Entrevista com o casal Dr.Edwin O. Willis e Dra. Yoshika Oniki

O Dr. Edwin O. Willis, zoólogo, professor-adjunto da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Rio Claro, é norte-americano, natural do Alabama. Ele vem contribuindo para o estudo da avifauna do Brasil desde 1965 e, mais intensamente, desde 1972, quando se transferiu definitivamente para cá, juntamente com sua esposa, Dra. Yoshika Oniki. Ela é natural de Marília (SP), zoóloga-ecóloga, pesquisadora-associada do Departamento de Zoologia da UNESP de Rio Claro e da Coleção de Artrópodes da Universidade de Flórida dos Estados Unidos. Ambos destacam-se pelo desenvolvimento de intensos trabalhos de campo em vários países da América do Sul, Central, Hawai, África e Austrália e por serem, até hoje, as duas únicas pessoas do Mundo a estudarem profundamente as aves seguidoras de formigas de correição.

AO - O que levou vocês a seguirem a carreira de ornitólogo?

Prof. Willis - Com 5 anos de idade, gostei muito dos desenhos de aves em cartões-ficha que colecionava de caixas de bicarbonato de sódio "Arm and Hammer", nosso dentifrício naquele tempo pré- guerra. Com amigos da escola, procurávamos fazer listas de todas as aves no dicionário. Com 12 anos e vivendo em nosso sítio, ao norte de Alabama, comecei a observar as aves nos pastos e matinhas enquanto seguia o gado ou levava o leite e manteiga para geladeira. Mais tarde, encontrei amigos em clubes de observadores de aves em Maryland onde nos transferimos com toda a família.

Profª Oniki - Durante o curso de graduação, trabalhei com etologia de abelhas com o Prof. Shoichi Sakagami, famoso por seus estudos em comportamento de abelhas, mas fiz também um trabalho com histologia de trato digestivo de pombo e estudo comparativo de trato digestivo relativo à alimentação de algumas aves. Decidi que queria trabalhar com comportamento mas creio que estava faltando a oportunidade para trabalhar com aves pois, além do grupo do Museu de Zoologia em São Paulo, o Prof. Sick ficava no Rio. Eram poucos os ornitólogos no Brasil.

AO - Onde vocês começaram a estudar as aves?

Prof. Willis - Gostei de andar atrás de aves nas colinas de Alabama e, depois, junto à Baia do Chesapeake. Para identificar as aves sem binóculos, aprendi a escutar as vozes das aves. Foi um grande dia, quando em 1949, descobri sozinho que duas espécies de pica-paus (Picoides), quase iguais em cor, tinham vozes bem diferentes. Com binóculos, finalmente, fui fazer biologia florestal e manejo de fauna como cadete numa universidade na Virginia. Mudei depois para biologia no segundo ano, saindo do programa militar. No verão, continuei observando as aves como guarda florestal nos parques nacionais do oeste, nas montanhas Cascades e Sierra Nevada.

Em 1956, um grande amigo de Virginia, Steve Russell, estava fazendo um trabalho das aves de Belize, para o seu doutorado na Louisiana State University (LSU). Ele convenceu seu professor, Dr. George H. Lowery Jr., a convidar-me a fazer mestrado com duas espécies "idênticas" de tiês-da-mata (Habia rubica e H. fuscicauda) como hóspede da companhia que explorava o mogno na região. Até hoje os ornitólogos de LSU trabalham nos neotrópicos. Descobri que H. fuscicauda tinha voz diferente e que seguia as formigas de correição. Quando estava estudando, para o doutorado, na Califórnia com o Dr. Alden H. Miller, resolvi ir ao Panamá estudar mais as aves que seguem as formigas de correição. De navio e trem, cheguei na reserva da Ilha de Barro Colorado no Canal do Panamá em 1960, colocando anilhas coloridas nas pernas das mães- de-taóca (Formicariidae) e outras aves seguindo as correições por 14 meses. Aprendendo o espanhol, visitei Costa Rica, Chiriqui, Trinidad, Guyana e viajei de ônibus e teco-teco do oeste até leste da Colômbia em 1961-1962. Retornei ao Panamá a cada ano até 1971 mas visitei novamente em 1977 e 1981.

