A EXTINÇÃO DE AVES E O HOMEM

Herculano M. F. Alvarenga - Taubaté-SP

A extinção é um fenômeno natural. Todas as espécies caminham inevitavelmente para a extinção, num processo quase que em oponência ao de especiação em que novas espécies são formadas.

Freqüentemente se observa que o triunfo de algumas espécies implica no desaparecimento parcial ou completo de outras.

O homem tem sido, em todo o Planeta, a espécie de maior triunfo e, sem dúvida, o maior causador de extinções que já apareceu. O conhecimento deste fato nos leva a uma tomada de consciência, nos obrigando a tomar as atitudes de conservacionismo, que hoje felizmente muitos já adotam, uns por conhecimento, outros por modismo, mas, a melhor compreensão dos fatos com certeza reforça essa medida.

Em tempos pré-históricos, o homem se espalhou do norte da África para todas as partes do mundo; ocupou ou passou praticamente por todas as ilhas do planeta, como Madagascar, Austrália, Nova Zelândia, Papua, Bornéo, bem como as incontáveis ilhas menores como Havaí, Nova Caledônia, Fiji, Tonga, Páscoa e muitas outras no Pacífico, Atlântico e Índico.

Em tempos históricos, o homem «civilizado»" foi redescobrindo todas essas terras e descobrindo outras novas. Seus relatórios escritos documentavam passagens pela ilha de Mauricius (Oceano Índico), onde os navios podiam se abastecer com dôdos (Raphus cucullatus), espécie de pombo com asas reduzidas, do tamanho de um peru, indefesos e fáceis de se apanhar (o nome vem do português "doido"). Os navios também se abasteciam em Madagascar, onde o ovo de Aepyornis, com casca muito resistente, com volume de uns 2 galões, era muito útil para se envasilhar o run. Na América do Norte o homem deve ter sido responsável direto ou indireto pela extinção dos periquitos da Carolina (Conuropsis carolinensis) e da pomba passageira (Ectopistes migratorius).

Recentes trabalhos de escavações arqueológicas e paleontológicas, vêm esclarecendo melhor a grande catástrofe feita pelo homem em tempos pré-históricos e mesmo históricos.

Estimativas feitas por Olson (1989) mostram que a Nova Zelândia tem hoje 52 espécies de aves endêmicas; destas, pelo menos 9 estão seriamente ameaçadas. Em tempos históricos outras 12 espécies e em tempos pré-históricos outras 32 espécies também, endêmicas. Isso significa que quando o homem atingiu a Nova Zelândia, lá se encontravam pelo menos 96 espécies de aves endêmicas e o homem extinguiu 46% desses endemismos.

Estudo semelhante feito para a Nova Caledônia (Balouet et Olson, 1988) revela que o homem extinguiu cerca de 40% da avifauna endêmica, entre as quais megapodídeos, pombas, ralídeos, e uma interessante forma gigante e não voadora de Galliformes (Sylviornis). Para o Havaí, Olson (1989) calcula que o homem tenha extinguido nada menos que uns 69% da avifauna endêmica, entre as quais se contava com algumas formas de íbis e vários gêneros de anatídeos (gansos) de grande porte e não voadores.

O ecossistema insular, na ausência de predadores, parece ter facilitado o gigantismo e a perda de vôo para as aves (Feduccia, 1980), fazendo das mesmas uma presa das mais interessantes aos famintos marinheiros que se abasteciam nas ilhas.

Olson (1989) calcula que pelas ilhas da Oceania, foram exterminadas centenas de espécies de ralídeos não voadores pelo homem nos últimos 2 mil anos; extrapola ainda que cerca de um terço das espécies de aves do mundo são endêmicas de ilhas, e se o homem reduziu de 30 a 50% o número de espécies insulares, isso pode se chamar de uma das maiores catástrofes da história da Terra.

Na América a história foi a mesma para as ilhas da América Central. Em Cuba o homem extinguiu um condor, corujas, águias (Arredondo, 1976), além de uma lindíssima arara vermelha (Ara tricolor); em outras ilhas do Caribe, embora ainda pouco estudada, a lista já se estende a diversas aves e mamíferos.

No Atlântico Sul, na ilha de Santa Helena, Olson (1975) descreveu 6 espécies recentemente extintas e, na Ilha Fernando de Noronha, Olson (1981) assinala um ralídeo de médio porte, com asas atrofiadas (ainda não descrito), além de um rato cricetídeo, ambos extintos pelo homem.

Para as extensões continentais, o impacto do homem parece não ter tido as proporções tão desastrosas como nas ilhas; na verdade esse impacto deve ter efeito mais retardado. Na América do Sul, a avifauna do Pleisto-Holoceno é ainda mal conhecida. Campbell (1976, 1979) descreveu nada menos que 6 gêneros e 28 espécies que se extinguiram no Peru e Equador por ocasião da ocupação do homem, mas provavelmente causadas por alteração ambiental, com a desertificação provocada pelo último período glacial.

Durante a última glaciação (de 11 a 13 mil anos), as florestas tropicais da América do Sul foram extremamente reduzidas, como que distribuídas em «ilhas» ou «refúgios» e certamente os ambientes áridos eram muito mais extensos. Vivendo-se hoje uma fase quente e úmida do Holoceno, parece que as florestas tropicais não estariam muito ameaçadas, mas sim os ambientes áridos.

