A Conservação das Aves

Marco Antonio de Andrade - Belo Horizonte-MG

A população de nosso planeta vem aumentando a cada dia em ritmo acelerado. Um número crescente de pessoas necessita de mais recursos naturais para viver, incluindo alimento, combustível e matérias-primas para roupas, ferramentas, máquinas etc. Como estes recursos geralmente são extraídos diretamente do meio ambiente natural, rapidamente estas áreas são destruídas para satisfazer as necessidades humanas. Com a perda das áreas naturais também observamos a destruição do hábitat necessário para a sobrevivência das espécies de fauna, incluindo as aves. Assim, quando não existe mais hábitat preservado no qual podem viver e reproduzir, os animais caminham para a extinção.

Algumas atividades humanas produzem desperdícios orgânicos e inorgânicos que, tratados de forma inapropriada retorna às áreas naturais, incluindo as vias aquáticas. O perigo que os inseticidas constituem para muitas aves, como codornas, perdizes, anus, bacuraus, andorinhões, andorinhas, bem-te-vis, papa-moscas e outras, é um fato de grande seriedade. Há indícios de que até os urubus estão escasseando; o fato de serem necrófagos não os protegem contra a ação fatal dos inseticidas. A poluição industrial e a provocada por óleo despejado pelos navios causam o extermínio das aves aquáticas e marinhas. A contaminação ambiental é tão perigosa para a fauna como para a espécie humana.

Desde o ano de 1600, as atividades humanas causaram a extinção de aproximadamente 80 espécies de aves, o que significa que estas espécies desapareceram para sempre. Quando uma espécie sofre a perda de seu hábitat e a diminuição de sua população devido a fatores naturais ou causados pelo homem, dizemos que esta espécie encontra-se ameaçada. Se a espécie está criticamente ameaçada, então é considerada em perigo de extinção. Já a espécie considerada rara é aquela que dispõe de número reduzido de exemplares os quais poderão estar concentrados numa pequena área ou esparsamente distribuídos em extensa região.

A destruição acelerada do ambiente natural sob o duvidoso pretexto do progresso submete a nossa avifauna ao maior perigo. Dizem com razão: a ave já não pode viver sem a colaboração do homem, nem o homem sem a ave.

Existem aproximadamente 3000 espécies de aves na América do Sul e Central, das quais cerca de 400 estão agora ameaçadas, principalmente como resultado da exploração e destruição dos hábitats naturais pelo homem. No Brasil, cerca de 115 espécies de aves estão ameaçadas de extinção (segundo lista oficial do IBAMA/1989). São numerosas as ameaças que enfrentam as aves no Continente Americano, sendo a destruição de hábitats a maior ameaça para a sobrevivência das aves em todo o mundo. No Brasil, o maior perigo para a avifauna se concentra na faixa litorânea, onde temos o registro de mais de 28 espécies ameaçadas de extinção como os Cracídeos: Crax blumenbachii, Mitu mitu mitu e Pipile jacutinga. No Estado de Minas Gerais, onde temos cerca de 30 espécies de aves ameaçadas, a mata atlântica e o cerrado (incluindo as matas ciliares e as veredas) estão seriamente ameaçados devido aos intensos desmatamentos e queimadas descontroladas.

Da maior importância para a conservação da avifauna brasileira é o reflorestamento com espécies vegetais nativas, principalmente aquelas apreciadas pelas aves. É impossível recuperar a fauna em monoculturas exóticas como Eucalipto, Pinus e outras. Muitas aves, sobretudo as endêmicas, não são capazes de se adaptar a um ambiente radicalmente modificado. É preciso recuperar áreas de Reservas e Parques que estão degradadas, reflorestar encostas de morros e montanhas, margens de rios, córregos, lagoas e represas, proteger nascentes e cachoeiras, e incentivar a criação de Refúgios Particulares de Animais Nativos ou Santuários de Vida Silvestre.

A conservação de aves migratórias também é de fundamental importância. Para que uma espécie migratória possa sobreviver, deve ter um hábitat adequado em cada área onde passa parte do ano. Por esta razão, a conservação de espécies migratórias representa um caso especial, já que as aves se movimentam de um lugar para outro em diferentes épocas do ano. No Brasil recebemos, anualmente, a visita de cerca de 143 espécies de aves. Como exemplo de algumas aves migratórias mais comuns citamos: tesourinha, colhereiro, jaburu, garças, marrecas, maçaricos, trinta-réis, príncipe, juruviara e outras.