Profª Oniki - No último ano de graduação, em 1964, fui fazer um estágio sobre aves no departamento de Zoologia da USP em São Paulo com o Prof. Hélio Camargo. Sabia que gostaria de trabalhar com comportamento das aves, mas ainda não tinha nenhuma experiência no campo. A oportunidade surgiu quando o Prof. Domiciano Dias convidou-me juntamente com outra aluna a participar de um projeto multidisciplinar na "Área de Pesquisas Ecológicas do Guamá" em Belém do Pará em 1966: eu estudando as aves de correição e ela, as formigas. Por dois anos, diariamente eu ia à mata para seguir as formigas e as aves, e várias vezes por semana, à tarde, ia ao Museu Goeldi, tentar identificar as aves avistadas e estudadas. Conheci o Dr. Fernando Novaes e chegamos a trabalhar juntos auxiliando na captura de aves para Thomas Lovejoy que então coletava dados para sua tese de doutorado. Assim, nesse período, além de coletar dados sobre aves de correição, já iniciei o estudo de ninhos e a coleta de ectoparasitas de aves, interesses que mantenho ainda hoje. Em 1967 participei como única mulher da expedição do Alpha Helix, um navio de pesquisa do Instituto Oceanográfico de La Jolla da Califórnia e trabalhei com Dr. Theodore Bullock, Dr. Hubert Markl e outros fisiólogos famosos. Fui convidada para trabalhar com comportamento de peixes em Paris pelo Dr. Szabo mas ainda preferia trabalhar com aves no campo e assim voltei para a mata em Belém.

AO - E que locais vocês visitaram estudando as aves neotropicais?

Prof. Willis - Depois do doutorado em 1964, consegui uma bolsa de pós-doutorado no Museu Americano de História Natural, em Nova York, com a finalidade de estudar as aves amazônicas que seguem as formigas. Fiquei com os missionários que traduziam a Bíblia nas selvas do leste de Equador e Peru, e certa vez houve uma ameaça de guerra entre tribos dos Índios Jívaros (conhecidos pelas suas vinganças acabando em cabeças humanas encolhidas). Mas, as aves são diferentes cada vez que atravessamos um rio grande na Amazônia - Madeira, Tapajóz, Amazonas - porque estas aves das sombras não saem da mata para atravessar rio perigoso. Assim, fui aprendendo o português, logo descobrindo que soa bem diferente de espanhol. Visitei Manaus, Carauarí, Coatá (uma vila de Mundurucús a leste da foz do Madeira), Curuá-Una ou "Sapo Preto" perto de Santarém, Maloquinha perto de Itaituba, Benjamin Constant. Voltei para os Estados Unidos para escrever e publicar meus estudos.

Profª Oniki - Depois da coleta de dados sobre aves de correição, fui para a University of Kansas, "fazer" o mestrado, onde concluí em 2 anos, fazendo, no intervalo, trabalhos de campo por 4 verões na Ilha de Barro Colorado, no Panamá. Formei em maio de 1970 e casamos em junho e com Edwin fui trabalhar por um ano em Oberlin College em Oberlin, Ohio; não pude continuar os estudos lá pois eles tinham apenas o curso de mestrado e assim fiquei como "trainee", até sermos convidados pelo famoso ecólogo Robert MacArthur para trabalhar em Princeton University. Infelizmente, ele estava muito doente e após um período em Princeton sugeriu que fôssemos pesquisar as aves na Amazônia, uma vez que meu visto no país estava expirando e eu precisava sair dos Estados Unidos e permanecer pelo menos 2 anos fora. Tenho viajado e trabalhado em quase todos os lugares visitados por Edwin exceto a África, Peru e Equador.

AO - Profª Oniki, como é para uma mulher trabalhar sozinha no campo?

Profª Oniki - Como disse, eu tive a oportunidade da escolha de trabalho em laboratório mas gostei muito de andar pela floresta procurando as aves e seus ninhos. Gostaria que mais mulheres seguissem essa carreira porque precisamos de muito trabalho de campo para desvendar os mistérios das aves. O pessoal de apoio em Belém brincava dizendo que havia malandros escondidos (e havia mesmo) na mata que era bem próxima da cidade, mas eu preferia andar sozinha do que acompanhada por alguém que fumasse ou falasse alto pois perturbava as formigas e as aves. Passava dias inteiros na mata e, às vezes, me deixavam lá e eu voltava a pé 9 km. Fui sozinha trabalhar na Serra do Navio atrás de aves de correição; o encarregado tinha de me procurar pela serra afora para trazer comida. Assim, na mata não há perigo, o perigo vem do homem "civilizado", mas como fazem atualmente, mesmo os rapazes, é bom precaver-se e andar em dois, principalmente em caso de acidentes.

AO - O que levou o Edwin a fixar-se no Brasil?

