NOSSA ORNIS

Otávio Salles - Jacutinga-MG

Jacutinga, uma espécie seriamente ameaçada

21 de abril de 1.692. Tiradentes ainda nem pensa em nascer. Ainda faltam cem anos para a execução do alferes Joaquim José da Silva Xavier, principal vítima da malograda Inconfidência Mineira. Mas aqui, na época sertão inóspito e remoto, sobressaíam, na deslumbrante exuberância da mata atlântica, o porte gigantesco dos jequitibás, a beleza heráldica dos palmitais, o delicado exotismo policrômico das orquídeas, as formas e matizes incomuns das bromélias (microecossistemas pujantes de vida), o vôo mágico das borboletas (fragmentos vivos de arco-íris), o surpreendente vigor vegetativo das aráceas, ipoméias, papos-de-peru e tantas outras trepadeiras que se enlaçam nas árvores, algumas sufocando-as com a voracidade de seu crescimento. Aquele 21 de abril amanheceu algo frio, com o tímido sol de outono demorando a elevar a temperatura. Assim que nasceu o dia, uma multidão de vozes se fez ouvir na mata milenar. Abril não é o mês ideal para o registro da presença de aves (o ideal seria no auge do período de reprodução, na primavera), mas todo amanhecer numa mata primitiva, intocada, é repleto de pios, gritos, arrulhos e gorjeios. Os ouvidos experimentados de um homem da floresta, no entanto (altivo e musculoso indígena), distinguem e selecionam facilmente um ruído incomum, característico, esquisito, muito forte, similar, de certo modo, ao que se produz quando se rasga um pano grosso. É a música instrumental das jacutingas, produzida pelo bater de asas em vôo sobre as clareiras da mata. - Ya' kutinga! Katu! (murmura para si mesmo). Rápida como o bote da urutu, sua poderosa mão direita procura a flecha infalível e a coloca em posição de arremesso no arco potente que a mão esquerda já sustém. Mas não sai de onde está. Permanece imóvel atrás da verde moita de juçaras em fase de crescimento. Pouco além, a uma altura considerável, exemplares adultos da magnífica palmeira exibem a generosidade de seus cachos maduros, carregados de frutos negros que já caem no solo. Ele espera, porque conhece bem os hábitos de sua presa. De fato. CHEGOU! Após aquecer-se preguiçosamente ao sol e exercitar as asas com alguns vôos de ida e vinda sobre a clareira próxima, esplêndido exemplar da ave alvinegra vem de repente - vôo fácil - e pousa sobre um cacho maduro de juçara, equilibrando-se com os pés enquanto debica os frutos escuros. Muitos caem, e o ruído que produzem ao tocar o tapete de folhas secas do solo da mata atiça a fome das outras aves do bando ruidoso, que se atiram aos frutos do palmital, a princípio com alguma cautela, depois com visível frenesi gastronômico. Dezenove jacutingas! Magníficos exemplares! Machos imponentes, fêmeas esbeltas. Seus assobios inconfundíveis vão longe na mata. Brigam pelo alimento! É o momento esperado pelo senhor da selva. Sem desperdiçar um único segundo, Urutu-uru, em impressionante seqüência de movimentos, dispara seis flechas. Em instantes, seis aves jazem no solo, algumas ainda batendo as asas, já nos braços gelados da morte. Poderia ter abatido muito mais. Só sacrificou, porém, o necessário. O bando confuso foge espavorido apenas quando Urutu-uru vai buscar o que é seu. Horas depois o vigoroso aborígine está de volta ao lar. Durante o retorno, pela trilha que conhece tão bem, pôde ouvir, ao longo de toda a caminhada, as vozes características de centenas de jacutingas, tão comuns naquele área de mata atlântica mais tarde conhecida como Sertão do Moji-Abaixo.