É uma realidade o fato das espécies mais ameaçadas serem espécies de climas áridos, talvez em virtude da diminuição dessa área ou mais certamente pelas alterações impostas a esses ambientes. Os exemplos principais são: Taoniscus nanus, Cryturellus zabele, Cyanopsita spixii, Anodorhynchus leari, Anodorhynchus galucus, Ara rubrogenis, Ara glaucogularis, todas espécies seriamente ameaçadas.

Outra realidade é que felizmente não temos conhecimento de nenhuma espécie de ave endêmica continental da América do Sul, extinta pelo homem. Anodorhynchus glaucus talvez seja a primeira, embora seja possivelmente co-específica com A.leari. Outro exemplo pode ser Mitu mitu, se for considerado especificamente separado de Mitu tuberosus. Outra candidata muito séria é sem dúvida Cyanopsitta spixii, cujo único exemplar conhecido na natureza, parece ainda relutar contra a extinção no norte da Bahia.

As causas de extinção podem ser divididas em: natural quando o processo é levado por alterações ambientais naturais; e provocada quando é induzida pelo homem; neste último caso, as extinções provocadas podem ser diretas quando causadas diretamente pelo homem (dodo) ou indiretas quando provocadas por ações indiretas, como introduções de novas espécies competitivas ou destruição do meio ambiente.

Nos ecossistemas insulares a introdução do rato doméstico, cabras, porcos e outros animais são apontados como causadores indiretos da extinção de muitas espécies.

Nas áreas continentais parece que a ação direta do homem é menos eficiente como provocadora de extinções. Na América do Sul, obviamente no Brasil, o perigo da extinção parece rondar mais as espécies de climas áridos sendo causada por alterações ambientais nem sempre fáceis de se diagnosticar. Entre essas alterações devem sempre ser lembradas a introdução do gado bovino e a agricultura, ambas com suas múltiplas implicações ecológicas, como o uso de agrotóxicos, introdução de novas espécies de capim, e cereais em extensas áreas de monocultura que freqüentemente nos orgulha pelo desenvolvimento que vem apresentando nos cerrados brasileiros.

 

REFERÊNCIAS

Arredondo, O. 1976. The Great Predatory Birds of the Pleistocene of Cuba. Smithsonian Contributions to Paleobiology; 27: 169-187.

Balouet J. C. & Olson, S. L., 1989. Fossil Birds from the Late Quaternary deposits in New Caledonia. Smithsonian Contribution Zoology; 469: 1-38.

Campbell, K.E., 1976. The Late Pleistocene Avifauna of La Carolina, Southwestern Ecuador. Smithsonian Contribution to Paleobiology; 27: 155-168.

Campbell, K.E., 1979. The Non-Passerine Pleistocene Avifauna of the Talara Tar Seeps, Northwestern Peru. Life Sciences Contribution Royal Ontario Museum 118 ; 203 pp.

Feduccia, A. 1980. The Age of Birds. Harvard University Press, 169 pp.

Olson, S.L., 1975. Paleornithology of St. Helena Island, South Atlantic Ocean. Smithsonian Contributions to Paleobiology. 23: 1- 53.

Olson, S.L., 1981. Natural History of Vertebrates on the Brazilian Islands of the Mid South Atlantic. National Geographic Society Research Reports, vol. 13: 481-492.

Olson, S.L., 1989. Extintion on Islands: Man as a Catastrophe.in D. Western & M. Pearl, eds. Conservation Biology for the next Century. Oxford University Press.


 

O que é a SAPE

A Society of Avian Paleontology and Evolution - SAPE, é uma sociedade informal de ornitólogos interessados especialmente na anatomia, paleontologia, sistemática e evolução das aves.

Durante os Congressos Internacionais de Ornitologia, um grupo sempre se reuniu, liderado especialmente pelo saudoso mestre Pierce Brodkorb, para discutir seus trabalhos em paleontologia e evolução de aves. Uma reunião especial neste tema foi montado na cidade de Lion, França, com a apresentação de 18 trabalhos coordenados por Cécile Mourer-Chauviré que foram publicados sob o título «L'Evolution des Oiseaux d'Après le Temoignage des Fossiles». Esse encontro histórico marcou o início da SAPE.

O grupo novamente se reuniu em junho de 1986 por ocasião do 19º Congresso Internacional de Ornitologia, em Ottawa, resolvendo que os encontros se dariam regulamente a cada 4 anos, intercalados com os Congressos Internacionais de Ornitologia.

O segundo encontro fora realizado no Museu de História Natural de Los Angeles em setembro de 1988, comemorando os 80 anos de Pierce Brodkorb. Ele reuniu perto de 175 especialistas de uns 30 países, com a apresentação de mais de 40 trabalhos coordenados por K.E. Campbell, que foram publicados pelo Museu de Los Angeles num volume de 491 páginas: «Papers in Avian Paleontology».

O terceiro encontro foi realizado em junho de 1992 em Frankfurt no Museu de Senckenberg com mais de 30 trabalhos, conferências e exibições promovidas e coordenadas por D. Stefan Peters.

O Brasil esteve presente no segundo e terceiro encontros da SAPE, representado por Herculano Alvarenga com as apresentações dos trabalhos: «A New Flightless Landbird from the Cretaceous of Patagonia» em Los Angeles e «A Giant Anhinga from the Miocene of Chile» em Frankfurt.

O próximo encontro da SAPE será em 1996 em Washington D.C. e o anfitrião Storrs Olson. Os interessados no tema e na participação do boletim anual da SAPE podem escrever para Dr. Cécile Meurer- Chauviré (a secretaria): Dept. des Sciences de la Terre - Université Claude Bernard - 27-43 Boul. du 11 novembre - 69622 Villeurbanne Cedex France.

 

 

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