Prof. Willis - Em 1967, o Prof. Philip Humphrey convidou-me para ir a Belém para orientar e ensinar uma moça japonesa-brasileira que estava estudando as aves seguidoras de formigas. Ela precisava aprender a anilhá-las para estudar o comportamento e as interações inter- e intraespecíficas entre as espécies. Depois, ela foi para os Estados Unidos fazer o mestrado com o Prof. Humphrey, em Kansas e foi também para Barro Colorado estudar um formicarídeo (publicou uma monografia sobre Ihamnophilus punctatus). Casamos e, convidados pelo famoso ecólogo Robert MacArthur, fomos para Princeton trabalhar com ele e juntos solicitamos uma bolsa para pesquisar as aves de Belém e Manaus por 28 meses, com uma filha pequena no colo, 1972 até 1974. Com a morte de MacArthur, decidimos ficar no Brasil porque havia muito o que estudar aqui, preferimos ficar onde estava a mata e não apenas visitar vindo dos Estados Unidos a cada férias, em curtos períodos. Trabalhamos na UNICAMP, voltamos para a universidade de Miami por dois anos, fui estudar as aves de correição na África por alguns meses, mas as aves do Brasil continuam merecendo muita pesquisa. Regressamos para a UNESP, em Rio Claro, em 1982, onde estamos até o presente. Saímos para participar em congressos no Japão, Estados Unidos, Alemanha, Panamá, Equador, Nova Zelândia, mas sempre voltamos para trabalhar no livro de aves do Estado de São Paulo que ora estamos escrevendo e para desenvolver outros projetos de campo que continuam em andamento.

AO - Como é trabalhar junto com o Prof. Willis?

Profª Oniki - Quando eu o conheci, Edwin era famoso nos Estados Unidos, tendo recentemente publicado sua tese de doutorado, uma monografia sobre Gymnopithys bicolor e me lembro de ter ouvido o famoso ecólogo Elton elogiando o trabalho dele e o Eugene Eisenmann, do Museu Americano de Nova York, dizendo que eu o estava sequestrando; depois Edwin continuou produzindo muitas outras monografias de formicarídeos e dendrocolaptídeos; foi convidado para escrever um artigo sobre comportamento animal pela Enciclopédia Britânica; enfim, ele é muito produtivo. Eu estava começando a carreira e então com o casamento as pessoas nos vêem como uma só, apenas que não me vêem como um indivíduo, com os méritos de quem produz sozinha. Entretanto, hoje em dia é difícil acreditar que uma mulher ande sozinha pela mata, como fez Emilie Snethlage. Tenho feito um trabalho semelhante ao de Alexander F. Skutch na América Central, gosto de procurar e estudar ninhos de aves. Como parceiros nos trabalhos complementamos nossas pesquisas, cada um dentro de sua capacidade. Edwin também é muito bom em achar ninhos na mata e, por brincadeira, ficamos disputando quantos ninhos achamos a cada saída ao campo.

AO - E como está a ornitologia no Brasil hoje?

Prof. Willis - Ela ainda está um pouco difícil, têm poucos professores e vagas mesmo com muita gente querendo estudar melhor as nossas 1650 espécies ou mais. O problema grande é que o Brasil está saindo do "berço esplêndido", somente agora reconhecendo que preservar ave é tão interessante quanto uma jóia para muita gente. O nosso berço não pode ser desmantelado só porque estamos começando a andar. Atualmente existe a Sociedade Brasileira de Ornitologia com congressos anuais de sucesso, mesmo que a revista "Ararajuba" esteja um pouco atrasada em suas publicações. Temos pequenos clubes de observadores de aves (alguns bastante ativos), o "Atualidades Ornitológicas" e clubes de criadores de aves. Não sabemos para onde estão indo as verbas prometidas depois da ECO 92 no Rio, mas deveriam ir para os pesquisadores de campo.

AO - E o futuro da ornitologia no Brasil?

Profs. Willis e Oniki - Precisamos estabelecer novos parques e reservas, e protegê-los melhor, melhorando a situação de todos, desde professores a guardas florestais, ou vamos ter menos espécies para estudar num futuro próximo. Cortar mata ou cerrado para aumentar emprego não é a única saída para as dificuldades imediatas; o homem é inteligente e pode usar melhor a área onde vive atualmente, se não se deixasse levar apenas pelos interesses financeiros. Precisamos melhorar o nível de educação de povo de um modo geral e criar a conscientização de que o meio ambiente destruído pode ser menos favorável para uma vida confortável na TERRA. Pessoas pobres estarão sempre preocupadas com o que vão comer no dia seguinte ou como vão pagar determinadas contas. Somente pessoas mais educadas têm acesso à informações sobre planejamento familiar e ecologia e passar a aplicá-las no seu dia-a-dia. Então, a ornitologia vai poder se desenvolver, com mais pessoas interessadas. Atualmente, muitos jovens estão estudando no exterior e, esperamos, que retornarão para aumentar o conhecimento da ornitofauna brasileira e fortalecer os movimentos para a preservação dos ecossistemas.