Como exemplo da conservação de áreas onde ocorrem aves migratórias, foi criado no Rio Grande do Sul o Parque Nacional da Lagoa do Peixe a fim de proteger e estudar várias espécies de aves limícolas migrantes da América do Norte. Em ilhas do litoral do Espírito Santo, perto de Vila Velha, são protegidas, estudadas e anilhadas algumas espécies de andorinhas-do-mar que nidificam anualmente nestas ilhas. A costa do Maranhão e Pará também é um dos principais locais de concentração de aves migratórias já conhecidos no Brasil.

Locais de Nidificação (chamados ninhais) também necessitam ser protegidos, como ocorre em Lagoa da Prata, Alfenas, Prudente de Morais, Varginha, Vazante e outros municípios do Estado de Minas Gerais, onde centenas de garças, socós e biguás nidificam em colônias no verão e depois migram para outras áreas. No Pantanal Matogrossense, onde encontramos a maior concentração de ninhais no país, nidificam também colhereiros, cabeças-secas e jaburus.

A conservação e estudos de aves ameaçadas de extinção, raras ou endêmicas e, principalmente, de seus hábitats é de vital importância e deve ter prioridade. Como exemplo de ações, apoiada pelo CIPA - Conselho Internacional para a Preservação das Aves, foi criada em Minas Gerais (municípios de Januária e Itacarambi) a Área de Proteção Ambiental do Vale do rio Peruaçu, com o objetivo de conservar a biodiversidade da região, o patrimônio arqueológico e espeleológico e proteger aves endêmicas e ameaçadas de extinção, como o arapaçu-do-São Francisco (Xiphocolaptes franciscanus), o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus) e o zabelê (Crypturellus noctivagus).

Outro exemplo em Minas Gerais é o Parque Nacional da Serra da Canastra, onde ocorre o raro e ameaçado pato-mergulhador (Mergus octosetaceus), que inclusive nidifica nesta Unidade de Conservação, e o endêmico e também ameaçado Rinocriptídeo (Scytalopus novacapitalis).

A assustadora devastação a que se assiste por todo lado, ameaça seriamente a existência de muitas espécies, pois a diminuição, a cada dia maior, das áreas que necessitam para viver e reproduzir, representa uma conseqüente diminuição de suas populações. Somente as poucas espécies que conseguem se adaptar a um novo ambiente, ou ao ambiente modificado pelo homem, conseguem sobreviver. A extinção é para sempre!

Conhecer a avifauna - isto é, os nomes das espécies, seus hábitos e sua vida - mantendo um contato direto com a natureza, é um dos primeiros passos para se preservar a fauna. Devemos amar as aves vivas, no seu hábitat natural, com suas belas cores e seus variados cantos, não só como adorno da natureza mas na sua tarefa de equilíbrio ecológico, e não somente como prato culinário, ou engaioladas, ou ainda empalhadas como troféu.

É preciso conscientizarmo-nos de que somos responsáveis pela preservação das maravilhas da natureza, e que precisamos conhecê-las melhor, para saber como preservá-las. Esta é uma tarefa civilizatória.

A CONSERVAÇÃO DAS AVES NO BRASIL

O Brasil abriga em seu território cerca de 1.635 espécies de aves, entre residentes e migratórias, correspondendo a mais da metade das aves existentes na América do Sul. Algumas dessas aves chegam aqui periodicamente, vindas de outras partes do globo em suas migrações anuais, passando algumas etapas de seu ciclo de vida em nosso país.

Para coordenar e desenvolver estudos visando a conservação e manejo das aves silvestres migratórias, bem como os ambientes nos quais elas vivem, foi criado em 1977 o Centro de Estudos de Migrações de Aves - CEMAVE (atualmente denominado Centro de Pesquisas para Conservação das Aves Silvestres, sediado em Brasília e vinculado ao IBAMA.

O CEMAVE é o único Centro com estes objetivos na América Latina, que mantém o sistema brasileiro de anilhamento, sendo a principal fonte de obtenção de informações biológicas necessárias para a conservação das aves silvestres.

