A ararinha-azul Cyanopsitta spixii, um dilema para conservação

Paulo de Tarso Antas - Brasília-DF; Pedro Scherer Neto - Curitiba-PR

A ararinha azul Cyanopsitta spixii tornou-se a espécie de ave mais ameaçada de extinção do planeta, com um único exemplar conhecido em liberdade e cerca de 30 em cativeiro no Brasil e no exterior.

Descrita para a ciência em meados do século passado, a partir de um exemplar coletado no norte do estado da Bahia, essa espécie permaneceu durante quase 150 anos sem qualquer estudo de sua biologia básica na natureza. Durante este período somente era conhecida pelos exemplares que apareciam no ilícito comércio de aves vivas para zoológicos e criadores particulares.

Na década de 80 diferentes expedições científicas levadas a cabo por Paul Roth e, mais tarde, por Carlos Yamashita, Luiz Claudio Marigo, Roberto Otoch e Tony Juniper, localizam os últimos indivíduos desta espécie no norte da Bahia.

Várias causas devem ter contribuído para uma situação tão crítica. Provavelmente é uma ave muito especializada, vivendo na caatinga arbórea encontrada ao longo de afluentes sazonais do rio São Francisco. Todavia, foi o comércio de aves vivas o grande responsável pelo estado atual da espécie, à beira da extinção.

Com apenas um exemplar conhecido em liberdade, torna-se extremamente difícil se restabelecer uma população viável na natureza. Preocupado com a situação alarmante da espécie, o IBAMA cria em 1990 o Comitê Internacional para a Recuperação da Ararinha Azul, formado por especialistas, representantes de entidades brasileiras e internacionais e criadores de aves silvestres.

Todas as aves conhecidas pertencentes a zoológicos e criadores particulares foram colocadas à disposição do comitê, pareadas visando melhorar a garantia de reprodução em cativeiro, já com vistas a reintrodução de um exemplar ao menos ao ambiente natural.

Paralelamente, foi contratado um biólogo para estudar e monitorar o indivíduo que se encontra na natureza. O biólogo catarinense Marco Aurélio da Ré foi escolhido e hoje sua pesquisa intensa levantou dados importantes para a conservação, bem como seu trabalho junto a população do município de Curaçá- BA, onde se encontra a ararinha-azul, garantiu um envolvimento protecionista tão grande que esta ave é hoje um símbolo daquela cidade.

O resultado deste esforço deu garantia ao Comitê para levar a efeito um programa de reintrodução de um exemplar de cativeiro na natureza.

Retornar uma ave ao seu ambiente significa readaptá-la às condições extremamente diversas de onde vivia, pois no cativeiro existe proteção, alimentação e atendimento técnico; na natureza a ave terá que reaprender a viver por si só.

O exemplar da natureza possui mais de 6 anos e servirá de guia para a ave que vir;a de cativeiro.

Para minimizar riscos com a reintrodução de um exemplar na natureza foram levantadas diversas possibilidades de sucesso para uma população, no futuro. Um Workshop internacional foi realizado em Belo Horizonte-MG com a presença do Dr. Ulisses Seal (IUCN- ISSC) para estudar possibilidades de sucesso e paralelamente o Comitê cria um grupo de estudo para elaborar um plano de reintrodução, que vem a ser o primeiro passo para viabilizar um aumento da população na natureza.

A região de Curaçá, na Bahia, ainda apresenta condições de manter uma população viável da ararinha-azul, o ambiente sofre uma pressão antrópica lenta e pode ser controlada por um trabalho de educação ambiental, que já vem sendo desenvolvido pelo biólogo Marco Aurélio da Ré.

A aplicação do plano de reintrodução é o primeiro passo para que uma população natural se instale, garantindo teoricamente a conservação desta espécie.

No Brasil muitos outros psitacídeos sofrem com a pressão humana sobre suas populações, algumas já pequenas, como a arara-de-lear Anodorynchus leari, também habitante do estado da Bahia. São ainda escassos os estudos sobre a biologia de muitas espécies que fornecem dados para a conservação em um futuro bastante próximo caso não diminua a repressão de ambientes naturais e a forte pressão sobre as populações para abastecer o comércio de aves, não só no Brasil, mas como também no exterior.

O caso da arara-azul-de-spix é hoje um símbolo da extinção de uma espécie neste final do século XX, onde a consciência é a de que precisamos proteger o que ainda resta, apesar da extinção ser também um fenômeno natural.

 

 

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