Observação de aves: uma arte, uma ciência, o lastro da ornitologia

Fernando Bignardi - São Paulo

Todo «passarinheiro» é um observador de aves. Pelo menos daquelas que mantém em cativeiro, mas nem todos tiveram a oportunidade de descobrir o deslumbre das aves na Natureza, em seu hábitat original.

A necessidade de observar animais em liberdade é condição «sine-qua-non» para o sucesso na criação dos mesmos em cativeiro. Muitas vezes não nos apercebemos disso porque seguimos orientações de amigos, dos livros especializados. Mas de onde surgiram essas informações?

Um exemplo disso aconteceu comigo. Há cerca de 3 anos tentava procurar o sabiá-cica Triclaria malachitacea, um psitacídeo atípico que ocorre no litoral brasileiro. É um «periquito» interessante, pois seu canto é melodioso como o de um sabiá- laranjeira. É de difícil criação (e até manutenção) em cativeiro, não só no Brasil, como também na Europa. Eu já mantinha um casal saudável há três anos. Quando os ganhei eram bem jovens e se adaptaram muito bem ao viveiro, até que na última primavera observei que namoravam muito e copulavam freqüentemente, mas nunca se interessavam por um ninho que sempre esteve à sua disposição. Esse ninho era de madeira com entrada em círculo. Como se usa geralmente para periquitos, papagaios etc.

Avistei algumas vezes sabiás-cica nas minhas idas à Serra do Mar litorânea. Observei-os principalmente no final do verão e outono, mas nunca encontrei um ninho freqüentado por eles.

Certo dia comentei com Dr. Hélio Camargo (emérito ornitólogo paulista, que nunca criou passarinho, mas sempre soube estudá-los através de suas incansáveis observações) as dificuldades que experimentava nas vãs tentativas de criar essas charmosas aves. Ele então comentou comigo que observara dois ninhos dessas aves na região de Bertioga-SP e que estavam descritos em um artigo que escrevera em 1976*. Gentilmente mandou-me uma cópia que dizia serem os ninhos em árvores ocas, com fendas de 35 cm de altura por 5 cm de largura.

Imediatamente confeccionei um ninho com entrada em fenda, nas medidas preconizadas. E assim que introduzi o novo ninho no viveiro o macho voou para a entrada vocalizando baixinho num «diálogo» com a fêmea. Já naquela noite começou a dormir no ninho e a corte se tornou mais intensa.

Esse é um claro exemplo da importância da observação na Natureza para o sucesso na criação.

Mesmo aqueles que não criam aves se deleitam com essa atividade. É uma delícia entrar no mato com binóculo seguindo um canto até identificar quem é o cantor. No começo ficaremos surpresos com a diversidade de aves que nunca tínhamos visto. Um exemplo comum é o maravilhoso tiê-sangue que comumente freqüenta as bordas das matas do litoral (tão freqüentado por todos nós) e raramente é percebido apesar de ser seguramente uma das aves mais lindas do Brasil.

Encontrar o desconhecido talvez seja um dos aspectos mais excitantes deste hobby. Observar uma ave que nunca tínhamos visto é sempre interessante. Anotar suas características (cor e forma do bico, colorido das penas e pernas, característica do vôo) são chaves que nos permitirão mais tarde classificá-la com a ajuda de um guia de aves (livro especializado) ou com o auxílio de um amigo mais experiente.

A observação de aves na Natureza é sem dúvida um complemento indispensável à avicultura.

Onde observar

Hoje em dia até cidades como São Paulo podem ser um local para observação de aves, basta estar atento. Foi-se o tempo em que as cidades eram habitadas apenas por pardais (Passer domesticus).

Atualmente listaremos facilmente mais de 30 espécies de aves freqüentemente observadas em nossos jardins e parques. Aqueles mais dedicados poderão colocar em seus jardins, ou até mesmo nas janelas de apartamento, um pouco de quirera de milho, farelo de pão ou pedaços de mamão para, em pouco tempo, receber a esperada visita dos amigos empenados!

Já aqueles que freqüentam sítios no interior ou casas de praia ficarão surpresos com as maravilhas que um binóculo faz.

Poderão observar as coloridas saíras, barulhentos periquitos, pombas, rolas etc.

Os melhores momentos para observar aves de uma maneira geral são as primeiras horas da manhã e, eventualmente, ao entardecer.

Aqueles que realmente se interessarem na atividade poderão buscar novas áreas de observação, mais intocadas, onde aves mais sensíveis às mudanças ambientais ainda podem ser encontradas graças à preservação do meio ambiente. Uma excelente área com essas condições é a Reserva Cambixo, localizada a apenas duas horas de São Paulo, próximo ao município de Iguape. São 2000 alqueires de Mata Atlântica intacta, onde só se chega com transporte fluvial através do Rio Una do Prelado. Essa área faz divisa com a Reserva da Sereia e lá poderemos observar macucos, gralhas azuis, tirivas, arapongas, surucuás, várias espécies de multicoloridas saíras e beija-flores, dançarinos, rendeiras etc. Sem falar na flora. Por ser uma área particular de reserva da Natureza, só pode ser visitada em grupos organizados pelos proprietários.

Também o Pantanal matogrossense é um paraíso para os observadores de aves e da Natureza em geral.

Quem se interessar por essa atividade pode procurar o COA - Clube de Observadores de Aves. Se quiser fazer parte de excursões organizadas com a finalidade de observar aves, pode nos procurar: Fernando Bignardi, rua Ministro Godoi, 478, Perdizes - São Paulo- SP CEO 05015- fone [011] 626774.

Bibliografia

1. Sobre o ninho de Triclaria malachitacea - Hélio F. de Almeida Camargo 1976 - Papéis Avulsos Zool. SP. 29(14):93-94

2. SOUTH AMERICAN BIRDS - Jonh S. Dunning 1987 Harrowood

3. The birds of South America - Robert S Ridgely and Guy Tudor 1989 - Oxford univ. Press

4. Ornitologia Brasileira - vol 1 e 2 - Helmut Sick 1984 UNB Editora

5. Aves do Brasil - Augusto Ruschi 1979 Ed Rios

6. The Complete Birder - Jack Connor 1988 Houghton Miffin

7. Aves de Góias - José Hidase 1983 Museu Ornitológico Goiânia

8. Aves do Brasil - Deodato Souza 1987 Ed Itatiaia

9. Observação de Aves (artigo) - Sérgio de Almeida (São Carlos) Março/Abril 1991 Atualidades Ornitológicas

 

 

 

 

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