E hoje? E agora? A destruição insensata, irresponsável da mata atlântica foi, juntamente com a caça desenfreada, fatal para a jacutinga. Na atualidade, bem poucas regiões do país ainda abrigam, em escassas áreas remanescentes de mata atlântica, espécie tão ameaçada. Uma delas situa-se na Fazenda Intervales, no Estado de São Paulo. Foi lá que, no dia 24 de outubro de 1.988, o grande ornitólogo francês Jacques Vielliard conseguiu gravar sua voz. Há alguns meses, graças a uma gentileza do amigo Jairo Bevilacqua, meu embaixador junto ao professor Vielliard, que mantém na UNICAMP (em Campinas-SP, cidade em que Jairo reside) seu famoso laboratório de Bioacústica, com centenas de gravações das vozes e cantos de nossas aves, consegui uma fita gravada contendo as vocalizações da jacutinga, com anotações e uma dedicatória do especialista. Acompanhando a fita, uma gentil mensagem manuscrita que o sábio enviou-me. Ouvi muitas vezes esta fita, e a veiculei em meu programa de rádio, o MOMENTO ECOLÓGICO, por ocasião do aniversário de Jacutinga (16 de setembro), a cidade em que resido há quase trinta anos, de onde escrevo estas linhas. Os gritos fortes da ave jacutinga, embora evidenciem de pronto seu parentesco com os jacus, são diferentes, terminando com uma espécie de assobio. Só pude conhecer pessoalmente a espécie em fevereiro do ano passado, no magnífico criadouro científico do sr. Moacir Carvalho Dias, em Poços de Caldas-MG. Lá pudemos filmar e observar seu único espécime (acompanhavam-me os amigos Haroldo Raphaelli, dr. Nivaldo Duarte, Antonio Bresci e Osmar da Fonseca). Hoje, excetuando-se os poucos criadouros científicos, sob fiscalização do IBAMA, que mantêm e conseguem reproduzir a jacutinga, são raros os parques nacionais e outras reservas onde esta ainda pode ser encontrada. Refiro-me, evidentemente, à verdadeira jacutinga, Pipile jacutinga, pois suas primas, bem semelhantes (Pipile pipile grayi, Pipile p. cujubi, Pipile p. nattereri e Pipile p. cumanensis), da Amazônia e Mato Grosso, ainda são comuns. Em seu bem fundamentado trabalho NOTAS SOBRE AVES BRASILEIRAS RARAS OU AMEAÇADAS DE EXTINÇÃO, editado em 1.979 pelo MUSEU NACIONAL, o saudoso e sempre lembrado prof. Helmut Sick relacionava como locais em que observou a jacutinga, outrora presente na mata atlântica do sudeste e sul do país (do sul da Bahia ao Rio Grande do Sul), a Serra da Bocaina, em São Paulo (1.977); Parati, no Rio de Janeiro (1.977); Itatiaia, no Rio de Janeiro (1.978); Morro do Funil, em Santa Catarina (1.979); Reserva de Sooretama, no Espírito Santo (1.977); nas matas da Fazenda Klabin, também no Espírito Santo (1.979) e Parque Nacional de Monte Pascoal, na Bahia (1.977). No trabalho em pauta, o grande ornitólogo afirmou ignorar se a espécie ainda existia no Paraná, «onde era abundante por volta da década de 40» e no interior de São Paulo. Mais tarde, em sua antológica obra-mater, o livro «ORNITOLOGIA BRASILEIRA, uma Introdução», confirma as informações anteriores e acrescenta: «ocorre esporadicamente ao redor de Foz do Iguaçu, no Paraná». Levando-se em conta a realidade atual, as informações disponíveis sobre a espécie (a meu ver, deficientes, incompletas), qual será o futuro da jacutinga? Relacionada entre as aves brasileiras ameaçadas de extinção, poderá sobreviver na Natureza?

De acordo com os dados disponíveis, a jacutinga tem ou tinha hábitos migratórios, tanto que, conforme antigo e revoltante relato do naturalista Fritz Müller, relato dirigido a Charles Darwin e escrito no dia 9 de setembro de 1.868, «no inverno frio de 1.866 apareceram tantas jacutingas nas baixadas do rio Itajaí que, em poucas semanas, foram mortas aproximadamente 50.000». No mesmo relato afirma: «eu mesmo vi como meia dúzia de jacutingas foram mortas, uma após outra, na mesma árvore. Um vizinho contou-me que, há dois anos, abatera cerca de 100 jacutingas em um único pé de guarajuva». Ora, é evidente que tantas jacutingas juntas só pode significar migração. Até hoje os especialistas não chegaram a conclusões definitivas sobre a razão desse fenômeno comum a tantas espécies de aves, mas já se pode dizer que não há uma razão única. São várias (escassez de alimentos, condições climáticas inóspitas, retorno a territórios ancestrais, superpopulação...). No caso específico da jacutinga, um fato parece claro: o brutal extermínio de suas populações, a criminosa execução em massa, impiedosa, sistemática, enojante, perpetrada pelos caçadores que, ambiciosos e inconseqüentes ao extremo, não se deram conta de que estavam destruindo sua própria galinha dos ovos de ouro. Depois, diminuindo drasticamente as populações da espécie, deixou de existir, no meu modesto entender, um dos principais motivos da migração: a escassez de alimentos. Menos bocas (bicos) = mais comida. Ou então o fluxo migratório anual poderia corresponder a um período de repouso, de relaxamento, após a estressante disputa territorial no período de reprodução, além de sua grande importância do ponto de vista genético, pois a dispersão ocasionada pelo movimento migratório favoreceria, na próxima estação reprodutiva, a formação de casais com pouco ou nenhum parentesco, evitando-se desse modo os problemas da consangüinidade. Embora em escala muitíssimo menor, parece que as jacutingas remanescentes ainda migram. Por alimento. O prof. Sick, em sua já citada obra magna, menciona migrações altitudinais na Serra do Mar (São Paulo), acompanhando a maturação dos frutos da palmeira juçara (eles amadurecem primeiro nas áreas inferiores). O fato é que, pelo visto, sabe-se pouco sobre a ave na Natureza, ignorando-se sobretudo o principal: quantas jacutingas ainda existem na vida selvagem? Em cada local onde ainda ocorrem, quantas são? Dispondo-se desses dados, talvez fosse possível induzir, através de solturas criteriosas, cruzamentos entre espécimes com pouco ou nenhuma consangüinidade, capturados em regiões bem afastadas entre si. Isso reforçaria o patrimônio genético das populações remanescentes, melhorando suas perspectivas de sobrevivência a longo prazo. Algo semelhante poderia ser realizado com as jacutingas mantidas em cativeiro, que se reproduzem bem em criadouros. Desde que isso não enfraqueça os pequenos grupos ainda existentes na Natureza, alguns exemplares, sem parentesco com as aves cativas, seriam capturados e introduzidos nos criadouros, para reprodução e, mais tarde, repovoamento de áreas adequadas e protegidas.

