NOSSA ORNIS

Otávio Salles - Jacutinga-MG

 

O perigoso declínio das araras do Brasil

"Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida;

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar."

 

"E, pois que és meu filho,

Meus brios reveste;

Tamoyo nasceste,

Valente serás.

Sê duro guerreiro,

Robusto, fragueiro,

Brasão dos tamoyos,

Na guerra e na paz."

(CANÇÃO do TAMOYO, de Antonio Gonçalves Dias, Cantos I e V)

 

Almánaára, a estação das chuvas, vai chegar logo no tabeté, a cidade de varas e palha dos brasileiros originais. Cai a tarde. Araara, o crepúsculo, inunda de sonhos o jovem coração de Aracy, deslumbrante nativa. Seu nome (significa mãe do dia) não poderia ser mais adequado. Deusa esguia, vênus do trópico, garça-mulher, morena, de perfume perturbador, o brônzeo matiz de sua pele com textura de jabuticaba madura enlouquece os corações dos guerreiros. Eles a chamam por apelido maroto e carinhoso: Botyra-tatá, a flor de fogo. Mas Botyra-tatá, a lânguida princezinha da mata atlântica, só tem olhos para o musculoso Botyra-tarutu-uru, tabajara, chefe de sua tribo, o guerreiro das flechas fatais, que nós já conhecemos, senhor do sertão do Moji-Abaixo (vide AO nº60). Olhem lá! É ele que chega! Que porte de rei, que força no olhar! Mas - pobre Botyra-tatá - Urutu-uru não se detém, quem sabe nem vê a linda candidata ao seu coração. Ela se vai. Voltará a chorar à sombra do vasto palmeiral onde as aves mais vistosas da mata se alimentam. É feita com suas penas agudas, aliás, a sumária arassóia, o colorido saiote de Botyra-tatá, a circe silvestre que sussurra juras de amor eterno (aujeramanhé, para sempre) ao insensível Urutu-uru. Mas alguém que está ojepebe (solitário) costuma oessapopybo, isto é, traduzindo para o perfumado idioma da linda Ignêz, o nosso mais familiar português, olhar com o canto dos olhos aquele de quem sonha ser pyraty (amante). E, preventivamente, preventivamente, para garantir-se, o divertido baiá não se esquece de sua porção diária de piriapiri, poderoso afrodisíaco vegetal que o faz ver nuvens de muá (vagalumes) iluminando o corpo sedutor da mãe do dia, que, a seu ver, ainda será sua. Isso veremos depois. O futuro é propriedade de Tupã. Sopra a brisa aromática, perturbando o vôo azul de frágeis borboletas.

De que aves são as plumas que ocultam os tesouros de Aracy? Quantas espécies existiam primitivamente no Brasil? Como era seu dia a dia? E hoje? E a realidade atual? Vamos por partes. O leitor e a leitora medianamente iniciados em ornitologia já sabem que estou fazendo referência às araras (o vocábulo é originário do tupi a’rara), maravilhas aladas, preciosidades da ornis tropical sem similar européia. Já vai longe o dia em que o injustiçado ornitólogo francês Louis Jean Pierre Vieillot descreveu a única arara brasileira que, desgraça das desgraças, parece irremediavelmente extinta, embora vez por outra surjam alentadoras notícias esparsas (e logo desmentidas) sobre a sua redescoberta. Refiro-me a Anodorhynchus glaucus (com 68 cm da ponta do bico à extremidade da cauda), que o abalizado autor da valiosa obra Les Oiseaux de l’Amérique Septentrionale descreveu em 1.816, conforme consta no fabuloso Nouveau Dictionnaire d’Histoire Naturelle. Outrora encontradiça na "baixa bacia dos rios Paraná e Uruguai (nordeste extremo da Argentina, Paraguai, Uruguai), inclusive a faixa fronteiriça do Brasil"(Novo Catálogo das Aves do Brasil, pag.130, do mestre Olivério Pinto). Conta o sempre lembrado prof. Helmut Sick que «no começo do século passado era comum ao longo do rio Paraná, perto de Corrientes, Argentina». A seu ver, o estranho desaparecimento da espécie, numa época em que eram relativamente suportáveis as agressões humanas a seu hábitat, pode ter como explicação alguma epidemia devastadora (epizootia) ou outra catástrofe natural. Ironicamente, o único exemplar vivo de Anodorhynchus glaucus visto por Jean Delacour, famoso ornitólogo francês, encontrava-se recluso no Jardim d’Aclimation, de Paris, na mesma França que gerou o notável Vieillot (ele descreveu a espécie 89 anos antes!). Será que a arara-azul-pequena está mesmo extinta? Novas e mais minuciosas expedições não poderão «ressuscitá-la», devolvendo ao mundo essa linda arara com plumagem azul-clara-esverdeada?

