Os tangarás

Yoshika Oniki - Rio Claro-SP

Os representantes da família Pipridae, também chamados de tangarás ou dançadores, são conhecidos pela atraente plumagem dos machos e pelas danças em cerimônias de corte. As fêmeas e os machos jovens apresentam uma coloração esverdeada nas diferentes espécies, tornando a sua identificação no campo difícil. Nos anos 60, os tangarás machos (Pipra rubrocapilla) eram chamados de «uirapurus», taxidermizados e vendidos nas lojas de artigos regionais no centro de Belém, Pará, baseado na crença popular que os uirapurus trazem sorte no amor.

A família compreende cerca de 60 espécies, representadas principalmente na região amazônica mas algumas são encontradas na região sudeste. Recentemente, algumas espécies estão sendo ilegalmente aprisionadas em gaiola pela beleza de sua plumagem já que o seu canto não pode ser chamado de mavioso, como o dos sabiás (Turdus). Existem dificuldades em alimentá-los em cativeiro, e não são recomendados para ave de estimação.

Em anos recentes, um maior número de pessoas está se dedicando ao estudo de aves no Brasil e uma boa parte desses projetos envolve a captura em redes de neblina para anilhamento, ou melhor, identificação no campo. Compartilhamos aqui algumas de nossas experiências alertando para os cuidados que se deve ter com membros da família Pipridae.

Entre 1966 e 1968, trabalhando em captura de aves em Belém, Pará, observamos que Geraldo, o técnico que coletava amostras de sangue da veia jugular das aves, tomava o cuidado de deixar os piprídeos descansar mais tempo nos sacos de pano. Sua observação era que eles eram mais nervosos que os demais, o que dificultava sua tarefa de retirada de sangue, pois se debatiam muito. Posteriormente, durante os trabalhos de captura de aves em diversas localidades dos Estados de São Paulo, Pará, Amazonas e Mato Grosso, verificou-se que os tangarás ficam bastante emaranhados se se demora para visitar as redes e que, ao serem manuseados por mais tempo para sua retirada, eles parecem sofrer um efeito de estresse, inflando os sacos aéreos a ponto de morrerem sufocados. Não tivemos problemas com membros da família Pipridae, exceto com Chiroxiphia caudata, quando alunos novatos, no manuseio das aves, tentaram retirá-las das redes e demoraram muito tempo. Um aluno do curso de pós-graduação (Universidade Estadual Paulista), A. Cabral, tendo concluído um projeto com priprídeos na Amazônia, prosseguiu estudando-os no Estado de São Paulo. Encontrando o mesmo inflar de sacos aéreos em Chiroxiphia estressados, ele os perfurava, principalmente nos lados do pescoço, e a ave se recobrava. Não sabemos sobre as conseqüências para a ave de se ter os sacos aéreos perfurados, por falta de subseqüentes recapturas dos mesmos indivíduos. F. Novaes observou um macho de Pipra pipra no Amapá, que ao ser retirado da rede, tremeu e morreu quase instantaneamente (in litt).

Conversando com o Sr. Armando Assumpção, que apaixonado pelos Piprídeos, dedicou ao seu estudo 30 anos de sua vida, explicou que em raras ocasiões teve problemas com os piprídeos, mas que se perfurasse os sacos aéreos inflados com uma agulha hipodérmica, a ave se recuperava bem. Não houve problema posterior com suas aves, mantidas em cativeiro para estudos (com permissão da IBDF - atual IBAMA). Para «amansar» as aves novas para a vida em cativeiro, Assumpção utilizou gaiolas recobertas de pano entre outros cuidados técnicos. Em um grande aviário, cheio de plantas, imitando um pedaço de mata atlântica, ele estuda o comportamento dos piprídeos, filmando seus diferentes comportamentos, inclusive machos cortejando as fêmeas [SOBoletim 1985(5)] e conseguiu sua reprodução em cativeiro, descrito no Boletim da Sociedade Ornitológica Bandeirante, em 1985(6).

Portanto, recomenda-se uma maior atenção com os piprídeos quando manuseados após captura em redes de neblina. Conseqüências deste tipo de perda em projetos de anilhamentos para estudos populacionais podem causar um vício no tratamento dos dados. Por outro lado, a captura de tangarás para cativeiro pode ocasionar perdas maiores durante o manuseio e o transporte. De uma forma geral, a captura e aprisionamento de aves silvestres, inclusive os piprídeos, estão proibidos, exceto para projetos de pesquisa aprovados pelo IBAMA. Devemos estar alertas para o fato de que tendo levado ao desaparecimento na natureza, em algumas regiões, aves como o curió Oryzoborus angolensis e o bicudo Oryzoborus maximiliani, os «amantes» de aves em cativeiro voltam-se agora para aves como os piprídeos e os trinca-ferros Saltator similis.


 

O projeto de anilhamento de beija-flores no Brasil

Yoshika Oniki - São Carlos-SP

Piero Ruschi (filho de Augusto Ruschi) ajudando a retirar beija- flor de rede em Santa Tereza-ES - março de 1994

O projeto de captura de beija-flores iniciou-se em fins dos anos 70, quando visitamos a Estação Experimental do Instituto Agronômico, Reserva Biológica de Sete Barras e Carlos Botelho, em companhia de J. Dunning e sua esposa. Uma vez que o objetivo principal era a obtenção de dados morfométricos e coleta de ectoparasitas, era conveniente saber se uma determinada ave já havia sido capturada e trabalhada anteriormente. Assim, iniciou- se a marcação individual das aves pelo método de corte de penas que sabíamos não era ideal para um estudo a longo prazo.

Desde 1989 iniciamos as nossas expedições para o estado do Espírito Santo, concomitante com um pedido junto ao CEMAVE (Centro de Monitoramento e Anilhamento de Aves) para obtenção de anilhas para beija-flores. Uma vez que não havia nenhum projeto com anilhamento de beija-flores no Brasil, o CEMAVE não dispunha das anilhas e nem da verba para tal compra.

Com o continuar das expedições e com capturas de até 150 beija- flores por dia (número que sozinha eu conseguia trabalhar enquanto houvesse luz natural), tornava-se crítica a necessidade de marcar individualmente as aves. Finalmente, em junho de 1993, as anilhas chegaram graças a um acordo mútuo de cooperação científica entre o grupo de Ornitologia da UNESP (Universidade Estadual Paulista) e o grupo de fauna da Aracruz Celulose SA. Esta generosa doação possibilita agora a verificação dos movimentos e/ou da migração em beija-flores brasileiros, mas tal empreitada depende de grande número de aves marcadas e de tentativas de recapturas nas mais diversas localidades ao longo da mata atlântica.

As áreas visitadas até o momento incluem as reservas biológicas, parques e florestas nacionais, e fazendas e residências de particulares.

Até o momento temos anilhado cerca de 1.700 beija-flores de 30 espécies. Os resultados são bastante encorajadores em vista do pequeno número até hoje marcado mas, principalmente devido ao apoio de particulares que têm entrado em contato conosco colocando seus bebedouros, beija-flores e casa à nossa disposição para tentarmos a captura e a marcação dos beija-flores. Pretende- se prosseguir com o projeto por 10 anos ou mais e continuar ampliando as áreas de pesquisa.

Pessoas que proporcionam os bebedouros para beija-flores regularmente e que já contam com diversas espécies visitando-os poderiam nos contatar para incluirmos uma nova área para nossas pesquisas.

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Departamento de Zoologia - UNESP

Caixa Postal 199

13506-900 Rio Claro-SP

 

 

 

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