O interessante gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus) no Brasil. Um gavião raro?

José Fernando Pacheco - Rio de Janeiro-RJ

(Desenho Svend Frish)

O gavião-asa-de-telha (Parabuteo unicinctus) ocorre numa vasta área que se estende do sudoeste dos Estados Unidos até o sul do Chile (Sibley & Monroe, 1990). Vive em savanas e regiões semi-abertas dando preferência àquelas que ficam nas proximidades de corpos d’água (Blake, 1977). Em nosso país, a espécie se distribui pelo leste brasileiro do Maranhão ao Rio Grande do Sul, com registros em Mato Grosso. Segundo nosso último catálogo (Pinto, 1978): "na generalidade dos estados brasileiros, não registrado, contudo, na bacia Amazônica". Na Amazônia Brasileira o gavião-asa-de-telha pode ocorrer possivelmente nos cerrados de Roraima ou Amapá, porque é assinalado respectivamente para os Llanos Venezuelanos (Thomas, 1979) e Suriname.

A espécie foi primeiramente descrita e ilustrada pelo zoólogo holandês Coenrad Temminck, em 1822, baseando-se numa pele coletada pelo ilustre botânico francês Auguste Saint-Hilaire e depositada no Museu de Paris. Este material tipo é oriundo da localidade de Boa Vista, a beira do rio Paranaíba, no Triângulo Mineiro (Hellmayr, 1921).

A raridade de Parabuteo unicinctus se torna admitida se procurarmos dentro da literatura mais recente informações sobre o status da espécies. Ela é considerada ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul (Silva & Caye, 1992). Em outros Estados Brasileiros que possuem listas recentes da avifauna regional, este gavião não é mencionado como registrado recentemente em campo pelos autores. Para Santa Catarina (Sick, et al. 1981; Bege & Marterer, 1991); Paraná (Scherer-Neto, 1985); Minas Gerais (Mattos et. al. 1993) e Distrito Federal (Negret et al. 1984) a espécie é, pelo menos, ausente ou histórica. Para São Paulo, Willis & Oniki (1993), que estão preparando um livro sobre as aves do estado, afirmam textualmente que o gavião-asa-de-telha está desaparecido desde os anos 1800. Este último registro advém de um exemplar coletado por João Zech em Piquete, vale do Paraíba Paulista, em 1897. (Pinto, 1938). No Estado do Rio de Janeiro, a espécie foi coletada por Johann Natterer em Sepetiba, zona oeste da capital, no início do século XIX (Pelzeln, 1868) e por Carl Euler em Cantagalo, vale do Paraíba Fluminense (Cabanis, 1874) na metade do século passado. Se não houvesse o registro para a Reserva Biológica de Poço das Antas (Scott & Brooke, 1985), único recentemente publicado, o Rio de Janeiro teria somente, também, registros históricos.

Não está bem claro porque Sick (1985) afirma que a espécie é "localmente não rara" no Brasil oriento-meridional. Pessoalmente sei que nosso saudoso Helmut Sick (com. pessoal, 1987 e notas pessoais) apenas observou Parabuteo duas vezes no Brasil, uma vez na Colômbia e outra na Venezuela. No Brasil, uma dessas vezes foi junto com William Belton, em outubro de 1971, no extremo sudoeste do estado, em arroio Quaraí-chico (Belton, 1984), quando a espécie foi pela primeira vez assinalada para o Rio Grande do Sul. O segundo foi possivelmente na região dos Lagos, no Estado do Rio de Janeiro, em data que não foi possível apurar. À menção feita por Sick para o Espírito Santo é portanto proveniente de terceiros. Talvez Sick tenha se baseado em Ruschi (1953), cuja lista de aves capixabas possui fundamentação inadequada. No Nordeste do Brasil, o registro de Parabuteo unicinctus no Maranhão data de 1901, quando Ferdinand Schwanda coletou uma fêmea em Boa Vista (atual Santo Amaro), na planície costeira (Pinto, 1938). Este é ainda hoje o único registro da espécie para o Meio Norte (Oren, 1991). Para o Ceará, consta a localidade de Quixadá, em material depositado no Museu de Chicago (Hellmayr & Conover, 1949), provavelmente coletado por Robert Becker em 1913. Na Bahia, além de peles comerciais remetidas no século passado para a Europa, consta a captura de uma fêmea em Corupeba, Recôncavo Baiano, em 1933 por William Garbe, coletor profissional do Museu Paulista (Pinto, 1935). Registro recente de campo foi compilado por Souza (1990), sem menção da fonte.

No oeste do Brasil os registros de Mato Grosso, datam respectivamente da década de 1820, para Vila Bela de Mato Grosso (Pelzeln, 1868) e da década de 1880 para Chapada dos Guimarães (Allen, 1893). O registro para Goiás, presente em Hidasi (1983) foi baseado numa pele coletada em Alexânia, 100 km a leste de Brasília, em data ignorada e depositado no Museu Ornitológico de Goiânia.