AO - A Sra. está trabalhando, também, com outra linha de pesquisa, a dos ectoparasitas?

Profª Oniki - Sim, já coletava malófagos, dípteros e ectoparasitas em 1966, quando comecei em Belém. Em 1980, tive de ir ao Smithsonian aprender as técnicas de preparo das lâminas permanentes com o Dr. K. C. Emerson, porque ele ia se aposentar e não tinha trabalhado o material que eu havia mandado para ele em 1968. Continuei coletando e montando as lâminas e agora pretendo estudá-las mas neste grupo tem muitas espécies novas para descrever. Conheço bastante da biologia deles porque eu os coleto e observo nas aves, estou mais interessada no relacionamento parasita- hospedeiro. Atualmente, trabalho mais com os malófagos de beija- flores e estou preparando uma revisão do grupo. Os 3 gêneros de malófagos encontrados em beija-flores alimentam-se de sangue e são extremamente interessantes. Tenho também uma boa coleção de ácaros das penas, ácaros das flores que os beija-flores visitam mas gostaria que algum aluno trabalhasse com esses grupos. Trabalhar com os malófagos já é suficiente pois é possível devotar toda uma vida só para um grupo e ainda não conhecer tudo sobre ele.

AO - Como vocês vêem o papel dos criadouros e zoológicos com relação à conservação ou a ornitologia, em especial?

Prof. Willis - Não sou a favor de periquitos e outras espécies tirados da natureza com poucas chances de sobrevivência. É um tipo de aborto forçado, pior que o aborto voluntário entre nós. Acho que os criadores e os zoológicos devem desenvolver técnicas de criação em cativeiro, pesquisar ou proporcionar infraestrutura para que os biólogos estudem as espécies em confinamento e produzir as aves para soltura na natureza. Entretanto, se esses grupos não se aliarem aos ornitólogos em sua luta para a preservação, nada adiantará pois não terá sobrado hábitat natural onde soltar as aves. Fique com periquito australiano, canário ou pardal se não está colaborando a criar as aves. Os criadouros, zoológicos, museus, universidades podem tirar da natureza somente as aves que não vão deixar a população mais fraca, de acordo com estudos anteriores dos biólogos. O mesmo se aplica aos caçadores: é preciso contratar biólogos para estudar as aves cinegéticas e verificar que espécies e quantas aves podem ser retiradas da população a cada ano. Entretanto, o que se vê ainda, é que as aves tiradas da natureza são as mais raras (as mais belas ou as que cantam bem) e então, essas vão lentamente entrando na lista dos ameaçados de extinção.

Profª. Oniki - Aliar esforços entre os grupos de preservação, pesquisadores e criadores é importante mas os resultados seriam mais concretos se houvesse uma conscientização maior da massa popular através de uma melhor educação quanto ao valor da natureza que nos cerca. Acredito, também, que há muitos movimentos e propaganda acerca de todo este assunto e talvez verbas estejam sendo destinadas para órgãos pouco produtivos cientificamente. O que vejo é uma grande necessidade de intensos trabalhos de campo, da obtenção de dados, tanto sobre aves quanto dos ecossistemas, de trabalhos sinecológicos e autoecológicos a longo prazo e isso, se está sendo feito, não tenho visto em publicações. Esses dados são os argumentos-bases para os esforços de preservação de hábitats. Zoológicos e criadouros são programas extremamente caros e devem ser usados como último recurso para a preservação da biodiversidade pois trabalham com um mínimo de população viável e principalmente com vertebrados e esses são menos de 1% das espécies descritas. Como disse antes, os zoológicos e criadouros devem aliar-se a biólogos, e pesquisadores e não podem estar restritos à função de proteger apenas um "pool" genético.

AO - Como vão seus planos para o futuro?

Prof. Willis - Temos acumulado tanta informação que poderíamos parar de trabalhar no campo agora e tentar publicar com o tempo que nos resta. Entretanto, estamos continuando os trabalhos de campo por mais alguns anos e depois, vamos dedicar a escrever os trabalhos.

Profª Oniki - O Edwin já está falando em se aposentar dos trabalhos acadêmicos para se dedicar mais às suas pesquisas mas gostaríamos de encorajar mais alunos a se dedicarem ao tipo de trabalho que fazemos. Entretanto, são difíceis de se encontrar pois exige um certo tipo de pessoa e muito sacrifício. Com relação às mulheres, seria difícil encontrar alguém que visitasse 120 ninhos em um dia (no período de pico de ninhos), na mata amazônica, carregando um bebê de um ano e meio como eu fazia. Quero concluir que tudo isto é bastante gratificante e nos proporciona muita satisfação.

 

 

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