E quanto a nós, da cidade de Jacutinga, a pequena e bela estância hidromineral de Minas Gerais, a acolhedora e repousante capital das malhas? Embora não seja jacutinguense nato (nasci em Piracicaba-SP), considero-me como tal. Aqui vivo há quase trinta anos, já fui honrado com o título de cidadão jacutinguense e tenho lutado muito pelo engrandecimento desta terra que amo. A maioria dos jacutinguenses não conhece sua ave-símbolo! Através das várias Semanas Florestais que promovi na estância, procurei modificar tal estado de coisas, realizando concursos e campanhas de divulgação junto aos alunos de todas as escolas de Jacutinga referentes à ave homônima. Cartazes foram feitos pelos escolares com desenhos da ave. Escreveram composições sobre ela. Mas ainda falta muito para viabilizar o que pretendo, estabelecer na cidade um criadouro da ave jacutinga, com três ou quatro casais de procedência diversa (para evitar a consangüinidade), núcleo das futuras tentativas de repovoamento com exemplares nascidos no criadouro. O local escolhido para esse repovoamento (científico, criterioso, com todos os cuidados preliminares e posteriores que tal iniciativa requer) seria uma reserva florestal municipal criada especialmente para esse fim, a partir de uma área remanescente de mata atlântica, rica em palmitais (os frutos do palmito são o principal alimento da jacutinga). Há alguns anos fiz contatos com os criadores da espécie existentes no país (cinco ou seis). Um deles prontificou-se a doar-me um casal de filhotes, desde que dispuséssemos do principal, o criadouro científico, com tudo o que é necessário para reproduzir bem e com toda a segurança a rara ave que deu nome a Jacutinga. Isso é o mais difícil. Esse criadouro deve ser construído a partir de severas normas técnicas e cumprir todas as formalidades legais exigidas pelo IBAMA, além de oferecer toda a segurança, tranqüilidade e infraestrutura indispensáveis à manutenção e reprodução da ave. Para se obter tudo isso, acho que o primeiro passo seria criar uma fundação, a FUNDAÇÃO JACUTINGA, que iria captar os recursos necessários ao empreendimento. A Prefeitura poderia ajudar, mas creio ser essencial que a iniciativa e todo o controle do projeto estejam nas mãos de particulares, da iniciativa privada, evitando-se, desse modo, depender do poder público. A médio e longo prazo sempre há injunções políticas que podem pôr tudo a perder. Hoje, para ser franco, considero realmente difícil, mais que construir o criadouro, obter três ou quatro casais de jacutingas de procedência diversa. Os próprios criadouros existentes no país (pelo menos dois deles) já enfrentam sérios problemas de consangüinidade, com graves conseqüências. Os ovos dessas jacutingas tornam-se inviáveis, não gerando filhotes. Mas considero fundamental amplo trabalho de divulgação nas escolas e junto à coletividade para que todos os jacutinguenses conheçam e se orgulhem de sua ave-símbolo. Em âmbito nacional, parece-me urgente, extremamente urgente a realização de sérios estudos de campo sobre ave tão bela e tão rara, primeiro passo para desencadear luta inteligente e persistente, com apoio de entidades conservacionistas do exterior, objetivando salvar da extinção uma das aves mais vistosas e ameaçadas de nossa ornis. O Brasil felizmente possui ornitólogos e biólogos de alto nível, perfeitamente aptos a enfrentar tal maratona ecológica. Rogo-lhes que aceitem este desafio!

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Nota do autor - Este trabalho pretende ser o primeiro de uma série focalizando as aves do Brasil, sobretudo espécies ameaçadas de extinção. Dá início à coluna NOSSA ORNIS, criada em comemoração aos 10 anos de existência do excelente ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS, que vi nascer. Cumprimentando efusivamente o nosso caro dr. Pedro Salviano Filho por tão rara proeza (ele é o grande responsável pelo êxito, qualidade, longevidade e pontualidade do tablóide), espero que a circulação deste tão aguardado número 60 seja o ponto de partida para novas e contínuas conquistas.

 

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