Aves e Selos

G.Barat - França

«Terra, terra», grito do marinheiro Rodrigo de Triana do cesto da gávea do Niña. «Uma ilha bem pequena, logo bem maior, com uma lagoa central e muitas árvores e água».

Diário de bordo de Cristóvão Colombo, 12 de outubro de 1492

Isto aconteceu há quinhentos e um anos atrás. Algumas horas mais tarde, numa manhã de 12 de outubro, os marinheiros maravilhados de Pinta, Niña e de Santa Maria, as três caravelas que saíram em 3 de agosto do porto andaluz de Palos de Monguer, chegando às margens da ilha Guanahani (chamada a seguir de ilha Watling e depois ilha San Salvador, do grupo de Lucayes ou Bahamas) batizada San Salvador como reconhecimento através da misericórdia divina que permitiu tal êxito.

Primeira viagem do navegador genovês que, depois de ter inutilmente solicitado o apoio de Dom João II de Portugal para sua procura das Índias partindo do oeste, viu sua audaciosa teoria aceita por Fernando de Aragon e Isabel de Castila, os reis católicos da Espanha. Com o apoio financeiro do rico armador Martin Pinzon que recruta os equipamentos e fornece dois dos três navios, a viagem pode ser concretizada. Um expedição que dura dois meses, cheia de inquietude, de dúvidas, de medo, tem seu triunfo final.

Relembramos esse evento, pois foi a partir disso que riquezas ornitológicas foram colocadas à disposição pelas generosas Américas. Daí chegaram os cardeais escarlates, os papas multicoloridos; os trupiais laranjas e suntuosos vôos de beija-flores, tangarás, tucanos, araras e papagaios. Um turbilhão único e infinito de plumas, de formas, de cores, um banho permanente para os olhos, uma mina inesgotável de observações para os ornitólogos.

Oito selos emitidos pela república de Cuba ilustram perfeitamente o esplendor do Novo Mundo, unindo intimamente fauna com povos indígenas. Um país, uma ave, um símbolo.

Sobre conquistadores, vemos brilhar, no fundo de uma floresta guatemalteca, a ave-deus, o Quetzal (ver selo 1) Pharomachrus mocinno, venerado pelos Maias e seus sacerdotes que o capturavam a cada ano, dele obtendo as plumas da cauda para que ornassem o chefe dos príncipes. Como recusar de render homenagem a uma das mais belas aves do mundo, para chefe-de-cerimônia ornitológica, grande esmeralda vaporosa orlada de rubis das plumas caudais. Oh Quetzal divino, que de admiração para te e que de sacrifícios faz teu nome. Maravilhoso!

Depois de San Salvador, recompensa de uma travessia arriscada, Cristóvão Colombo fez rota em Cuba, a gigante do Caribe. Ele descobriu uma fauna tendo saído dos mais belos contos de fada encabeçada pelo Quetzal, Trogons ou Couroucous, aves calmas e solitárias da floresta de penas tanto macias como frágeis. O couroucou de Cuba (2) Priotelus temnurus é uma paleta viva de azul, verde dourado e de rosa, sublinhada de uma cauda escalonada recoberta em pequenas camadas. Seu arrulhado profundo cai do alto das árvores juntando um perfume de aventura aos mistérios da floresta. Belíssimo!

O navegador genovês visita a seguir uma terceira ilha que chamou de Hispaniola (Haiti), que fica entre a república Dominicana e Haiti. A ave é mais modesta, porém é um símbolo de paz. Columbigallina passerina (3), marrom manchada de vermelho nas asas, pertence ao grupo das pombas mais disseminadas no Caribe. Seus consumidores tinham a honra, senão a vantagem, de figurar no menu dos pioneiros corajosos muito acostumados outrora a privações severas.

Apesar desta característica, esta pomba representa a doçura de vida das ilhas encantadas. Que linda pomba!

É do Equador, ligado ao Peru em 1563, que nos vem uma ave tipicamente tropical, o barbu-toucan (4) Semnornis ramphastinus. De tamanho grande, impõe respeito com seu bico espesso ornado de longos fios firmes. As cores vivas da sua plumagem se fundem numa luz irisada da vegetação mas seu grito ruidoso e monótono torna-se insuportável no calor úmido. Que importa, barbu-toucan em vista de outros, continua lá, desde os primeiros colonos até os ecologistas da nossa época. É a sentinela da floresta e está sempre vigilante. Magnífico!

Abordado em 1541 por Pedro de Valdivia que fundou Santiago, o Chile se desenrola preguiçosamente ao longo do Pacífico. Ele nos oferece o gigante dos raptadores, o príncipe das montanhas andinas, Vultur gryphus, o condor gigante (5), três metros de envergadura e vinte e quatro libras de carne e de penas. Planando sem ruído por sobre cimos e abismos vertiginosos, seu ombro imenso é um traço de união entre a pesada terra e os espaços celestes impalpáveis. Formosíssimo!

Em 1536 Gonzalo de Quesada percorreu a Colômbia, vasto território que leva o nome do descobridor da América, mas que jamais o visitou. Ao longo do mato denso, bordeando os rios da Amazônia os conquistadores puderam ver voar um animal curioso, sobrevivente secular das primeiras aves com caracteres de répteis, o Hoazin (6), Opisthocomus hoazin. Longa cauda, crista «em batalha» sobre uma cabeça bem fina pintada de azul, o ninho sobre as águas e, milagre da natureza, os filhotes que caem são capazes de nadar e de voltar para a habitação natal graças a ajuda de garras pontudas da extremidade das asas. Este caráter réptil demora até a idade adulta para desaparecer, mas sempre intrigou os sábios mesmo depois de cinco séculos. É um dos últimos segredos da Amazônia. Único!

A este ser onírico sucede o vermelhão harmonioso e quente do tangará vermelho (7), Habia rubica, das imensidões argentinas, país conquistado em 1516 por Diaz de Solis, companheiro de Pizarro. Bico fino, corpo atarracado, freqüentando assiduamente mato denso e formigueiros, este belo pássaro ostenta um pequeno topete escarlate que porta nele toda a altivez do povo argentino. Lindíssimo!

Brasil, gigantesco Brasil! Depois da descoberta em 1500 por Pedro Álvares Cabral, em nome de Portugal, tem fauna, tem floresta, tem futebol e tem música que faz tour pelo mundo. Para reunir toda sua exuberância e seus contrastes, qual melhor escolha que uma ave esquisita, bela e sendo por sua vez, aquela que os índios Tupis chamaram «Toco» e que, de uma flecha de... pena, e tornando-se tucano. O tucano de Cuvier (8) Rhamphastos cuvieri e, como todos os membros da sua família, reconhecível entre todos: um bico enorme, encurvado e rico em cores mas sobretudo, graças a um tecido ósseo particular, de uma extrema leveza. Que ele usa para comer frutos e insetos, para beber a água de cavidade de árvores! Pode-se assim perdoar suas disputas barulhentas, seus gritos roucos e batidos. Amigo tucano, o Brasil é teu! Esplêndido!

Bem, esta bela viagem terminou. Ela durou menos tempo que aquela de um navegador obstinado, Cristóvão Colombo. Obrigado a Cuba pelos seus oito selos-lembranças, oito pinturas que são também razões para proteger um continente e que continue a fazer sonhar. Gostaria de fazer isso de novo daqui a outros quinhentos anos.

 

 

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