Mar, dando início a um banco de dados sobre esta região.

Após um intervalo de tempo prolongado, são iniciadas novamente as pesquisas com a fauna na Floresta Atlântica da Serra do Mar, especialmente com aves.

Nesta época, foram estudados trechos de florestas primitivas e áreas com regeneração natural nos municípios de Guaraqueçaba, Morretes e Antonina. Procurando conhecer melhor a fauna litorânea do estado do Paraná, foi desenvolvido em 1986 na Reserva de Guaricana, de propriedade da COPEL um intenso trabalho, procurando conhecer a fauna de vertebrados e invertebrados. Esta pesquisa, efetuada por pesquisadores e estagiários do Museu de História Natural de Curitiba, forneceu subsídios para o Plano de Manejo da área acima mencionada.

No mesmo período foi criada a Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, sendo necessário um zoneamento faunístico para delimitação das categorias de uso do solo, que propiciou outro estudo sobre a fauna da vertente leste da Serra do Mar, com apoio da antiga Secretaria de Meio Ambiente (SEMA), do Governo Federal.

Outra porção da Floresta Atlântica da Serra do Mar foi estudada nos anos de 1986 a 1987: a Área Especial de Interesse Turístico do Marumbi, através da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem. O estudo da fauna da AEIT Marumbi contribuiu significativamente para o conhecimento científico desta região e deu subsídios para o plano de manejo desta unidade de conservação, gerenciada pelo Instituto de Terras, Cartografia e Floresta.

A importância da Floresta Atlântica Brasileira, em todo o seu conjunto, gerou inúmeras ações de proteção e pesquisa. A mais importante foi o Projeto Floresta Atlântica, que se desenvolve com o apoio do Banco Mundial e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA.

Coube à Secretaria Municipal do Meio Ambiente, da Prefeitura Municipal de Curitiba, através do Museu de História Natural, a tarefa de reunir mais informações sobre a fauna da Serra do Mar, através de recentes pesquisas em campo. Estão sendo estudados animais vertebrados terrestres e aquáticos, através de uma equipe multidisciplinar de biólogos que pesquisam aves, mamíferos, répteis, anfíbios e peixes. Todo este esforço de trabalho tem indicado uma alta biodiversidade em termos de fauna e flora, apesar das ameaças constantes a este ambiente.

A conservação de uma comunidade natural e suas espécies não é obtida simplesmente pela escolha e proteção de um pedaço de vegetação característica, mas também por áreas contínuas, suficientemente grandes, para abrigar todos os componentes da biota, detectados por pesquisas científicas. Todavia, muitos animais da Floresta Atlântica entraram em processo de extinção e hoje figuram em listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção, cuja principal causa é a influência do homem sobre o meio, através da redução de ambientes e pela caça ilegal. Segundo LOVEJOY (1985), de todas as florestas tropicais do mundo, não existe região mais ameaçada que a Floresta Atlântica do Brasil.

Esta floresta apresenta endemismos importantes, como o mono- carvoeiro Brachyteles arachnoides, primata neotropical, bastante ameaçado e que é encontrado apenas na Floresta Atlântica. Na classe Aves é digna de registro a ocorrência do papagaio-de-cara- roxa Amazona brasiliensis, cuja ocorrência está restrita a uma estreita faixa de floresta entre o sul do Estado de São Paulo e o litoral do Paraná.

Não se pode esperar a conservação perene das espécies animais de qualquer parte do mundo. A extinção é um processo natural e lamentável. Pode-se, contudo, atuar para que ela transcorra de um modo mais lento a fim de dar oportunidade às futuras gerações de conhecerem ambientes com sua fauna e flora ainda em condições de serem apreciadas, vividas e pesquisadas.

A avifauna da Floresta Atlântica, em seu trecho paranaense é composta por 376 espécies, distribuídas em 52 famílias, representando 54% de toda a avifauna conhecida para o estado do Paraná. Deste total de espécies, estima-se que mais de 100 formas são endêmicas desta floresta, ocorrentes em uma zona zoogeográfica conhecida por "Serra do Mar", proposta por CRACRAFT (1985).

A diversidade avifaunística encontrada é bastante alta, mesmo considerando-se as espécies de aves que habitam ambientes associados à Floresta Atlântica, como os manguezais, a restinga litorânea, trechos de vegetação alterada e em regeneração, conhecidas como capoeiras.

A avifauna da Serra do Mar foi estudada, levando-se em conta a sua distribuição ecológica e atualmente é bem conhecido o uso de diferentes ambientes pela comunidade de aves.