ANILHAMENTO E CONSERVAÇÃO

O anilhamento (técnica de marcação de aves com anéis metálicos numerados) foi implantado inicialmente com o objetivo de controlar migrações, no entanto, seus excelentes resultados permitiram a expansão da técnica para uso em outros aspectos do estudo da biologia das aves.

Atualmente os dados obtidos com o anilhamento, tais como: o balizamento de rotas de migração, a longevidade das espécies, os deslocamentos de locais de alimentação e nidificação, distâncias percorridas, alterações ambientais, peso, mudas e condições físicas da ave capturada, além de outras informações também importantes, são cada vez mais utilizados na conservação das espécies.

As anilhas do CEMAVE apresentam um código formado por uma letra e cinco números que nunca se repetem. Cada anilha apresenta a seguinte frase: AVISE CEMAVE - C.P. 04/034 - Brasília, DF, que é para onde se deve enviar a informação do seu encontro.

COMO PARTICIPAR DESTE MOVIMENTO E COLABORAR COM O CEMAVE:

O conhecimento e a colaboração são fatores preponderantes para o êxito deste importante trabalho desenvolvido pelo CEMAVE. Quando alguém encontrar uma ave com o anel, deve anotar a letra, os números, a data e o local do encontro e guardar o anel. Se a ave estiver viva não se deve retirar o anel, somente anotar as informações, soltar a ave e escrever para o CEMAVE. O colaborador receberá um certificado, consolidando assim sua aliança com a preservação das aves. Os dados enviados ao Centro em Brasília são arquivados, possibilitando o conhecimento da história de cada espécie, com informações sobre tempo de vida, rotas migratórias, época de reproduçÃo e outras.

ATUAÇÃO DO CEMAVE:

Além de coordenar o anilhamento das espécies de aves silvestres no Brasil e Antártica, o CEMAVE atua diretamente na obtenção de dados de quatro grupos de aves:

Aves migratórias continentais:

Conforme estabelecido na Convenção sobre Conservação da Flora, Fauna e Belezas Cênicas das Américas, o Brasil deve atuar em cooperação com outros países para conservar as aves migratórias do continente. Os principais pontos de concentração já conhecidos no Brasil são o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no litoral do Rio Grande do Sul e a Costa do Maranhão e Pará. Aves marcadas em diversos locais do Brasil são observadas juntas na costa leste americana, antes de migrarem para os seus sítios de reprodução no Ártico Canadense.

Espécies de caça:

As espécies de caça são monitoradas pelo CEMAVE através do anilhamento. Os resultados demonstram, por exemplo, que a maior parte das marrecas da Portaria de caça no Rio Grande do Sul reproduz-se na região do Baixo Rio Paraná, na Argentina. Assim, se conhecemos a população de marrecas existentes em determinada região e o número de filhotes criados a cada ano, podemos estimar o número limite de aves que poderão ser abatidas durante a estação de caça sem que a espécie sofra qualquer perigo de extermínio.

Aves com nidificação colonial:

Várias aves reproduzem-se reunidas em grandes concentrações, denominadas colônias, cujos locais são chamados ninhais. Garças, colhereiros, socós, cabeças-secas e biguás nidificam dessa maneira no interior do Brasil, especialmente no Pantanal Matogrossense. Em Minas Gerais existem importantes ninhais localizados nos municípios de Lagoa da Prata, Iguatama, Prudente de Morais e Alfenas. Ao longo da costa, aves marinhas como trinta-réis (em ilhas no Espírito Santo), gaivotas, atobás e fragatas (em ilhas no litoral do Rio de Janeiro e Santa Catarina) também juntam-se para a postura de ovos e criação dos filhotes. O CEMAVE monitora as colônias de aves já conhecidas e busca mapear as restantes no país.

Aves ameaçadas de extinção:

Visando a preservação e melhor conhecimento de sua biologia, várias espécies ameaçadas de extinção estão sendo estudadas pelo Centro, incluindo a Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), o Guará (Eudocimus ruber), a Andorinha-do-mar-de-bico-amarelo (Sterna eurignatha) e o Flamingo (Phoenicopterus ruber). A reintrodução do Mutum-do-sudeste (Crax blumembachii) na natureza também vem sendo apoiada e acompanhada pelo CEMAVE, na bacia do rio Doce, leste de Minas Gerais.

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Texto do livro A VIDA DAS AVES. Proibida reprodução sem autorização expressa do autor.

 

 

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