O biólogo Marco Antonio de Andrade revela, com exclusividade para os leitores de AO, trechos de alguns capítulos do seu próximo livro A VIDA DAS AVES, que brevemente será lançado. Com prefácio do Dr. Roberto Cavalcanti, professor da UNB, o autor conta com a colaboração de outros pesquisadores, como o médico Sérgio Dani (ora fazendo doutorado em Hanover, Alemanha) e do fotógrafo de natureza Luiz Claudio Marigo nesta nova obra que, certamente, interessará a todos que se dedicam às aves.

A Utilidade e Importância das Aves

Marco A. Andrade - Belo Horizonte-MG

Desenho de Alejandro Grajal (Venezuela)

As aves têm sido sempre um valioso recurso alimentar para o homem. Tanto as aves como os ovos contém proteínas de grande importância para nossa dieta. A domesticação das aves tais como galinhas, pavões, faisões, patos, gansos e codornas possibilitou o surgimento de uma fonte estável de alimento, com o qual se tem minimizado a necessidade de caçar animais silvestres dos campos, matas e outros ecossistemas. Os subprodutos também são muito úteis: as penas são usadas para abrigo em clima frio e os excrementos, como o guano, são valiosos adubos orgânicos para nossos jardins, pomares e hortas.

As aves são um componente valioso de qualquer ecossistema natural. Sua presença é uma indicação de que o ambiente é saudável e funcional. Tanto as aves, como outros animais da fauna silvestre, formam parte da história e cultura da humanidade, tão valiosa como os sítios arqueológicos, históricos e culturais. As aves são parte de nossa «herança natural nacional» e devemos estar orgulhosos de sua presença e beleza ao nosso redor.

As aves são de grande valor na vida do homem e na natureza, nos ajudando a viver melhor de muitas maneiras. Alimentam-se de pragas que atacam nossas plantações e pastagens, atuam no combate aos ratos, cobras e insetos, polinizam flores e disseminam sementes, fornecem alimentação ao homem, transmitem harmonia, beleza e inspiração e, indiretamente, exercem outras contribuições ao meio ambiente.

A seguir, apresentamos informações mais detalhadas sobre estes valores e utilidades das aves:

As aves como recursos sócio-econômicos

A conservação de aves sempre foi tida como uma questão essencialmente biológica. O conceito estabelecido sobre as aves como fonte sócio-econômica é que os problemas de conservação originam-se do fato da interação entre aves e pessoas, e que as efetivas soluções devem abranger, no caso, considerações sociológicas e econômicas, como também biológicas.

Os valores dados pelas pessoas às aves, num contexto social, estão muito acima do que se supõe. As pesquisas sociológicas oferecem excelentes meios aos conservacionistas para avaliar numericamente a considerável sustentação existente para a conservação entre o público em geral. Os dados sócio-econômicos são de grande contribuição para uma série de metas de conservação. De posse desses dados, os conservacionistas teriam mais meios para analisar não só os danos ambientais, mas também, as vantagens sócio- econômicas em grande escala que poderiam ser usufruídas em prol das aves silvestres.

A sociedade, como um todo, sempre levou em conta a importância religiosa, cultural e simbólica das aves desde os tempos remotos de nossos ancestrais. A importância econômica das aves, seja na alimentação, em competições, em experimentos e estudos científicos, já está bem documentada (Diamond & Filion, 1987).

É preciso reconhecer que as aves fazem parte de nossa herança de recursos naturais e sociais e que sua sobrevivência e convivência pacífica, seja no meio urbano ou em seu hábitat natural, é da responsabilidade de todos nós, bem como do governo, autoridades, empresários e entidades voltadas para a preservação da vida silvestre.

Controle de moluscos

Os moluscos são animais invertebrados pertencentes ao Filo Mollusca. Possuem o corpo mole, carnoso e comumente abrigado em uma concha calcárea externa. Algumas aves como o carão (Aramus guarauna), a curicaca (Theristicus cardatus), o gavião-caramujeiro (Rosthramus sociabilis), dentre outras, alimentam-se basicamente de moluscos que encontram à beira d'água e que podem ser potenciais transmissores de doenças, como a esquistossomose, e destruidores de plantações e jardins. Estas aves podem alimentar-se do caramujo Biomphalaria glabatra, hospedeiro intermediário do protozoário Schistosoma mansoni, ajudando assim a controlar a esquistossomose.

Controle de animais peçonhentos

Muitas espécies de aves incluem em suas dietas animais peçonhentos (venenosos) como aranhas, escorpiões, lacraias, vespas e cobras. Aves terrestres das famílias Tinamidae (macucos, inhambus, codornas), Cracidae (mutuns, jacus, aracuãs) e Phasianidae (urus) podem capturar estes animais. Outras aves, até mesmo beija-flores, podem capturar pequenas aranhas para alimentar seus filhotes. Gaviões, falcões, corujas, anus e siriemas consomem pequenas cobras peçonhentas, exercendo assim um importante controle natural destes répteis.

