Comportamento de aves em associação com outros animais

Yoshika Oniki e Alexsander Z. Antunes - UNESP, Rio Claro-SP

Algumas espécies de aves são conhecidas por se associarem e formarem guildas de seguidores de invertebrados como, por exemplo, as formigas de correição (Eciton burchelli, Labidus praedator Willis e Oniki 1978, 1988), usando-as como batedores para a obtenção de alimentos. Outros seguem vertebrados, notadamente macacos (Terborgh 1903, Boinski & Scott 1988, Siegel et al. 1989, Ferrari 1990, Egler 1991). No Brasil, estas associações são comumente observadas pelas pessoas que frequentam as matas Atlântica ou Amazônica. Sick (1985) cita algumas espécies de aves que possuem hábitos semelhantes a garça- vaqueira (Bubulcus ibis e a garcinha-branca (Egretta thula, Ardeidae), seguindo ou em cima de animais em locais de capim alto para ampliar o campo visual e conseguir presas afugentadas; o cancão-de-anta (Daptrius ater) que tira carrapatos da anta e dos veados; o carrapateiro Milvago chimachima), o chimango Caracara chimango) e o caracara-comum (Caracara plancus), todos da família Falconidae, que retiram carrapatos e bernes de bois e cavalos; o anu-preto (Crotophaga ani, Cuculidae) que, ao contrário da opinião geral, não se utiliza muito dos carrapatos (Moojen 1942) e sim dos insetos espantados pelo gado; o suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosus, Tyrannidae) e o chopim- gaudério (Molothrus bonariensis, Icteridae). As hipóteses levantadas para explicar tal fato são o de benefícios na eficiência no forrageamento ou o decréscimo do risco de predação (Morse 1970, Powell 1985), uma vez que em guildas, aves com tipos diversos de forrageamento se completam e se protegem mutuamente.

Antes dos desmatamentos e da introdução da pecuária, as aves utilizavam-se de cervídeos, da anta (Tapirus terrestris e da capivara (Hydrochaeris hidrochaeris) para seus batedores. Atualmente, em áreas abertas seguem o gado (Moojen 1942), os cavalos, e até os porcos (Sick 1985) ou tratores em movimento durante a aração do campo.

O presente trabalho relata sobre essa interessante forma de aquisição de alimento por espécies de aves e o seu comportamento em associação com cavalos no campus da Universidade Estadual Paulista de Rio Claro. As observações foram efetuadas no decorrer de um outro projeto. Próximo ao portão de entrada do campus, uma grande área de gramado se antepõe aos diversos prédios destinados aos diferentes departamentos. Nesse gramado, ocasionalmente, três cavalos movimentam-se e alimentam-se.

No dia 4 de setembro de 1993, às 08:05, um casal de Machetornis rixosus correu ao encontro de um dos cavalos e um Molothrus bonariensis desceu voando de uma árvore próxima, pousando no solo, ao lado da pata traseira de outro cavalo. No dia 5 de setembro, às 11:29, os 3 cavalos retornaram ao gramado, sendo recebidos pelo casal de Machetornis e 1 Molothrus que voaram ao seu encontro. Com o decorrer do tempo, o bando de Molothrus foi aumentando, chegando a 9 indivíduos às 12:12, quando os cavalos foram retirados. Nessa ocasião, os Molothrus permaneceram no gramado por mais algum tempo e os Machetornis deslocaram-se para se alimentar longe dos Molothrus.