É de se lamentar que tão magníficas aves azuis tenham a pairar sobre sua poderosa cabeça a espada sinistra de Dâmocles. Analise-se o caso de Anodorhynchus leari, a arara-azul-de-lear (71 cm), dada como quase extinta, de origem desconhecida, e, em dezembro de 1.978, maravilhosamente descoberta por mestre Sick e seus valorosos escudeiros científicos Dante Martins Teixeira e Luíz Pedreira Gonzaga. E logo onde? No matriarcal e fecundo (apesar de inóspito) Raso da Catarina, no sertão baiano. Bastante ameaçada pela crescente destruição da planta produtora de seu principal alimento, a palmeira licuri (Syagrus coronata), cujos coquinhos são o maná que lhe assegura a vida. Felizmente, importantes medidas estão sendo tomadas para devolver ecossistema local tão valiosa palmácea. Até mesmo a enorme, majestosa e imensa Anodorhynchus hyacinthinus, arara-azul-grande (96 cm), encontra-se hoje sob risco severo, «graças» aos amaldiçoados responsáveis pelo comércio ilegal que a está dizimando. Os réus principais são os compradores, os que, cinicamente - grandes patifes! - asseguram as altas cotações, os preços astronômicos por exemplar, atiçadores da cobiça dos bandidos ecológicos que, explorando a revoltante penúria dos sertanejos, dão caça atroz aos filhotes. Chegam ao criminoso cúmulo de derrubar árvores e buritis centenários que abrigam, há gerações, os filhotes da espécie. Até quando, presidente Itamar? Aqui é preciso fazer uma pausa. Para aplaudir e dar valor ao trabalho sério e valioso, que certamente dará os melhores frutos, desenvolvido por diligente estudiosa dos hábitos da espécie, em busca de alternativas viáveis que assegurem seu futuro.

O fato é que, das três Anodorhynchus primitivamente presentes no Brasil, uma parece que já se foi e as duas remanescentes lutam para fugir das investidas de Caronte, o sombrio barqueiro da Morte, que quer abater-se, famélica, sobre ambas. Vamos permitir isso?

E quanto às araras mais legítimas que existem (se é que se pode dizer isso), as únicas que pertencem ao gênero Ara, descrito em 1.799 por Lacépède? Coube a Linnaeus, o sábio de Upsala, o pai genial da nomenclatura científica binominal, descrever Ara macao (89 cm), uma das duas rubrolindas araras vermelhas de nossa ornis. E isso já faz tempo. Foi em 1.758. Também pronunciou solenemente o Eu te batizo a outra irresistível carmen dos trópicos, Ara ararauna (80 cm), a berrantemente soberba arara-canindé. Neste caso, também em 1.758, o mestre imortal (VIVAT SCIENTIA! VIVAT LINNAEUS!) talvez estivesse nos braços de Baco, sob efeito do melhor vinho de sua adega, pois todos nós sabemos que a sulfúrea canindé não é preta (una) e sim amarela no lado ventral. Ou, quem sabe, o una refira-se ao azul extremamente escuro, carregado, de alguns exemplares que, vistos a alguma distância, podiam parecer negros (a arara azul-grande também é chamada popularmente de una e até preta!). A não ser que também entre essas araras, ocorra o fenômeno do melanismo, que atinge alguns indivíduos ou certas populações de animais. Há até onças melânicas! Cá pra nós, tenho uma suspeita que ainda não confirmei sobre o assunto. Após pôr em prática a teoria, voltarei ao tema. A última das três grandes representantes do gênero Ara no Brasil é a Ara chloroptera (90 cm), garrida colombina alada que, observada com atenção, revela-se bem diferente de sua prima Ara macao. Nota-se, à primeira vista, que não possui amarelo nas asas. E plumas verdes ou com pontas verdes estendem-se ao dorso. A face é cravejada com linhas de minúsculas plúmulas vermelhas. Há mais diferenças, menos notórias. Também as vozes diferem. Ara macao, da Amazônia, Mato Grosso e Pará emite gritos menos fortes que Ara chloroptera, que teve sua carteira de identidade científica assinada por Gray, em 1.859.

