Tadeusz Chrostowski, Pai da Ornitologia do Paraná

Fernando Costa Straube - Curitiba-PR

 

Tadeusz Chrostowski (foto extraída de Annales Zoologici Musei Polonici Historiae Naturalis 3(3-4):167-172,1952)

O naturalista Tadeusz Chrostowski nasceu na cidade de Kamionka (distrito de Augustow, Polônia) em 25 de outubro de 1878 e desde cedo mostrava interesse na observação de todas as formas de vida ao seu alcance, em especial as aves.

Adentrou à Universidade de Moscou, onde freqüentou o curso de Físico-Matemática a fim de obter seu bacharelado, mas ali não pôde dispender muito tempo. Naquela época participou do movimento estudantil liberal, motivo pelo qual foi deportado para a Sibéria setentrional. Uma vez deflagrada a guerra Russo-japonesa (1904- 1905), retornou da Sibéria sendo então designado ao cargo de chefe de companhia na Manchúria.

Logo depois de livre de tal encargo, com o fim da guerra, Chrostowski dedicou-se afinal ao estudo mais dedicado das ciências naturais, dividindo seu tempo com obrigações que lhes davam sustento. Justamente neste período iniciou a programação de uma expedição científica à América do Sul, continente que o atraía muito pela maravilhosa riqueza de fauna. Seguia o exemplo do naturalista polonês Konstanty Jelski que, nas mesmas condições, devido à Revolução Polonesa de 1863, dirigiu-se à Guiana Francesa e Peru.

Um dos fatos mais marcantes da história da imigração polonesa ao Brasil, foi exatamente este grande fluxo de indivíduos intelectualmente ativos e competentes que, após a referida insurreição, espalharam-se pelo mundo, contribuindo brilhantemente para o desenvolvimento econômico e cultural dos países que os acolheram. Cientistas e políticos poloneses estão ligados, desde então, a uma obra de gigantesca escala de estudos e observações geográficas, geológicas, arqueológicas, zoológicas etc, do mundo americano, asiático, africano, oceânico e antártico.

Em 1910, Tadeusz Chrostowski chegou ao Paraná, instalando-se na colônia Vera Guarani (Município de Paulo Frontin, sul do Estado) como colono imigrante. Ali passava seu tempo como agricultor e eventualmente colecionando vários animais, principalmente aves. Depois de um ano, retornou a Varsóvia a fim de analisar o material coligido e publicar seus resultados. Surgiu, portanto, a primeira publicação científica dedicada exclusivamente às aves do Paraná, editada em 1912.

Seu desejo de retornar ao Paraná era então eminente, mas o apoio institucional necessário foi vetado pelo governo russo. Assim, apenas mediante subsídio do curador da coleção ornitológica do Museu de Munique (Alemanha), Charles Hellmayr, pôde realizar outra viagem a este Estado. Tal expedição, iniciada em 1913, pouco durou, em decorrência dos rumores da primeira grande guerra, que obrigou-o a retornar à Polônia para lutar por sua pátria. Mesmo assim, foram visitadas várias localidades dos arredores de Curitiba e da porção sul do Estado, onde coligiu vários espécimes.

As conseqüências da guerra obrigaram-no a dirigir-se à Rússia, onde ainda arrumou tempo para estudar as interessantes coleções de aves neotropicais dos naturalistas Kittlitz, Langsdorff e Menétriés. Este valioso material, colhido no século passado e depositado no Museu de Petrogrado, foi estudado por Chrostowski, ao qual deve-se o mérito de ser o primeiro a divulgá-lo sob a forma de uma revisão.

Em 1920, já com a guerra findada, foi designado curador da seção de aves neotropicais do Museu Polonês de História Natural, onde dedicou seu tempo ao estudo das coleções feitas por K. Jelski, J. Sztolcman, J. Kalinowski, J. Siemiradzki e outros. Parte de seu tempo usou tanto no árduo ofício da curadoria, como nas organizações de exposições destinadas ao público.

Mudanças políticas, no início da década de 20, movimentaram a Polônia. Imediatamente após a sua independência, dada em 1921, surgiu novamente no nosso biografado, o interesse em voltar ao Paraná. Ele preparou, então, uma nova e ambiciosa viagem, que cortasse todo o Estado. Assim, uniu-se ao entomólogo Tadeusz Jaczewski e Stanislaw Borécki e, com o patrocínio do governo polonês mais uma pequena colaboração de vários naturalistas do Museu de Varsóvia, pôde levar a efeito seu projeto.

