Fotografia de Natureza

Luiz Claudio Marigo - Rio de Janeiro-RJ

O fotógrafo de natureza é um caçador de imagens. Seu conhecimento da caça, de onde ela vive, por que trilhas anda, a que horas entra em atividade, o que come e onde come, permite-lhe prever seus movimentos, adiantar-se a ela e fazer uma tocaia para tirar sua fotografia. Mas o caçador deve também conhecer seus instrumentos e desenvolver uma sensibilidade especial para o espírito da caçada. O caçador de imagens precisa aguçar sua sensibilidade para composição, expressão, informação, movimento, cor, luz, contraste e ritmo.

A fotografia é um exercício de atenção. Manter-se desperto, percebendo tudo o que acontece ao seu redor durante um longo tempo propicia momentos de intensa criatividade. Esta disposição mental precisa ser praticada em todos os momentos do cotidiano. Talvez esta seja a mais importante atividade de um fotógrafo: simplesmente prestar atenção. A fotografia é a relação de uma sensibilidade diante do mundo, frente à natureza. Um movimento sutil de atenção, percepção, de atitudes mentais e tomadas de decisão orienta o fotógrafo na sua viagem de criação.

Palavra de origem grega, fotografia é escrever com a luz. A cultura ocidental, fascinada pela tecnologia, encontrou esta definição como referência ao processo técnico para a fixação das imagens. Os japoneses usam «sha-shin», reflexo da realidade, numa alusão ao caráter realista da fotografia. A fotografia depende do mundo, do real, dos fenômenos diante do fotógrafo. Mas, talvez, seja a expressão simples e coloquial «tirar uma fotografia» que melhor reflita a essência dessa forma de fixação e transmissão da realidade. Tirar uma foto é extrair do fluxo do tempo um momento que será preservado no filme. É também tirar uma impressão do real, como a moldagem de uma máscara mortuária, como os rastros das aves na areia úmida.

A atenção do fotógrafo deve ligar-se simultaneamente aos aspectos da caça e da estética fotográfica. O fotógrafo procura na natureza os atributos do que ele escolheu como seu ideal de uma boa fotografia. Para mim, uma boa foto é uma linda imagem que conta uma história... Cada fotógrafo precisa construir seu próprio conceito do que é uma boa fotografia. Este conceito é tão importante que merece um estudo mais detalhado de seus significados.

Quais são os princípios de desenho gráfico e conteúdo em fotografia? Que elementos o fotógrafo procura na natureza para organizar sua imagem? O mais importante é a composição, a organização dos elementos visuais do quadro fotográfico. Boa composição está sempre em harmonia com o «design» do assunto fotografado, isto é, a forma e a estrutura das linhas da figura fotografada combina com a boa composição. Composição tem a ver também com proporção, o tamanho que alguns elementos tomam em relação a outros e com perspectiva, a impressão de profundidade numa imagem bidimensional. Através da distorção dos elementos visuais uma fotografia plana transmite a noção de perspectiva. Esta deformação não significa amputação, mutilação de forma ou tem qualquer conotação negativa. Quando um aspecto da composição influencia esta composição mais fortemente que todos os outros aspectos, cria um centro de interesse. A dominância do centro de interesse ocorre devido ao seu tamanho, cor, local dentro do quadro, valor simbólico ou qualquer combinação destes e de outros fatores. Equilíbrio sugere dominância colocada em suspenso: o centro de interesse dilui-se por todo o quadro fotográfico.

Um padrão é uma organização específica de elementos visuais, em suma, um «design», uma determinada estrutura de formas e linhas. Pode ocorrer isoladamente ou repetir-se. Quando se repete em intervalos regulares forma um ritmo. Ritmo é uma maneira de usar o padrão. A textura é um tecido de padrões com trama muito fechada. A atenção a esses elementos visuais permite ao fotógrafo utilizá-los criativamente na sua fotografia.

Os acadêmicos tentam estabelecer regras rígidas para determinar a composição «correta», mas os outros princípios de fotografia introduzem tantas relações conflitantes que as exceções praticamente destroem as regras. Ademais, gosto não se discute. Cada fotógrafo deve estabelecer seus próprios padrões de beleza.

O clima ou a atmosfera de uma foto são dados pelo valor simbólico de certos elementos. São referências a valores de nossa cultura. Em fotografias onde aparecem seres humanos, o simbolismo de sofrimento, alegria, liberdade, servidão, amor, ódio e outros sentimentos são transmitidos pelas expressões do corpo ou do rosto, por objetos, cores ou situações simbólicas. Na fotografia de natureza a atmosfera da foto é comunicada pelos símbolos que o homem emprestou à natureza, nas formas, nas cores, na luz. Um céu de tempestade pode transmitir a sensação da fragilidade da existência, da pequenez do homem diante dos elementos naturais. A onça pintada pode parecer ameaçadora e feroz ou um símbolo de força e poder. O vôo de uma ave de rapina planando no céu é a soberania. As grandes raízes de uma figueira ou a copa gigantesca de uma samaumeira são a firmeza e a generosidade.

Contando uma história, uma foto transmite não apenas uma atmosfera, mas também informação. O conhecimento de ecologia, dos hábitos das plantas e dos animais permite ao fotógrafo de natureza reconhecer no campo os aspectos mais reveladores de seu assunto. Uma foto de manguezal pode enquadrar só um detalhe e valorizar a textura das raízes aéreas do mangue-vermelho, criando uma imagem gráfica, quase uma abstração. Mas o mesmo assunto - mangue - pode mostrar outro tema, o ecossistema do manguezal, a maneira como as raízes do mangue-vermelho conseguem sustentar as árvores sobre a lama mole, como a planta se dispersa, largando seu fruto em forma de lança na maré baixa e autoplantando-se no lamaçal fofo. Se o fotógrafo puder incluir os caranguejos que fervilham no lodo ou as aves aquáticas pousadas na ramaria, estará informando ainda mais sobre a fauna do manguezal. Isto depende da sorte, da perícia do fotógrafo ao aproximar-se do mangue e de sua intenção consciente de captar na fotografia todos estes aspectos. A silhueta de uma ave contra o céu avermelhado do entardecer traz pouca informação sobre esta espécie, mas pode evocar poesia e uma sensação de liberdade. Neste exemplo, embora o assunto da foto seja a gaivota, o tema da fotografia é a liberdade. Se a intenção do fotógrafo for a de descrever a espécie para identificação, seus hábitos alimentares e seu hábitat, deve tentar flagrá-la sob boa luz, na praia, capturando um peixe.

Clareza de propósitos produz resultados a sua altura. Ter sempre em mente o que se procura fotografar é fundamental para exprimir suas idéias com mais intensidade. Você não vai chegar a lugar nenhum se não tem uma clara idéia do seu destino.

Diante de nossos olhos corre o filme da realidade. Vemos a cambaxirra (Troglodytes aedon) saltar pela galharia baixa da mata, capturar um inseto e desaparecer na brenha da floresta. No instante em que esta cena ocorre ela está também desaparecendo no tempo. Torna-se um passado perfeito que não pode voltar. Uma foto dessa cena diz, essencialmente, «isto foi». Uma foto preserva o momento observado de um determinado ponto de vista. «A câmara é a arma do olhar contra a miséria das coisas. O olhar impede que elas se percam ou desapareçam», diz o cineasta alemão Wim Wenders. A fotografia é um artifício contra a morte.

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Texto do livro A VIDA DAS AVES; não pode ser reproduzido sem autorização expressa do autor.

 

 

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