Desde o início do Século XVIII, através de naturalistas estrangeiros e paranaenses, começou-se a conhecer as aves da Floresta Atlântica, através de coletas científicas, cujo material encontra-se depositado no Museu de História Natural de Curitiba. Todavia, foi a partir do final da década de 70 que os estudos com aves na Serra do Mar tiveram continuidade, através de excursões a diferentes regiões litorâneas do estado do Paraná, promovidas pelo Programa de Recursos Naturais Renováveis do Instituto Paranaense de Pesquisas Agropecuárias (IAPAR) e, mais tarde, pelo Museu de História Natural de Curitiba. Estudos prolongados em diferentes localidades, tais como, a Reserva Florestal de Guaricana e a Área de Especial Interesse Turístico de Guaricana e a Área de Especial Interesse Turístico do Marumbi foram pesquisados por F. STRAUBE (1986,1987), revelando a ocorrência de 200 e 313 espécies de aves, respectivamente, em cada região. No mesmo período, P. SCHERER NETO estuda a Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, registrando a presença de 224 espécies. A comunidade de aves é composta por elementos residentes, transitórios e migrantes, fazendo com que haja uma flutuação populacional em número de espécies ao longo do ano. Como espécies residentes, destaca-se a presença do macuco Tinamus solitarius, do jacu-guaçu Penelope superciliaris, do uru Odontophorus capueira, dos periquitos Brotogeris, tirica Pyrrhura frontalis.

Dentre as espécies migratórias, freqüentam a Serra do Mar, em apenas alguns meses do ano, aves como a tesourinha Tyrannus savana; o siriri Tyrannus melancholicus; o príncipe Pyrocephalus rubinus e o gavião-tesoura Elanoides forficatus.

Na comunidade de aves conhecida para a Serra do Mar, destaca-se em maior número a presença de aves da Ordem Passeriformes, especialmente entre as famílias Tyrannidae e Emberizidae, com 63 e 49 espécies, respectivamente. Nota-se que o número de espécies varia conforme a altitude, declinando em relação às maiores altitudes.

As aves distribuem-se no grande bioma da Floresta Atlântica, de acordo com suas adaptações. São encontradas no interior da floresta, ocupando diferentes estratos ou níveis, que vão do chão à copa das árvores; às áreas abertas provocadas pela ação do homem, margens de rios e brejos.

No chão da floresta encontram-se os inambus e jaós Crypturellus sp., onde se destaca a presença de joão-do-litoral Crypturellus noctivagus, espécie rara e pouco conhecida; do macuco Tinamus solitarius, que figura na Lista Oficial da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção; do uru Odontophorus capueira e várias espécies de formicarídeos, parulídeos e rinocriptídeos, como o papa- taóca Pyriglena leucoptera, o chupa-dente-de-máscara Conopophaga melanops, o pula-pula-ribeirinho Phaeothlyps rivularis e os tapaculos do gênero Scytalopus.

A meia altura da floresta, encontram-se principalmente passeriformes, como o pula-pula Basileuterus culicivorus, o verdinho- coroado Hylophilus paicilotis, bico-de-pimenta Pitylus grossus, diversos sabiás e, principalmente, piprídeos, como o tangará Chiroxiphia caudata. Ocupando o estrato superior, estão os tucanos e araçaris, os anambés Tityra cayana e T. inquisor; e especialmente os bandos mistos de aves, compostos por membros das famílias Emberizidae, Furnartidae e Tyrannidae; muito característico deste estrato é o corocochó Carpornis cucullatus.

No topo ou no dossel da floresta são encontrados o saí-andorinha Tersina viridais e a araponga Procnias nudicollis.

Muitos gaviões estão presentes na Floresta Atlântica Sul- Brasileira. No Paraná foram observadas, com certa freqüência, algumas espécies como o gavião-pombo-grande Leucopternis polionota e o gavião-pega-macaco Spizaetus tyrannus. Uma das espécies mais raras, o gavião-pato Spizastur melanoleucus foi observado recentemente na Serra da Prata e nos contrafortes do Pico Paraná.

Os beija-flores estão bem representados na Serra do Mar, pois cerca de 19 espécies, aí sobrevivem, sendo o beija-flor-grande- da-mata Ramphodon naevius, um dos elementos mais conspícuos deste bioma.

Dentre os elementos endêmicos da Serra do Mar, destaca-se a presença do papagaio-de-cara-roxa Amazona brasilliensis, uma das espécies mais ameaçadas e estudadas, P. SCHERER NETO e P. MARTUSCELLI pesquisam este psitacídeo, sendo bem conhecidas a dieta alimentar, reprodução e as migração diárias para repouso noturno.

São também endêmicos da Serra do Mar o aracuã Ortalis guttata, habitante da restinga litorânea; o sanhaço-marrom Orchesticus abaillei, espécie incomum e pouco conhecida; o chupa-dente-de- máscara Conopophaga melanops e o beija-flor-grande-da-mata Ramphodon naevius.

A floresta Atlântica paranaense é atualmente a maior porção contínua de vegetação arbórea, mesmo sofrendo constantes perturbações de origem antrópica, traduzidos pela redução de hábitat e a caça predatória, que afetam sobremaneira as diferentes populações de aves.

Apesar da alta diversidade deste floresta, e de todo avanço científico realizado e as diferentes unidades de conservação existentes na faixa litorânea do Estado do Paraná, é preciso que este ambiente seja respeitado, utilizando-o de forma racional para que não se acelere o processo de extinção de muitas espécies de aves, ao fim de um século. Neste caso, a tecnologia aliada a um espaço de mudanças de pensamento pode efetivamente contribuir para a conservação da avifauna da Floresta Atlântica da Serra do Mar.

 

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(Texto do livro MATA ATLÂNTICA; proibida qualquer reprodução)

 

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