Foi, sem dúvida, a primeira expedição científica à região tropical após o reconhecimento da Polônia como estado.

O trajeto percorrido somou quase 2000 quilômetros, iniciados em Mallet (pequena cidade do sul paranaense) com a chegada da equipe à estação ferroviária local em 2 de fevereiro de 1921. Visitaram desde as áreas parcamente habitadas do Paraná meridional, como as terras então inóspitas do vale dos rios Ivaí e Iguaçu. Tudo isso em lombo de burro, carroças e canoas, as quais, de vez em quando, sujeitavam-se a sérios riscos de naufrágios nas perigosas corredeiras que passavam. Foi uma viagem que cortou o Paraná de leste a oeste e norte e sul, concluindo-se em Paranaguá, em 13 de outubro de 1924.

É de mencionar-se que, após a chegada à localidade de Pinheirinhos (distante pouco mais de 80km de Foz do Iguaçu), todos os integrantes da equipe contraíram malária, enfermidade que, na época, ceifava vidas nas áreas tropicais e subtropicais do Brasil. Em Chrostowski, a doença ficou agravada por uma forte pneumonia de difícil cura devido ao estado exausto que se encontrava seu organismo. Não obstante aos esforços de Jaczewski de procurar auxílio médico, Chrostowski faleceu a 4 de abril de 1923, no local onde adoecera. Seguindo a tradição da época, foi enterrado nas proximidades da sede da vila, às margens da estrada que levava a Guarapuava. Por incrível coincidência, seu jazigo, ainda preservado, localiza-se no que hoje é o Parque Nacional do Iguaçu, um justo descanso para um dos primeiros a admirar nossa fauna.

Do material ornitológico colecionado por Chrostowski no Paraná, pequena parte foi destinada ao Museu de Munique (hoje em posse do Field Museu of Natural History em Chicago, EUA) e a maioria ao próprio Museu de História Natural de Varsóvia (hoje Zoological Institute, Polish Academy of Sciences). Na terceira viagem, incluem-se 262 espécies e subespécies, dentre as quais algumas muito raras como a jacutinga, o gavião-de-penacho, o socó-boi- escuro e o pato-mergulhador. Seu material foi pesquisado por cientistas poloneses de renome como Roszkowski, Jaczewski, Domanieski e principalmente Sztolcman, ao qual se deve a única revisão dos espécimens ornitológicos dada ao lume em 1926. Ele próprio publicou vários trabalhos científicos, assim como alguns de cunho descritivo do povo e vida no Paraná, particularmente da imigração polonesa, tão benvinda ao nosso estado.

Sobre Chrostowski, seu colega Tadeusz Jaczewski descreveu como uma pessoa distinta, não apenas por sua energia, bravura e tenacidade, mas principalmente pelo companheirismo, sabendo estimular a todos, inclusive nos momentos mais difíceis. Não esmorecer para não desmerecer dizia Pasteur e, sem dúvida, era uma doutrina levada a sério pelo abnegado naturalista. Outra característica era a constante preocupação de conhecer a todas as formas da vida possíveis, mediante muitas horas de observação, aproveitando-as enquanto vivas, não apenas estudando-as como peles, em gabinetes. Foi um dos primeiros a acreditar na biologia de campo, ao contrário de quase todos seus colegas cientistas da época, que recebiam farto material de locais que nunca sequer pisaram, pesquisando-os apenas anatomicamente.

Sobre a morte, Chrostowski a considerava um atributo natural do viajante que se arriscava em prol da ciência em terras distantes; como que um previsão em seus projetos de pesquisa e ansiedades de vida. O que o sábio naturalista não esperava, era o tamanho desinteresse, até os dias de hoje, por seu legado, que permanece praticamente inerte e desconhecido.

Chrostowski foi muito mais do que um cientista; dividiu sua curta existência entre rigor científico e amor às coisas da natureza. Que fique então aqui, nosso reconhecimento, a este grande patrono da Ornitologia paranaense.

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Fernando Costa Straube. Pesquisador voluntário do Museu de História Natural "Capão da Imbuia" (Prefeitura Municipal de Curitiba), membro da Sociedade Brasileira de Ornitologia e Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental.

 

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