Considerações sobre práticas de conservação de aves

Sérgio Ulhoa Dani - Belo Horizonte-MG

(Continuação do número anterior

Como material adequado deve-se utilizar a madeira ou os compensados de madeira, que são recicláveis e bons isolantes térmicos, além de permitir transpiração adequada. O tamanho do orifício de entrada é muito importante na definição do tipo de ave que irá ocupar o abrigo. É preciso ter sempre em mente que orifícios maiores que 28 mm de diâmetro poderão permitir que pardais, que não são aves ameaçadas, se apoderem do abrigo em áreas urbanas, em detrimento de outras espécies mais raras e ameaçadas nestas áreas.

Há um tipo diferente de abrigo para cada espécie de ave. Para a confecção de um abrigo deve-se observar o tamanho da ave, inspirando-se sempre que possível no aspecto dos ninhos naturais de cada espécie. O abrigo deve ser fixado muito bem a uma haste ou suporte (de preferência um tronco de uma árvore), de tal modo que não seja balançado pelo vento. Evita-se, assim, que o abrigo se choque contra o suporte. Para a limpeza, o material do ninho antigo deve ser completamente removido, depois do período da procriação, quando se estiver seguro de que o abrigo não está mais ocupado. É preciso ter cuidado nesta operação, pois marimbondos, vespas e abelhas podem estar alojados no abrigo.

Para aves de rapina (águias, gaviões e falcões) podemos construir diferentes estruturas artificiais para nidificação. O local selecionado para instalação de uma plataforma, onde a ave irá construir o ninho, geralmente é no topo de um tronco de árvore ou poste de madeira. As aves de rapina preferem locais altos e de difícil acesso.

Alimentação artificial

Oferta de alimentação artificial pode acostumar mal as aves, tornando-as dependentes. Com a comodidade representada pela alimentação artificial, as aves deixam de buscar insetos, frutas e sementes por conta própria, deixando também de exercer seu papel no controle biológico, na polinização e na dispersão de sementes. Por outro lado, a alimentação artificial continuada propicia que exemplares mais fracos e doentes também sobrevivam. Eles passam então a representar "concorrentes desleais" para outros exemplares e espécies mais ameaçadas, na constante disputa por nichos ecológicos.

Acresce que um grande número de aves morrem porque os recipientes que contêm o alimento ofertado não são adequadamente limpos, favorecendo a proliferação de bactérias e fungos patogênicos.

Restos de comida, manteiga ou margarina, alimentos condimentados ou açucarados não se prestam como alimentos para estes animais. Até mesmo pequenas quantidades de sal, geralmente disponíveis em cochos distribuídos pelas pastagens para o gado, são mortais para as aves. Neste último caso, o problema pode ser contornado pelo uso de cochos com tampas basculantes, que toda rês rapidamente aprende a abrir, empurrando com o focinho, toda vez que deseja comer sal ou misturas minerais. Isto representa dupla vantagem para o pecuarista porque, graças ao cocho basculante, um número maior de aves fica protegido e as perdas com mistura mineral ocasionadas pelo vento, chuva e consumo desregrado ficam sensivelmente diminuídas.

Até mesmo os bebedouros artificiais construídos para o gado podem representar um perigo para as aves, principalmente se o nível da água é mais baixo que a altura das bordas do tanque. A ave poderá cair no bebedouro e morrer afogada, por não conseguir subir pelas bordas elevadas. Uma solução consiste em preparar uma bóia que flutuará na superfície, como uma «ilha salva-vidas», presa ao fundo do bebedouro. Outra solução é utilizar bebedouros com bordas suaves, «espraiadas», ou fazer pequenas «praias» flutuantes, de madeira ou borracha, atadas às bordas do tanque ou bebedouro. Estas «praias» artificiais sobem e descem de acordo com o nível da água no bebedouro, e são particularmente recomendáveis para os bebedouros tipo «australiano». Vale lembrar que as caixas-d'água sem tampa, ou mal-tampadas, também oferecem perigo às aves, além de serem criadouros de mosquitos.

Há casos especiais em que alimento artificial poderá ser oferecido às aves. Por exemplo, durante períodos prolongados de estiagem; em regiões agudamente desmatadas e pobres em alimento; após uma tragédia ecológica como uma queimada em grandes extensões, ou durante tentativas de reintrodução em um hábitat estranho. Nestes casos, o alimento será depositado em local protegido do vento e da chuva, em comedouros ou silos, de tal modo construídos que a água da chuva ou o vento não possam entrar. Isto pode ser conseguido, por exemplo, construindo-se pequenas coberturas e quebra- ventos de madeira, acoplados aos comedouros ou silos. Uma limpeza rigorosa do local onde o alimento é depositado deve ser feita periodicamente, com água e escova limpas.

O alimento oferecido deve ser apropriado aos hábitos alimentares de cada espécie. Misturas obtidas no comércio, frutas frescas picadas em pequenos pedaços, passas e outras frutas dessecadas, nozes e castanhas (sem sal!), sementes diversas como alpiste, painço, aveia, farelo de milho e sementes-de-girassol podem ser utilizadas para a alimentação de diversas espécies.

Sebo de boi não beneficiado poderá ser derretido e misturado com farelo, em igual proporção, e enriquecido com sementes-de-girassol ou outras sementes. Esta mistura será vertida, ainda quente, em uma vasilha. Depois de solidificada, poderá ser pendurada em local de fácil acesso para as aves.

A alimentação artificial deve ser gradualmente retirada, tão logo cesse de existir a condição que a justifique. É preciso ficar atento contra possíveis predadores ou intrusos nos locais de alimentação artificial.

Objetos estranhos

As aves possuem visão aguçada para objetos estranhos, coloridos e brilhantes. Tocos de cigarro, pedaços de vidro, pregos, fios de nylon, tampinhas, pedaços de plástico e outros materiais poderão chamar-lhes a atenção e serem deglutidos, com conseqüências desastrosas para os animais. Aves como a ema, que ingerem pedaços de arame, vidros e pregos, poderão ter o estômago perfurado. Todo esforço deve ser tentado para reduzir a poluição ambiental e evitar estes tipos de danos.

Aves em aeroportos e outros locais públicos

A presença de aves pode representar um risco para a aviação. Algumas pistas de aeroportos são visitadas por quero-queros, curiangos e pequenos pássaros. Uma ave capturada pela turbina de um avião a jato poderá danificar seriamente a turbina, com riscos para a ave e para os ocupantes da aeronave. Já existe, nos principais aeroportos do mundo, serviços de monitoramento e controle de deslocamento de aves, para evitar este tipo de acidente.

Pombos e pardais são atraídos pelos restos de comida e pelas possibilidades de abrigo em locais públicos. Isto costuma ocasionar problemas sérios provocados pelo acúmulo de seus dejetos, que podem ser veículos de patógenos, além de sujarem os locais públicos. Portanto, deve-se evitar dar alimento a estes animais e cuidar para que o lixo tenha destinação apropriada, se possível, adotando a prática recomendável da reciclagem. Para evitar que pombos posem em locais indevidos, pequenos espetos de metal estrategicamente colocados são de grande valia.

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Texto do livro A VIDA DAS AVES. Não pode ser reproduzido sem autorização expressa do autor.

 

 

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