Através do sumário das informações disponíveis na literatura ornitológica, conclui-se que o gavião-asa-de-telha somente está assinalado como existente nos últimos vinte anos para os Estados do Rio de Janeiro e Bahia, apesar de figurar na lista de 11 estados brasileiros. Outro sinal de raridade comparativa é o número de peles depositadas no Museu Nacional do Rio de Janeiro em 1982, total de 6, todas coletadas no século passado e praticamente sem dados nas etiquetas (sequer localidades), enquanto o gavião-carijó Buteo magnirostris, nosso gavião mais comum possuía na mesma ocasião 121 peles. Problemas de desaparecimento ou declínio da população deste gavião aparecem consignados para o Vale do Cauca, na Colômbia (Hilty & Brown, 1986) e no estado americano do Arizona (Mader, 1975).

Contrapondo todos esses dados bibliográficos, encontrei uma família de Parabuteo unicinctus vivendo no mangue adjacente ao Aeroporto Internacional do Galeão do Rio de Janeiro. O aeroporto fica situado na maior ilha da Baía de Guanabara, conhecida por Ilha do Governador e a área de vida do grupo (em média 6 indivíduos) é naturalmente, por questões de segurança aérea, de acesso restrito. O período em que observei esta família 1986-1990 coincidiu com o período que residia na Ilha. Além desta inusitada descoberta dentro da própria capital, o último registro para a região datava do início do século passado (Sick & Pabst, 1968), encontrei a espécie em mais 21 pontos do Estado do Rio: 20 no litoral e 2 no Vale do Paraíba do Sul. A seguir relaciono as localidades e datas respectivas:

Una, Cabo Frio out 1983

Xerém, Duque de Caxias 13 jul 1986

Negreiros, São Pedro d’Aldeia 17 ago 1986

Morumbeca, Campos 22 nov 1986

Opinião, Campos 17 abr 1987

Poço das Antas, Silva Jardim 28 jun 1987; 21 ago 1988

Imbaí, Silva Jardim 26 jul 1987

Tamoios, Angra dos Reis 26 set 1987

Centro de Primatologia, Majé 12 out 1987

rio Maratuã, Silva Jardim 4 abr 1988; 23 set 1990

Usina Paraíso, Campos 5 abr 1988 Sítio Gavião, Miracema 18 jul 1988

Juturnaíba, Araruama 21 ago 1988

Restinga de Marambaia 4 set 1988

Sarapuí (fundo da Baía de Guanabara) entre 1989 e 1992

Rocha Leão, Casimiro de Abreu 24 fev 1989

Eng. Vieira Cortez, Paraíba do Sul 5 set 1990

Faz. Machadinha, Quissamã 15 nov 1990

Marcelo (lagoa Feia), Campos 16 nov 1990

Praia das Pedrinhas, São Gonçalo 25 nov 1990

Faz. Belfa, Silva Jardim 27 jan 1992.

 

Durante o mês de maio de 1991 encontrei a espécie sobrevoando a Cidade Universitária e bairros adjacentes. Devido a proximidade com o Aeroporto Internacional acredito que os indivíduos observados eram provenientes da mesma população.

Para São Paulo, estado onde a espécie é considerada desaparecida (Willis & Oniki, 1993), tenho registro de um par do gavião-asa-de-telha para as imediações da Fazenda Bela Vista, Pontal, nordeste de São Paulo, seguidamente observado entre setembro de 1991 e fevereiro de 1992. Esta fazenda está situada na confluência dos rios Pardo e Mogí-Guaçu e possui um conjunto de matas ciliares e alagados nos interstícios da cultura de cana-de-açúcar.

Tenho registros recentes para o Rio Grande do Sul (Guaíba, 16 out 1993), Minas Gerais (Areado, 18 out 1991) e Ceará (Itatira, 19 set 1991).

No Nordesde ainda possuo o registro para Pernambuco (Petrolina, 21 set 1991), o primeiro para o estado e outro adicional para a Bahia (Igarité, 20 fev 1989).

Em todos esses registros o número máximo de gaviões observados por ponto foi dois indivíduos.

Um aspecto interessante, recentemente descoberto, na biologia de Parabuteo unicinctus é uma característica rara entre aves, a caça cooperativa praticada por um grupo de indivíduos. O gavião-asa-de-telha, portanto, caçaria como lobos. Os grupos de caça formados por 2 a 6 indivíduos fora do período reprodutivo aumentam o sucesso de captura, diminui o gasto respectivo de energia dispendido por cada indivíduo e torna o grupo capaz de predar animais maiores do que eles mesmos (Bednarz, 1988). Esta estratégia estudada através do uso de radiotelemetria no Novo México, Estados Unidos, foi uma das mais interessantes matérias publicadas sobre aves na renomada revista Science.

 

Agradecimentos

Agradeço a Claudia Bauer, pela revisão crítica do texto, e aos colegas Paulo S. M. Fonseca, C.E.S.Carvalho, R.L.Gagliardi e R. Parrini pela valiosa e indispensável colaboração nas diversas excursões pelo Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.

 

Bibliografia

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Bednarz, J. C. 1988 Cooperative hunting in Harri’s hawk. Science, 239: 1525-1527.

Bege, L.A.R. & Marterer, B. T. P. 1991 Conservação da avifauna na região sul do estado de Santa Catarina. Florianópolis: FATMA.

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_____________________ José Fernando Pacheco

UFRJ - Depto de Zoologia do Instituto de Biologia

Laboratório de Ornitologia

21944-970 Cidade Universitária - Rio de Janeiro

 

Eles têm uma característica rara: assim como os lobos, praticam a caça cooperativa, podendo predar animais maiores que eles próprios.

 

 

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