Dois Métodos Novos de Armação de Redes para Captura de Aves

Armando Assumpção - São Paulo-SP

Edwin O. Willis - Rio Claro-SP

A metodologia para a armação de redes para captura de aves tem sido demonstrada com riqueza de detalhes no "Manual de Anilhamento de Aves" (1981), fornecido pela CEMAVE (Centro de Anilhamento de Aves Migratórias) e no trabalho de Yamashita (1987). Aqui, indicamos dois outros métodos.

Um método simples é o desenvolvido por Willis para trabalhos dentro da mata, onde o sub-bosque tem cipós e troncos de variadas dimensões. Willis sempre trabalhou sozinho, andando quilômetros por dia e portanto, não podendo carregar peso nem fazer muito barulho para abrir clareiras para esticar a rede. Ele colocou tirantes de naylon de 1-2 metros de comprimento amarrado a cada uma das 5 alças da rede que seguram cada lado da mesma e, assim, apenas retirando ou afastando com a mão a vegetação mais próxima, atava os tirantes aos troncos finos que encontrava. Não é preciso dar nó, se cada laço esticado tem o tirante passado em baixo de si um pouco atrás (nunca na frente) do tronco.

Para abrir a rede em local já limpo, ata-se todos os tirantes juntos de um lado na árvore suporte e anda-se abrindo e esticando a rede lentamente, passando por cima do ombro como apoio, até a outra árvore suporte ou cipós no final da rede. Abre toda a rede deste lado, atando os tirantes a pequenas distâncias uma da outra para que as bolsas da rede não fiquem muito distendidas e retorna desembaraçando e acertando a parte superior da rede, antes de abrir e atar os tirantes do lado inicial. Para armar a rede, coloca-se primeiro a alça superior e, para retirá-la, tira-se a alça inferior primeiro.

Para fechar a rede, fecha-se um lado, amarrando o tirante número um (o superior) ao redor dos 4 outros tirantes e, com a rede sempre esticada com uma mão junto ao corpo, anda-se até o outro lado da rede coletando-se com a mão a rede para dentro da primeira mão; fecha-se o final da rede e coloca-se num saco plástico ou de pano. Não é preciso fazer os movimentos de ziguezague andando com dois braços abertos enquanto se coleta, em duas mãos, as dobras da rede durante o fechamento, como ensinam alguns manuais; técnica difícil em clareira apertada.

A vantagem deste método é que não é preciso carregar bambus ou barras de conduites para apoio, não se perde muito tempo abrindo clareiras grandes, não demanda grande equipe de trabalho evitando assim muito barulho. A desvantagem é que a rede pode ser levantada para o alto somente se se usar um pau liso e laços nos tirantes mais altos, empurrando-os para cima com o auxílio de um galho solto qualquer. Também, pode ser necessário cortar, na hora, um pau liso e atá-lo com barbantes para segurar o final da rede.

Para Willis, a altura em que a rede estava aberta, não importava já que ele trabalhava principalmente com formicarídeos seguidores de formigas de correição que voam baixo. Ele tinha a necessidade adicional de tirar a rede e recolocá-la em lugares diversos à cada poucas horas do dia, porque as correições de formigas que ele e as aves acompanhavam deslocam-se durante o dia inteiro.

Humphrey et al. (1968) relataram sobre um método de se armar redes no dossel de mata amazônica utilizando-se para apoio, árvores de troncos fortes e altos com um galho paralelo ao chão. Este método ao ser utilizado no interior da mata envolve abrir uma clareira relativamente grande para evitar que a rede fique emaranhada. Este método pressupõe a existência de árvore apoio, o que nem sempre é disponível exatamente no local que se quer colocar a rede e necessita de equipamento mais sofisticado como uma arma para atirar a corda para trás do galho ou levar consigo um mateiro para subir em árvores.

A determinação de escrever um outro método de acondicionar e levantar a rede surgiu de uma pergunta feita pela Dra. Y. Oniki que tem a necessidade de abrir redes altas próximo a árvores isoladas em locais abertos, quando nessa árvore tem um ninho, objeto de seu estudo, para capturar, marcar e estudar a fêmea ou casal. Uma vez que pelo método, a seguir, a rede pode ser armada à alturas razoáveis, em qualquer local mesmo sem árvore apoio e operada somente por uma pessoa, as vantagens são óbvias, eliminando os "embaraços" que sempre acontecem.