A técnica utilizada por Machetornis rixosus para a obtenção de alimento consistiu em caminhar próximo às patas dianteiras e esperar que o erguer e o abaixar das mesmas espantasse a presa, que era então rapidamente capturada com um bote certeiro. Machetornis é uma ave extremamente adaptada à vida no solo, onde anda com elegância e caça com destreza. Em certos momentos, eles se aproximavam tanto das patas que parecia que poderiam ser esmagados por elas, mas quando o cavalo abaixava a cabeça para apanhar a grama, eles ficavam próximo às narinas e à boca. Já os Molothrus bonariensis pacientemente seguiam os cavalos próximos às patas traseiras. Quando um dos cavalos se deslocou mais rapidamente afim de se alimentar em outro local, Machetornis tentou acompanhá-lo perseguindo-o, a correr, cerca de 30 m, mas desistiu por não conseguir aproximar-se deles. No campus, não foi observado para esta espécie, o comportamento de pousar no dorso do cavalo, utilizando-o como posto de observação, hábito que lhe valeu o nome popular de suiriri- cavaleiro. Entretanto, no dia 14 de setembro, às 07:45, um Machetornis foi observado pousado no dorso de um cavalo parado em um gramado da parte sudoeste da cidade.

Nenhuma destas duas espécies depende exclusivamente do gado para obtenção do alimento, mas aproveitam-se deste recurso quando disponível. Machetornis é basicamente insetívoro e Molothrus pode ser considerado onívoro.

O casal de Machetornis estava alimentando jovens no ninho e, assim, observamos com freqüência os adultos capturando gafanhotos com o bico e carregando-os para o ninho que ficava no beiral de um prédio a 30 m de distância. Machetornis tem o hábito de caminhar lentamente pelo gramado, detectar uma presa, correr até ela, pegá-la e engoli-la (uma de cada vez). Observamos um dos adultos dissecar uma formiga grande e comer apenas o seu abdômen.

Interessante foi a observação comparativa que pudemos efetuar no método de coleta de alimento para filhotes entre Machetornis rixosus e Mimus saturninus: enquanto este último acumula gafanhotos na ponta do bico para depois carregá-los para o ninho, Machetornis alimenta-se pegando e comendo um ítem após o outro e carrega o último para os filhotes no ninho.

Posteriormente, no dia 7 de setembro, às 08:17, um dos Machetornis foi capturado, anilhado e também marcado (com cortes de penas da cauda) para um possível reconhecimento futuro. Quando manuseada, esta ave apresentou um vocalizar intenso e o comportamento de advertência que consiste em erguer o topete e mostrar as penas avermelhadas que, em outras ocasiões, permanecem ocultas entre as penas cinzentas da cabeça.

Bibliografia Citada

Boinski, S, & P.E. Scott. 1988. Association of birds with monkeys in Costa Rica. Biotropica 20: 136-143.

Egler, S. G. 1991. Double-toothed Kites following tamarins. Wils. Bull. 103: 510-512.

Ferrari, S. F. 1990. A foraging association between two kite species (Ictinia plumbea and Leptodon cayanensis) and Buffyheaded Marmoset (Callithrix flaviceps) in southeastern Brazil. Condor 92: 781-783.

Moojen, J. 1942. Observações sobre a alimentação do anu-preto (Crotophaga ani Linnaeus, Cuculidae). Bol. Mus. Nac., Zool. (4): 121-125.

Morse, D.H. 1970. Ecological aspects of some mixed-species foraging flocks of birds. Ecol. Monog. 40: 119-168.

Powell, G. V. N. 1985. Sociobiology and adaptive significance of heterospecific foraging flocks in the neotropics. Ornithol. Monog. 36: 713-732.

Sick, H. 1985. Ornitologia Brasileira, uma introdução. Ed. Univ. de Brasília, Brasília, DF.

Siegel, C. E., J.M.Hamilton & N.Rogerio Castro. 1989. Observations of Red-billed Ground-Cuckoo (Neomorphus pucherani) in association with tamarins (Saguinus) in northeastern Amazonia Peru. Condor 91: 720-722.

Terborgh, J. 1983. Five New World Primates. Princeton University Press, Princeton, New Jersey.

Willis, E. O. & Y. Oniki. 1978. Birds and army ants. Ann. Rev. Ecol. Syst. 9: 243-263.

Willis, E. O. & Y. Oniki. 1988. Aves na trilha das formigas carnívoras. Ciência Hoje, Rio de Janeiro 47: 26-32.

 

 

AO - SERVIÇOS - LINKS