Essas araras, três das quais autênticos e inconfundíveis símbolos da exuberante avifauna da América Latina, embora ainda não integrem o assustador livro vermelho das espécies ameaçadas, podem, se não se tomar enérgicas providências, sofrer em breve as tenebrosas conseqüências da tresloucada cobiça e irresponsabilidade humanas. Basta dizer, para reforçar tal afirmativa, que as áreas de distribuição de duas delas diminuíram drasticamente. No passado, Ara chloroptera, a arara-vermelha-com-verde-nas-asas, podia ser encontrada no «sul da América Central cisandina, desde os seus limites setentrionais (da Colômbia ao Suriname) ao norte extremo da Argentina, através da porção amazônica do Equador, do Peru e da Bolívia, inclusive o leste do Paraguai e as regiões densamente florestadas do Brasil oeste-setentrional (Amazônia) e oriental (do Piauí ao Paraná e sul de Mato Grosso)», segundo o catálogo de mestre Olivério. Os desmatamentos absurdos, inconseqüentes, a captura para o comércio e até a caça com armas de fogo há muito a extinguiram de regiões mais povoadas, onde era comum. Já Ara macao (arara-vermelha-com-verde-e-amarelo-nas-asas), que ocorria «do sudeste do México e da América Central à América do Sul cisandina, desde os seus limites setentrionais (da Colômbia às Guianas) até o norte da Bolívia, inclusive o leste do Paraguai e as regiões densamente florestadas do Brasil oeste-setentrional (Amazônia) e oriental (do Piauí ao Paraná e sul do Mato Grosso)», segundo o catálogo de mestre Olivério. Os desmatamentos absurdos, inconseqüentes, a captura para o comércio e até a caça com armas de fogo há muito a extinguiram de regiões mais povoadas, onde era comum. Já Ara macao (arara-vermelha-com-verde-e-amarelo-nas-asas), que ocorria «do sudeste do México e da América Central à América do Sul cisandina, desde os seus limites setentrionais (da Colômbia às Guianas) até o norte da Bolívia, incluindo o leste do Equador, nordeste do Peru amazônico das fronteiras setentrionais extremas ao leste do Pará e norte de Mato Grosso)», embora ainda seja relativamente comum, não é tão abundante como outrora - longe disso -, sofrendo os mesmos problemas que ameaçam sua prima rubro-verde, só que em escala algo menor, por estar presente em áreas menos habitadas pelo homem.

E a cativante arara-canindé? Era vulgar (excetuando-se Santa Catarina e Rio Grande do Sul) em todo o Brasil. Foi duramente vitimada pela captura para o tráfico de aves, caça com armas de fogo e boçal destruição de seu hábitat. Todos esses desvarios continuam nos dias atuais, tanto que grande parte das regiões onde constituía presença obrigatória ressentem-se de sua ausência, com graves prejuízos estéticos e ecológicos. Ocorre que, pelo fato de todas as araras se nutrirem de frutos macios e amêndoas duríssimas, é ampla sua contribuição na dispersão de numerosas espécies botânicas. Lembrando a existência de araras menores (Ara auricollis, A. severa. A manilata, A. maracana e Ara nobilis), sejamos francos e objetivos. Como bem opinou o prof. Helmut, não são araras de verdade e sim maracanãs (exceto, talvez, Ara severa, que mede 50 cm.) Nenhuma está seriamente ameaçada, a não ser pela crescente devastação de seu mundo, onde se encontram as áreas de alimentação e os ocos onde procriam. A propósito, é o momento de enfatizar o seguinte: ninguém deveria ignorar a enorme importância ecológica de todos os psitacídeos, grupo em que sobressaem as araras. Não só por contribuírem ativamente na difusão de sementes, no plantio e reforço genético de florestas, mas também na construção de ocos e cavidades benéficos à sobrevivência e vitais à reprodução de outras aves, mamíferos, répteis, insetos etc. que precisam dessas dendrofurnas para abrigo de ovos e filhotes, também utilizando-as como casa e refúgio. Sem as araras e seus bicos poderosos, que rompem facilmente a celulose da madeira morta, muitos animais não teriam condições de sobreviver.