Nas andanças de Assumpção por cerca de 30 anos, pelas matas sub- tropicais à procura de piprídeos para o seu estudo na natureza e em cativeiro, ele teve o ensejo de desenvolver um método simples, por meio de roldanas, para se armar a rede de neblina a alturas superiores a 2m, com pequenas adaptações para quem trabalha sozinho e com a vantagem de poder ser operada em qualquer local aberto, sem depender de árvores apoio. Descrito também, aqui o seu método de acondicionamento da rede que foi idealizado principalmente para os que trabalham sozinhos e encontram dificuldades com a rede emaranhando em ramos e folhas adjacentes.

ACONDICIONAMENTO DA REDE DE NEBLINA (Fig. A, 1-6)

1. Estenda a rede e prenda as alças com velcro ou com as buchas adaptadas a uma extremidade do cordel.

2. Corte um cordel com o comprimento da metade da rede e prenda uma argola numa das extremidades. (A argola deve ter no mínimo 4cm de diâmetro interno e ser bem lisa para não enroscar nos fios da rede).

3. Introduza o cordel num saco tubular de pano e dê uma laçada na outra extremidade, que deve passar bem justa na segunda vara. (Reforce a rede no furo, onde passa a cordinha para que nem a laçada nem a argola escapem do saco).

4. Passe a rede pela argola e junte as alças presas pelo velcro separando cada conjunto de alças.

5. Vista a rede com o saco e feche a sua boca.

6. Dobre o saco em 2 ou 3 vezes e a rede estará acondicionada tanto para transporte como para ser aberta na mata.

PARA LEVANTAR A REDE ALTA (Fig. A, 8-12)

7. Finque firme a vara no solo e coloque as alças na vara apoiadas nos anéis. Fixe a outra vara (já com o comprimento da rede estabelecida) no solo e coloque a laçada do cordel.

8. Descubra a rede, afastando o saco.

9. Deixe o saco cair. A rede continua envolvida pela argola.

10. Transfira somente o conjunto superior das alças para a outra vara. Não torça a rede. (Nesta transferência das alças, os fios de cor e identificação de cada alça ajudam muito, ver abaixo).

11. Deslize a argola pela rede e com um dedo levante as alças e com o outro coloque a argola para baixo.

12. Retire o velcro, emende as varas e suspenda a rede.

Assim, este método utiliza-se de barras de conduite de meia polegada cortadas em pedaços de 1,5m de comprimento (para facilitar o transporte) e adaptados com luvas galvanizadas para o encaixe de uma à outra. A barra que servirá de base pode ter um ponteiro de ferro de 15-20cm de comprimento, em forma de cunha, soldado na extremidade inferior para inserção no chão (Figura B, opção 1). Necessita-se de 2 barras do comprimento desejado para apoiar os dois lados da rede.

Um sistema de 4 roldanas (2 para cada extremidade da rede) permite que estas sejam amarradas ao lado externo de ambos os tubos que seguram as redes. Se as 5 alças da rede forem marcadas com fitas de cores diferentes (como citado acima) ou em sistemas de 1 a 5 marcações para indicar qual é a alça nº 1, 2 etc., então, na mata, será fácil de se identificar a posição de cada alça para rapidamente abrir a rede (figura C, opção 5).

Para facilitar ainda mais este trabalho pode-se colocar anéis de borracha Singer de cada lado da alça para segurá-la em posição, depois da rede armada. O cordão que liga as 2 roldanas e que puxa as redes para cima (se branco ou claro) deve ser escuro e isto é facilmente obtido com o tingimento com barra de café em pó usado.

É preciso lembrar que, no Brasil, o pesquisador necessita da permissão do IBAMA-CEMAVE para estes tipos de captura.

Bibliografia Consultada

Humphrey, P.S., D. Bridge & T.E. Lovejoy. 1968. A technique for mist-netting in the forest canopy. Bird-Banding 39: 43-50.

CEMAVE. 1981. Manual de Anilhamento de Aves. CEMAVE, IBDF, Brasília. 114p.

Yamashita, C. 1987. Técnicas de captura para marcações qualitativas. Anuais Encontro Nacional de Anilhadores de Aves, UFRJ, 2: 76-97

 

Armando Assumpção - São Paulo-SP

Rua Cristovão Pereira nº 1775

Bairro Campo Belo, 04620 São Paulo, SP

e

Edwin O. Willis

Departamento de Zoologia, UNESP

Caixa Postal nº 199, 13.505-900 Rio Claro, SP

 

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