Considerações sobre práticas de conservação de aves

Sérgio Ulhoa Dani - Belo Horizonte-MG

Alguns problemas advindos das relações entre o homem e as aves podem representar prejuízos bilaterais. Até mesmo medidas bem intencionadas por parte do homem podem ser prejudiciais às aves: por exemplo, material plástico ou sintético colocado à sua disposição para auxiliá-las na tarefa de construção de ninhos são mal isolantes, não transpiram e não são recicláveis.

Algumas soluções práticas, entretanto, podem ser adotadas para eliminar ou tentar reduzir conflitos.

Perdas na agricultura

Ao lado da ação benéfica das aves nos jardins, pomares e plantações, poderão ocorrer perdas e prejuízos provocados por aves que atacam sementes, plantas jovens e frutas de interesse econômico para o homem. Antes de iniciar uma campanha de destruição das aves (o que é ilegal), é preciso considerar seriamente a relação custo/benefício. Em muitas situações é preferível sofrer o prejuízo suportável causado pelas aves vivas que o dano irreparável advindo da extinção ou redução das populações de aves.

A experiência tem mostrado que conseqüências maléficas podem acompanhar a eliminação destes animais. Aumento significativo de gastos podem ocorrer com medidas de controle de insetos e plantas daninhas que nunca chegariam à condição de pragas se as aves tivessem sido conservadas. Isto provoca um círculo vicioso pois, como sabemos, substâncias venenosas (herbicidas, fungicidas, organoclorados, fosforados etc.) utilizadas tanto na agricultura quanto nos jardins para o combate a insetos e outros animais daninhos e o controle de plantas invasoras, prejudicam diretamente as aves por sua ação tóxica. Indiretamente, acabam com plantas e animais que lhes servem de alimento.

Para proteger plantas jovens contra a predação de algumas aves, podem-se esticar redes finas sobre as plantas, como as redes de nylon utilizadas em viveiros de mudas, para sombreamento (sombrite). Espantalhos feitos com tiras de papel colorido ou tiras de lata amarradas a uma haste fixa costumam ser bastante eficientes. No caso da predação pela ema (Rhea americana), espécie que é incapaz de voar, cercas com seis fios de arame já costumam ser suficientes para impedir o acesso de indivíduos adultos. Indivíduos jovens acompanham o macho adulto até a idade de um ano, quando já estão suficientemente crescidos para serem contidos por cercas. É sempre recomendável utilizar arame liso nas cercas, pois uma ave ferida em um choque contra as farpas de uma cerca é vítima fácil de infecção e miíase ("bicheira"), podendo morrer como conseqüência do ferimento.

Em hortas e sementeiras, podem-se esticar fios de arame, cordões ou nylon, entremeados com pedaços de papel coloridos, para diminuir a visita de aves que são consideradas prejudiciais à essas plantações, como: trinca-ferro, rolinhas, coleiros etc.

Nichos ecológicos e abrigos artificiais

Os jardins com gramados monótonos, as monoculturas e a modificação progressiva da paisagem natural pela agricultura, pelos desmatamentos e pela construções, acabam com a diversidade florística de que necessitam as aves para viver. Derrubadas de velhas árvores, por exemplo, reduzem as possibilidades para o estabelecimento dos seus ninhos. Pica-paus, arapaçus, tucanos, araras, papagaios e outras aves, necessitam justamente de troncos abandonados, que tenham buracos, para abrigo e construção de seus ninhos. Um jardim com várias espécies diferentes de plantas e nichos diversificados pode ser considerado por alguns um sinal de desleixo. Para as aves, porém, este é o jardim ideal. É possível produzir um jardim com nichos variados e uma aparência mais natural, com árvores, arbustos e capins, sem transmitir a idéia de desleixo.

Também é possível explorar a madeira de uma mata natural minimizando drasticamente o impacto ocasionado pela diminuição de nichos ecológicos. Isto pode ser conseguido pela técnica do manejo sustentado de matas, que consiste na fragmentação da área a ser explorada em um número de partes correspondentes ao número de anos necessários para que a regeneração da vegetação ocorra. Esta prática pode, inclusive, aumentar a diversidade de nichos, possibilitando o aparecimento de vegetações em diferentes estágios da sucessão ecológica, além de aumentar a produção do ecossistema, pelo aumento da incidência de luz e reciclagem de nutrientes. "Corredores ecológicos" (constituídos de faixas contínuas de vegetação não manejada que servem para interligar as áreas manejadas) devem ser poupados de corte nestas áreas de manejo, e também nas cidades. Eles servem como barreiras contra ventos, reservas de esconderijos e "meio de transporte" para diversas espécies. Utilizei esta estratégia de "corredores ecológicos" com bons resultados, em um cerrado no município de Paracatu, estado de Minas Gerais. O resultado estético também foi positivo.

A construção de abrigos artificiais onde as aves possam construir seus ninhos é recomendável, principalmente se os esconderijos naturais forem escassos.

Continua no próximo número.

 

 

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