Ainda no grupo das araras, faltou mencionar Cyanopsitta spixii, a ararinha azul-cinzenta (57 cm), descrita em 1.832 por Wagler. Trata-se, ao que tudo indica, da ave mais ameaçada do mundo, pois na Natureza sobrevive tão somente um único e afortunado exemplar, o macho que deu notoriedade mundial a Curaçá, lugarejo da Bahia. O nosso AO tem trazido todas as informações sobre as agora sérias tentativas para impedir que a espécie receba o peçonhento, mal-cheiroso beijo de Perséfone, a sinistra personificação da Morte. No número 45 há interessante relato do apolíneo Carlos Keller (Carlos, trate de lembrar-se de mim; escrevi-lhe há alguns anos; não decresceu meu interesse por um casal de Pipile jacutinga, a ave-símbolo da cidade que adotei, onde hei de reintroduzi-la! Antes que você e o Victor Fasano transfiram o criadouro para o Rio hábitat da belíssima Paula Morelenbaum, a morena-padrão, a brônzea, afinadíssima cotovia carioca, NÃO SE ESQUEÇAM DE MIM!), com pormenorizado histórico de como chegamos ao revoltante estágio atual... Se não fosse um psitacídeo, poderíamos dizer que o raríssimo remanescente é sobrinho do pato Gastão, a sorte em pessoa. Como, até agora, Azulego Derradero (acabo de batizá-lo com o nome que certamente o grande Chatô, Assis Chateaubriand, lhe daria como sincera homenagem, sem qualquer receio de ferir suscetibilidades) continua vivo? Através de que artimanhas tem conseguido safar-se dos infalíveis primos de Carcará, o que pega, mata e come? A resposta (posso estar enganado) parece ser a óbvia até com os predadores da caatinga estão conseguindo acabar... Mas o biólogo Marcos Da Ré, autêntico anjo da guarda de Azulego Derradero, vem cumprindo maravilhosamente bem sua nobre missão. E o grupo criado para tentar garantir a sobrevivência de Cyanopsitta spixii na Natureza também é ágil como o bote da cascavel do agreste, mas ataca e morde principalmente o Tempo e interesses pessoais, principais inimigos de Azulego Derradero. O viveiro para abrigar a insinuante noiva do sertanejo dos ares já está pronto e equipado, com a Julieta da seca em seu interior, à espera do momento ideal para o casamento do século. Até Luíz Gonzaga e Lampião devem voltar do além, não vão perder tamanha festança, ó xente. Já ouço a sanfona benta do pai de Asa Branca, tocando até o dia raiar!... Voltando à realidade, parece-me, com o devido respeito, que o ideal seria seguir o exemplo vitorioso que praticamente conseguiu impedir a extinção do tão ameaçado condor-da-califórnia, através da captura dos remanescentes (todos!), sua reprodução em cativeiro e posterior reintrodução na Natureza, com êxito retumbante. No entanto, vamos apoiar a séria luta dos guadiães da última ararinha rogando aos deuses da caatinga que abençoem seus esforços. Para concluir, gostaria de lembrar que as araras não são apenas enfeites da Natureza. As razões de ser de sua existência, os graves motivos ecológicos e genéticos que possibilitaram, em tempos muito antigos, seu surgimento (psitacídeos brasileiros existem há pelo menos 20 milhões de anos) escapam, em grande parte, à nossa pigméia inteligência. Os homens, símios que são, só vêem as bananas, só querem as bananas, não importa que, para obtê-las, arruínem o bananal. Já é tempo de levantarmos os olhos de narcisos do espelho fútil de nossa destrutiva egolatria. Tudo que existe na Terra é importante. Se até as coleantes minhocas são vitais à sobrevivência do nosso lar planetário, o que dizer das multicores odaliscas emplumadas, aves de sonho, longas como espadas policrômicas. Convém não esquecer que nosso país já foi denominado Brasilia sive terra papagallorum, Terra dos Papagaios. Num mapa de 1.500 há, representando nossa terra, três araras vermelhas. Que os filhos da pátria mais rica em psitacídeos (69 espécies, possuindo até mesmo as maiores, as araras) também sejam seus mais denodados protetores. A luta é árdua, interminável. Conservacionistas, ornitólogos, mecenas de nossa causa: ao trabalho! Sejam os bravos tamoios da salvaguarda ambiental, a exemplo do viril personagem da poesia épica que abre este texto, composta pelo lírico Orfeu do Maranhão para ser lida e posta em prática por homens verdadeiramante dignos desse nome. ____________________

ATENÇÃO: O título da coluna e do artigo, o texto e todos os personagens fictícios nele inseridos, tudo copyright de Otávio Salles Almeida. Qualquer transcrição de trecho ou outro tipo de utilização, só com autorização expressa e por escrito do autor (Caixa Postal 71 - 37590-000 Jacutinga-MG- Brasil)

 

 

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