Atuação dos beija-flores no controle de doenças e no equilíbrio da natureza.

A primeira influência importante dos beija-flores no equilíbrio biológico da natureza relaciona-se com sua função de agentes polinizadores de um grande número de plantas de vários ecossistemas, como as florestas, os campos e cerrados, a caatinga, a capoeira etc. Há espécies botânicas que são polinizadas unicamente por certos beija-flores e, por isso, são chamadas plantas troquilógamas. Como exemplo podemos mencionar muitas lobeliáceas, esterculiáceas e bromeliáceas.

Outro papel de grande relevância que desempenham na natureza está relacionado com sua predileção alimentar protéica, quando constituída de dípteros (moscas, insetos da Ordem Siptera) dos gêneros Culex, Anopheles e Simulum, pois os primeiros são mosquitos transmissores da filariose, os segundos da febre amarela e da malária e, os últimos, da oncocercose, também chamada cegueira dos rios, cujo vetor é o mosquito «borrachudo».

Como bio-indicadoras de condições ambientais

As aves estão entre os animais mais perspicazes como indicadores da saúde de nosso meio ambiente. As aves já mostraram a eficácia de poluentes ambientais, sobretudo os novos tipos de poluentes químicos, que não deixam resíduos e somente são notados pelo impacto biológico, por isso são essenciais como indicadoras do meio ambiente. Seus potenciais como um meio rápido de detecção de danos materiais ao meio ambiente são, talvez, o argumento mais interessante à favor das aves atualmente (Diamond & Filion, 1987).

Na pesquisa biomédica

Na pesquisa biomedicinal as aves também merecem um destaque especial e figuram nas pesquisas genéticas com destaque para o desenvolvimento de vacinas e a descoberta do retrovirus. A citogenética e imunogenética têm utilizado aves em seus experimentos e descobertas.

Criadores de canários de cor desenvolvem estudos genéticos em seus pássaros, objetivando aprimorar o canto e caracteres morfológicos dominantes. Criadores de calafates (africanos) e periquitos (australianos) também usam a genética mendeliana para o aperfeiçoamento de suas aves.

Numerosas vacinas são produzidas em tecidos animais e em ovos de galinhas. A vacina contra o sarampo é produzida em ovos e em tecidos de rins de cães. Os animais, incluindo as aves, são utilizados para verificar a eficácia e os possíveis efeitos colaterais de novas drogas, para testar novos medicamentos, para avaliar a inocuidade de novos produtos químicos a serem usados na indústria de alimento etc.

Na religião e mitologia

As aves têm papel de destaque no nosso folclore, mitologia e religião. As artes ancestrais registram que a veneração dos animais é algo antigo na forma de adoração humana. Povos antigos e algumas sociedades atuais praticam cultos animistas onde a figura da ave aparece de forma proeminente. As aves, particularmente as de rapina, tiveram papel de destaque nas nossas desavenças espirituais. A primeira ave a aparecer numa lenda foi Garuda, deus hindu que carregava o sol nas asas. As aves de rapina marcaram muito nossos antepassados, pois eram também predadoras e se identificavam com a força e rapidez. Máscaras de madeira e símbolos de animais, principalmente aves de rapina, eram elementos religiosos importantes numa certa época.

As aves predadoras também têm uma conotação guerreira. Figuras de penas de águias eram símbolos militares ou imperiais que povos como os da Babilônia usavam. Os romanos participavam de guerras carregando uma águia de bronze ou dourada. Os imperadores astecas do México eram protegidos por uma ave de rapina, talvez o falcão, e a águia era o símbolo de uma classe especial de seus soldados. Os abutres são venerados pelos persas da Índia, que não o queimam ou enterram, mas deixa-os expostos numa torre para serem devorados por outros abutres. Penas de abutre eram também usadas como elementos de sorte pelas parteiras da Grécia antiga e Roma, e os abutres eram também símbolos de nascimento dos maias e dos antigos egípcios, cuja deusa Nekhebt era representada por um abutre. Os egípcios adoravam muitas aves, particularmente as pernaltas, que eram criadas e tidas como sagradas.

A arte antiga européia era dominada pela religião e as aves apareciam como símbolos até a renascença, destituindo-as de sua conotação original em contraste com os chineses, que as viam mais pela beleza. As aves também são temas de realce na arte hindu e algumas (como garças) tiveram papel de destaque na evolução das danças indianas. A liberdade das aves em transitar livremente pela terra e próximo ao homem, lhe deu papel de destaque em nosso folclore e religião.

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Texto do livro A VIDA DAS AVES. Proibida reprodução sem autorização expressa do autor.

 

 

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